Por Paulo Silvestre – Estadão – 21/05/2026
Cresci com a crença de que “TI era a profissão do futuro”. Mas agora que a inteligência artificial parece estar nos entregando o tal futuro, essas carreiras estão entre as que mais sofrem nas ondas de demissões associadas a essa tecnologia. Isso não significa que essas habilidades tenham deixado de ser importantes, mas a nossa relação com o digital está mudando.
Durante décadas, programar e operar softwares corporativos exigiam habilidades específicas. Agora a IA busca automatizar essas tarefas e tornar o uso desses sistemas tão intuitivo, que eles quase “desaparecem”.
Essa mudança começa a transparecer nos principais eventos de tecnologia do mundo, como o SAP Sapphire, que aconteceu em Orlando (EUA), nos dias 12 e 13 de maio. A IA está se tornando uma espécie de interface universal para o trabalho corporativo. Em vez de navegar por sistemas complexos, funcionários de qualquer área passam a conversar com agentes, formular pedidos e supervisionar fluxos automatizados, invadindo domínios antes restritos aos profissionais de TI.
Não se trata apenas de uma evolução operacional.
O teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan dizia, já na década de 1960, que “o meio é a mensagem”, defendendo que tecnologias transformam a sociedade pelo conteúdo que carregam e pela forma como reorganizam comportamento, percepção e relações humanas. Obviamente o contexto era outro, mas isso se aplica de novo agora.
Historicamente, softwares corporativos moldaram os usuários ao obrigá-los a pensar de maneira procedural. Agora, tudo isso começa a ser escondido atrás de plataformas conversacionais que simplificam drasticamente a interação humana com a máquina.
Sistemas complexos, como ERPs, deixam de ser “visíveis” para se tornarem uma infraestrutura silenciosa. O usuário não precisa mais entender onde a informação está, nem quais sistemas participam do processo. Basta perguntar à IA.
A promessa é sedutora, mas existe uma consequência importante nessa mudança. Quanto mais simples a interface fica, maior pode se tornar a distância entre a ação e a compreensão.
A socióloga americana Sherry Turkle estuda há décadas como tecnologias digitais alteram relações humanas, capacidade reflexiva e percepção de autonomia. Parte importante de sua obra alerta justamente para o risco de terceirizarmos processos cognitivos para sistemas que executam tarefas de forma aparentemente mágica.
Agora a IA simplifica o acesso às respostas, mas também pode reduzir o contato humano com os próprios processos que geram essas informações. Em outras palavras, pessoas podem começar a executar decisões sem necessariamente compreender os mecanismos que levaram até elas. A própria SAP parece perceber esse risco, pois, em diversos momentos do Sapphire, seus executivos reforçaram que decisões estratégicas devem continuar sob responsabilidade de humanos, que precisam entender o que acontece “embaixo do capô da IA”.
Mas a transformação é inevitável, e ela acontecerá mais no campo cognitivo que tecnológico. As pessoas tendem a escolher o mais fácil, mesmo que isso lhes traga perdas. Se esses movimentos se consolidarem, o trabalho migrará da execução operacional para a formulação de boas perguntas, supervisão de agentes, interpretação de contexto e questionamento de respostas de plataformas cada vez mais opacas.
O profissional valorizado deixará de ser aquele que domina ferramentas específicas e passará a ser aquele capaz de entender contexto, conectar repertórios, identificar inconsistências e manter capacidade crítica, mesmo diante de sistemas extremamente convincentes. Afinal, quando a tecnologia se torna invisível, ela também se torna mais difícil de questionar.
Portanto, a habilidade mais valorizada dos próximos anos não será técnica, e sim a capacidade de preservar autonomia intelectual em um ambiente cada vez mais automatizado. Saber operar IA será importante, mas saber quando questioná-la será ainda mais.
Opinião por Paulo Silvestre
É doutorando em inteligência artificial e mestre em reputação digital pela PUC-SP. Articulista do Estadão, atua como consultor e palestrante de IA, experiência do cliente e transformação digital. É professor da Universidade Mackenzie e da PUC–SP. Foi executivo do Estadão, Samsung, AOL, Saraiva e Editora Abril, e é LinkedIn Top Voice desde 2016.
Mais importante que saber “usar a IA” é saber quando duvidar dela – Estadão
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