A corrida invisível pela energia que vai definir o lugar do Brasil no mundo


O País gera energia de sobra, mas gerar não é o mesmo que entregar

Rodrigo da Silva – Estadão – 02/06/2026

Não há nada mais imaterial, à primeira vista, do que digitar uma pergunta num assistente de IA e ver a resposta surgir na tela em questão de instantes. E, no entanto, poucos gestos do nosso a dia a dia mobilizam tanta matéria.

Cada pergunta consome energia: uma trivial gasta o equivalente a uma busca no Google; uma que exija um raciocínio mais pesado pode custar dez vezes mais. Parece pouco – até a gente multiplicar por bilhões de consultas diárias.

E não é só energia. Cada pergunta também consome água, porque os servidores que processam a resposta precisam ser resfriados. Consome espaço, linhas de transmissão, fibra óptica.

Em 2024, os data centers já consumiam cerca de 415 terawatts-hora de eletricidade por ano. A Agência Internacional de Energia projeta que esse consumo pode beirar os 1.000 terawatts-hora em 2030 – algo superior a toda a eletricidade que o Brasil gera num ano.

Só os quatro primeiros grandes complexos de IA anunciados no nosso país já têm consumo potencial equivalente ao de mais de 16 milhões de residências. Na Irlanda, a previsão é que os data centers respondam por 1/3 de toda a demanda elétrica nacional em 2026. E nós estamos só no começo dessa tecnologia.

Nos anos 1950, as grandes potências competiam por bombas atômicas; nos anos 1980, por mísseis intercontinentais. Em 2026, a corrida estratégica é por energia.

Nos últimos meses, os Estados Unidos aprovaram pacotes bilionários para ampliar a sua capacidade de geração – reatores nucleares de nova geração, fazendas solares do tamanho de cidades inteiras, parques eólicos. A China instalou, só em 2023, tanta capacidade solar quanto o mundo inteiro havia instalado no ano anterior, e mantém esse ritmo numa escala sem precedentes. Os países do Golfo despejam bilhões de petrodólares em projetos que combinam energia barata, vastas extensões de terra e políticas agressivas de atração de empresas de tecnologia.

Energia virou sinônimo de capacidade de IA, e capacidade de IA está se tornando sinônimo de poder militar e independência tecnológica. O país que conseguir alimentar mais data centers com energia barata e confiável treinará os melhores modelos e dominará as indústrias do futuro.

Mas alimentar um data center não significa só gerar eletricidade. Significa entregar essa eletricidade de forma estável, em escala e com velocidade. Um modelo de inteligência artificial pode levar meses sendo treinado em milhares de processadores trabalhando simultaneamente; se a energia oscila ou falha, o treinamento inteiro pode ser interrompido, e com ele milhões de dólares. Por isso esses complexos vêm sendo concebidos quase como infraestruturas críticas – mais próximos de uma refinaria ou de uma base militar do que de um centro tecnológico convencional.

Por décadas, as empresas do Vale do Silício podiam nascer numa garagem e alcançar bilhões de pessoas sem ocupar muito mais do que alguns metros quadrados. Os grandes clusters de IA romperam com essa lógica. A IA precisa de áreas enormes, próximas a linhas de transmissão robustas, com acesso a água e boa conectividade.

Um único data center moderno pode consumir milhões de litros de água por dia para resfriar os seus servidores. No condado de Newton, na Geórgia, uma única instalação da Meta consome 500 mil galões por dia – o equivalente a 10% de todo o consumo de água do condado. No Texas, a projeção é que os data centers cheguem a consumir quase um trilhão e meio de litros de água por ano até 2030.

Para situar essa cifra: um brasileiro consome, em média, 175 litros de água por dia para tudo – beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa, dar descarga. São 64 mil litros por pessoa ao ano. A água que os data centers texanos devem consumir em 2030 abasteceria, por um ano inteiro, mais de 23 milhões de brasileiros: mais do que toda a população da Grande São Paulo.

Vale a pena descrever o percurso. Quando alguém usa um serviço como o ChatGPT, a pergunta sai do celular, viaja por cabos submarinos e redes de fibra óptica, chega a um data center provavelmente instalado nos Estados Unidos, é processada por milhares de chips em paralelo, e a resposta retorna em poucos segundos. Não se paga diretamente por isso – ou se paga uma assinatura de vinte dólares por mês. Parece barato, quase gratuito. Mas não é: a experiência só existe porque empresas americanas investiram bilhões para construir essa infraestrutura.

É aqui que o caldo engrossa. Quando uma empresa brasileira usa inteligência artificial, ela está, na prática, alugando inteligência. E esse movimento se aprofunda com o tempo.

No começo, a empresa contrata um serviço estrangeiro de IA porque é fácil, rápido e funcional. Aos poucos, ela adapta processos a essa ferramenta – integra sistemas, treina equipes, acumula dados dentro da plataforma. Três anos depois, trocar de fornecedor vira uma tarefa quase impossível: os dados estão lá, os fluxos de trabalho estão lá, o conhecimento da equipe é sobre aquele produto. Mudar significaria parar tudo, retreinar tudo, migrar tudo – um custo que a maioria não está disposta a pagar. A economia tem um nome para isso: lock-in. Você entra com facilidade, mas sair é bem caro.

O salto vem quando isso deixa de valer para uma empresa e passa a valer para um país inteiro. Quando o sistema de saúde roda em IA americana, o sistema judiciário roda em IA americana, o sistema financeiro roda em IA americana. Nesse caso, o que o país tem não é uma escolha de fornecedor: é uma dependência estrutural.

