A maior transformação da liderança empresarial


E as empresas que entendem isso constroem reputações mais consistentes e duradouras

Por Nizan Guanaes – Valor – 16/06/2026

Enquanto todos estão colocando a tecnologia como principal vetor de transformação das empresas, eu, por dever de ofício e senso de realidade, divido esse pódio com a comunicação. Não porque os comunicadores tenham tomado o poder, mas porque a comunicação tomou conta de tudo.

O CEO virou mídia, e essa talvez seja a maior transformação da liderança empresarial contemporânea. Durante décadas, as empresas eram definidas pelo que produziam. Hoje, são definidas em grande parte pelo que as pessoas falam delas e pela velocidade com que falam. Steve Jobs, sempre visionário, percebeu isso lá atrás, com suas apresentações de produtos que de tão icônicas viraram até filme de Hollywood.

Uma crise que antes podia levar meses para ganhar corpo, hoje nasce pela manhã, viraliza à tarde e destrói valor à noite. Basta um post, uma declaração, um vídeo captado por câmeras onipresentes e lá se vão bilhões em valor de mercado e uma reputação construída arduamente ao longo de anos, décadas.

Mas existe uma razão ainda mais profunda para essa mudança. As redes aproximaram tudo de todos, tornaram o inacessível acessível. E agora as pessoas não querem ouvir o comunicado, o porta-voz, o organograma. Elas querem ouvir o líder. O CEO não pode terceirizar confiança. Por isso, o executivo moderno deixou de ser apenas gestor de operações. Ele virou também gestor de significado.

O líder de hoje precisa explicar a seus públicos para onde a empresa está indo, traduzir complexidades e gerar clareza. Em um mundo saturado de informação, ganha quem explica bem, quem cria sentido e quem sabe endereçar as dores e desejos do consumidor.

Líderes que conseguem vender ideias fortalecem suas organizações. Porque as pessoas não compram apenas produtos. Compram narrativas sobre o presente e o futuro. E toda narrativa precisa de alguém que a sustente. Diego Barreto, CEO do iFood, representa uma vertente dessa transformação. Ele não usa suas redes para falar apenas do iFood (“disclaimer”: o iFood é meu cliente). Ele as usa para discutir liderança, tecnologia, gestão, aprendizado contínuo e negócios. Ele entendeu que a influência de um CEO não nasce apenas da autoridade do cargo, mas da capacidade de gerar conhecimento relevante para o mercado. Sua comunicação não busca apenas audiência, busca relevância. E relevância é o ativo mais escasso da economia da atenção. Ao compartilhar aprendizados, erros, referências e reflexões, Diego ajuda a construir confiança, fundamental para toda grande empresa.

Outro ponto importante é a consistência. Num mundo onde qualquer pessoa publica qualquer coisa, credibilidade virou um prêmio raro. Mudar de posição não é problema. Afinal, toda empresa muda, toda estratégia evolui. O problema é mudar escondido. As pessoas aceitam mudanças, o que elas não aceitam são contradições sem explicação. O consumidor perdoa um erro. O funcionário perdoa uma decisão difícil. O investidor perdoa um trimestre ruim. O que ninguém perdoa é a sensação de estar sendo enganado. Por isso, a comunicação não é mais feita por quem controla mensagens, mas por quem constrói confiança.

Os CEOS modernos entendem que seu papel na organização não é só o de gestor de resultados, mas o de produtor de significado e construtor de confiança. Ou seja, um comunicador. Quem não entender isso ficará preso a um modelo de liderança que pertence ao século passado.

A comunicação deixou de ser departamento para se tornar infraestrutura. Como energia, tecnologia, logística. Isso mudou o papel do líder.

Se o CEO antigamente focava em administrar ativos, hoje ele administra atenção. Cuidar da operação agora inclui cuidar da narrativa. O velho CEO tinha um porta-voz. O novo CEO é o porta-voz. Porque liderança é presença, e presença gera confiança.

A tecnologia mudou (quase) tudo, mas um fundamento continua firme. Pessoas confiam em pessoas. E as empresas que entendem isso constroem reputações mais consistentes e duradouras.

Nizan Guanaes é estrategista da N. ideias.

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https://valor.globo.com/empresas/coluna/a-maior-transformacao-da-lideranca-empresarial.ghtml 

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