Matemática na primeira infância


A desigualdade começa cedo e tem várias dimensões

Por Naercio Menezes Filho – Valor – 22/05/2026 

É professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper e professor associado da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP)

Há muitas evidências mostrando que o brasileiro não costuma tomar as melhores decisões financeiras no seu dia a dia. Muitos compram produtos acima da sua capacidade de pagamento, não planejam seu orçamento e tomam decisões impulsivas. Assim, muitas famílias brasileiras estão muito endividadas, muitas vezes pagando juros altos. Porque será que isto ocorre? Será que estes problemas começam na primeira infância?

Uma pesquisa lançada recentemente esclarece várias destas questões. Trata-se do “Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância”, desenvolvida pela OCDE em vários países, que teve os resultados sistematizados no Brasil pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. A parte brasileira foi conduzida com crianças de 5 anos de idade que frequentavam a educação infantil em três Estados brasileiros: São Paulo, Ceará e Pará. O que mostram os resultados?

O estudo mostra, em primeiro lugar, que as crianças brasileiras têm um conhecimento satisfatório dos primeiros passos para o letramento, mas que seu aprendizado sobre os princípios de matemática deixa muito a desejar. A criança letrada nesta faixa etária consegue compreender narrativas, sentenças curtas e o significado de algumas palavras. Nestes quesitos, as crianças brasileiras estão em linha com as dos demais países que fizeram parte da pesquisa. Em termos de habilidades matemáticas, os pesquisadores avaliaram se as crianças sabem reconhecer e contar os números e comparar quantidades e tamanhos de objetos, por exemplo. Nestes quesitos, porém, as crianças brasileiras ficaram muito abaixo de países como Coreia, Inglaterra, Holanda, Emirados Árabes e Azerbaijão.

O estudo também mostra como esta deficiência na matemática vai se ampliando ao longo do ciclo escolar. Exames internacionais realizados com alunos do 4 e do 8 ano do ensino fundamental (TIMSS), mostram que os alunos brasileiros neste ciclo têm um desempenho ainda menor do que a média internacional. Os resultados de outro teste internacional (Pisa) mostram que a maior parte dos alunos brasileiros de 15 anos de idade não consegue resolver problemas matemáticos elementares.

Assim, nossos problemas com a matemática começam bem cedo. A falta de familiaridade com esta disciplina vai tornando o seu aprendizado cada vez mais difícil, até que ela se torna um obstáculo intransponível. Assim, não surpreende que os brasileiros estejam tão endividados, apostem em bets para tentar ganhar dinheiro, comprem títulos de capitalização com retorno zero e sejam tão facilmente enganados por agentes financeiros. E explica também porque os cursos de educação financeira, rotineiramente oferecidos por várias instituições, não têm nenhum impacto na vida dos participantes. Lhes falta a base.

Em termos de desigualdade, os resultados de matemática também são preocupantes, pois os alunos mais ricos têm habilidades matemáticas iniciais bastante superiores às dos alunos mais pobres, já aos 5 anos de idade. Mas, vale notar que mesmo as crianças brasileiras mais ricas têm desempenho abaixo da média obtida pelas crianças coreanas e inglesas. Também há diferença significativas entre crianças que frequentam pré-escolas públicas e privadas, que persistem mesmo após levarmos em conta as diferenças de nível socioeconômico.

Outro ponto importante avaliado pela pesquisa diz respeito às chamadas “funções executivas” das crianças de 5 anos de idade. Estas funções refletem a capacidade das crianças de organizar as suas atividades no dia a dia, planejar e executar tarefas, concluir estas tarefas apesar das interrupções e distrações, controlar impulsos, manter o foco e realizar diferentes ações simultaneamente. O principal período de desenvolvimento destas funções na vida das pessoas ocorre dos 0 a 6 anos de idade.

Os resultados nestas dimensões também foram decepcionantes para as crianças brasileiras. Em termos da “memória de trabalho”, que mede a capacidade de armazenar informações e seguir instruções, que são habilidades essenciais para o aprendizado, as crianças brasileiras ficaram muito atrás da média internacional. Em termos do “controle inibitório”, que mede a capacidade de controlar e filtrar pensamentos inconvenientes e de controlar sua atenção e comportamento, as crianças brasileiras também estão muito atrás das demais. O estudo também mostrou grandes diferenças nestes indicadores entre crianças mais ricas e mais pobres. A desigualdade começa cedo e tem várias dimensões.

O baixo desenvolvimento das funções executivas pode explicar porque a maior parte dos alunos brasileiros não conseguem terminar a prova do Pisa, por exemplo, abandonando o exame logo nas primeiras questões, ao contrário dos jovens de outros países, que fazem a prova até o fim com concentração e determinação. Sem estas habilidades plenamente desenvolvidas, fica muito difícil prosseguir nos estudos e ter sucesso profissional. Outro problema que surge é que as crianças brasileiras tem baixa capacidade de estabelecer relações confiáveis com pessoas próximas. Isto pode explicar porque os brasileiros adultos são o povo que menos confia nos seus compatriotas.

O que os pais podem fazer para melhorar esta situação? A pesquisa mostra que somente metade dos pais brasileiros conversam sobre sentimentos com as crianças, bem menos do que nos outros países. Além disto, apenas 14% dos pais leem livros para as crianças pelo menos 3 dias na semana, ao passo que a média nos demais países é 54%. Além disto, metade das crianças brasileiras usam o celular todos os dias, o que está associado a uma diminuição de 10 pontos no aprendizado de letramento e habilidades matemáticas. Assim, mudanças no comportamento dos pais certamente poderiam melhorar o aprendizado das nossas crianças.

Do ponto de vista dos professores, os resultados da Prova Nacional Docente divulgada esta semana pelo governo mostram como será difícil contar com eles para melhorar o aprendizado de matemática. Os resultados mostram que, entre os concluintes das licenciaturas no ano passado, 42% não alcançaram o desempenho mínimo. Entre os concluintes do curso de Matemática, 56% estavam no nível abaixo do básico. E entre os alunos de cursos à distância (que a são maioria atualmente) o desempenho foi ainda pior. Em suma, será bem difícil melhorar o aprendizado de matemática no Brasil.

Naercio Menezes Filho é professor titular da Cátedra Ruth Cardoso no Insper, professor associado da FEA-USP e membro da Academia Brasileira de Ciências.

https://valor.globo.com/opiniao/naercio-menezes-filho/coluna/matematica-na-primeira-infancia.ghtml 

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