Nessa corrida, alguns países são estratégicos. O Brasil é um deles, e por razões que pouquíssimos lugares conseguem reunir ao mesmo tempo.

A primeira vantagem é a matriz elétrica: quase 90% da nossa eletricidade vem de fontes renováveis – hidrelétricas, eólicas, solar e biomassa. É uma raridade. Boa parte dos nossos concorrentes na corrida da IA ainda depende muito de gás natural e carvão, e isso pesa porque as grandes empresas de tecnologia assumiram compromissos públicos de neutralidade de carbono e precisam de energia limpa.

A segunda é a água. O Brasil detém 12% de toda a água doce do mundo e abriga a maior bacia hidrográfica do planeta. Diante do que nós vimos no Texas e na Geórgia, isso não é um detalhe.

A terceira é o território. Data centers de grande porte exigem áreas imensas. Em boa parte da Europa e da Ásia, o custo da terra inviabiliza essa indústria. No Brasil há espaço de sobra.

A quarta é o mercado. O Brasil tem 214 milhões de habitantes e a maior economia da América Latina, com um sistema financeiro sofisticado, um agronegócio de referência mundial, um sistema de saúde que atende 190 milhões de pessoas e um Judiciário que processa dezenas de milhões de casos por ano. Todos esses setores são candidatos naturais à adoção em massa de inteligência artificial – e quanto maior a adoção local, maior o incentivo para que os modelos sejam treinados aqui, calibrados para a realidade brasileira.

Há ainda vantagens de posição. O Brasil está conectado por cabos submarinos à América do Norte, à Europa e à África. Como escrevi dia desses nessa coluna, Fortaleza virou um dos principais pontos de conexão transatlântica do mundo.

Mas os nossos desafios não são pequenos. O Brasil gera energia de sobra, mas gerar não é o mesmo que entregar. Entre a hidrelétrica e o data center há milhares de quilômetros de linhas de transmissão a construir ou modernizar, e isso no nosso país não avança na velocidade necessária. Os pedidos de conexão de data centers à rede elétrica já ultrapassam 26 gigawatts; como o pico de consumo de todo o país é de 105 gigawatts, só as solicitações já protocoladas representam 1/4 da nossa demanda máxima.

A energia existe. O que falta é que ela chegue. Os leilões de transmissão são lentos, os licenciamentos ambientais se arrastam, as filas de conexão travam – e, enquanto isso, empresas dispostas a investir aguardam, e muitas acabam migrando para outro país.

Soma-se a esse gargalo o excesso de burocracia: para erguer um data center no Brasil são necessárias licenças federais, estaduais e municipais, passando por Anatel, Ibama, secretarias de meio ambiente e prefeituras – camadas e mais camadas de aprovação. Enquanto nós discutimos licenças, os outros países estão ligando os servidores.

E esse nem é o problema mais grave. O mais grave é que o Brasil ainda não decidiu que papel pretende ocupar nessa corrida. A política brasileira tem se concentrado, até aqui, numa única ambição: trazer os servidores para cá. Oferecer incentivo fiscal, energia barata, terreno, e torcer para que as grandes empresas escolham o Brasil.

Isso não é uma estratégia. É uma concessão. Atrair um data center da Microsoft ou da Amazon para o interior de São Paulo é ótimo para a arrecadação e para a construção civil. Mas se essa instalação processa dados de outros países e a inteligência produzida ali serve a clientes estrangeiros, o Brasil está apenas alugando território, energia e água, e recebendo em troca uma fração mínima do valor gerado.

A França condicionou os seus incentivos fiscais à criação de centros de pesquisa; os Emirados Árabes Unidos vincularam a atração de investimento à transferência de conhecimento. O Brasil, hoje, vende luz e água mais baratas.

Por fim, falta gente. Nós formamos bons engenheiros, bons cientistas da computação, bons matemáticos – mas formamos poucos, e perdemos muitos. Um pesquisador de IA formado na USP ou na Unicamp recebe aqui uma fração do que receberia no Vale do Silício ou em Londres. Como o trabalho remoto virou uma norma nessa indústria, muitos sequer precisam deixar o país para trabalhar lá fora, o que significa que o talento brasileiro está sendo usado para construir a infraestrutura de IA de outras nações.

Não há soberania tecnológica sem pessoas. É possível ter toda a energia, toda a água e todo o território do mundo; sem os cérebros que convertem esses recursos em modelos e produtos, um país segue sendo só um fornecedor de matéria-prima.

O fato é que a janela está aberta. As vantagens são reais. Mas uma janela aberta sem ninguém capaz de atravessá-la não passa de um buraco na parede.

Cada leilão de transmissão atrasado, cada licença emperrada, cada data center que termina no Chile ou no México, é um pedaço de futuro decidido à nossa revelia.

O Brasil já viveu esse roteiro. Exportou pau-brasil, açúcar, ouro, café e minério – sempre a matéria bruta. A energia limpa que nós temos hoje é uma oportunidade para também ficar com a parte que pensa, e não só com a que se extrai. Mas chance não é destino. E a escolha que não se faz também é uma escolha – só que tomada no escuro, no exato instante em que se decide não decidir.

Opinião por Rodrigo da Silva

É jornalista e criador do canal Spotniks, do YouTube. Em suas colunas, usa texto, vídeo, gráfico, mapa e fotografia para ajudar o público a entender os maiores eventos globais, com clareza e contexto.

A corrida invisível pela energia que vai definir o lugar do Brasil no mundo – Estadão 

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