O futuro da saúde está em tirar os hospitais do centro do atendimento


A ciência já comprovou que o conceito de hospital em casa (HEC) funciona em diversos casos. O contexto econômico, social e tecnológico é favorável. Mas por que ele ainda não decolou?

Gustavo Meirelles – MIT Sloan Management Review – 28/3/2025

Hospitais sempre foram vistos como o centro da assistência à saúde, mas será que esse modelo ainda é o mais eficiente? Com o avanço da tecnologia e a necessidade de tornar o sistema mais sustentável, começam a surgir alternativas para um atendimento seguro e eficaz fora do ambiente hospitalar.

Em 2024, o custo anual dos serviços hospitalares nos EUA ultrapassou a marca de US$ 1 trilhão. Parte disso se deve ao aumento da incidência de doenças relacionadas a internações prolongadas, como infecções hospitalares e eventos adversos evitáveis. 

Apesar do avanço da medicina, muitos indicadores de saúde mostram retrocessos, o que evidencia a necessidade de transformação no modelo assistencial. Tal cenário reforça a importância de repensar se o hospital deve, de fato, ser o centro de toda a prestação de cuidados aos pacientes.

A evolução do conceito de hospital

No século 19, hospitais eram destinados à população pobre e marginalizada. As classes mais abastadas recebiam cuidados em casa, independentemente da complexidade do quadro clínico.

Com a profissionalização da saúde e o fortalecimento da enfermagem ao longo do século 20, os hospitais passaram a ser o centro da assistência médica, consolidando-se como a principal porta de entrada do sistema de saúde. Além disso, a criação e o desenvolvimento de cursos de formação em medicina e enfermagem, privilegiando a prática hospitalar como base de aprendizado, reforçaram esse modelo de atendimento.

A crescente especialização dos profissionais e a centralização das tecnologias no ambiente hospitalar trouxeram benefícios inegáveis, como maior capacidade de diagnóstico, tratamento e procedimentos de alta complexidade. Por outro lado, isso trouxe superlotação, aumento de custos e novas ameaças, como infecções e erros médicos. 

Com a chegada do século 21, o debate sobre a sustentabilidade desse modelo hospitalocêntrico se intensificou. A demanda por serviços de saúde cresceu, impulsionada pelo envelhecimento populacional, o aumento das doenças crônicas e os custos crescentes de tratamentos de alta tecnologia. 

Nesse contexto, diversos atores do setor passaram a questionar se a concentração do cuidado no hospital realmente oferece a melhor relação custo-benefício para todos os perfis de paciente. Mas essa discussão começou a criar forma ainda no século 20.

Hospital em casa: a descentralização do cuidado

Desde a década de 1970, com o desenvolvimento dos primeiros sensores biométricos e o início do monitoramento remoto, surgiu a ideia de que determinados pacientes poderiam ser tratados fora do hospital com segurança e eficácia. O conceito de hospital em casa (HEC) surgiu no Reino Unido ainda nos anos 1970, propondo um modelo de atendimento domiciliar para reduzir custos e melhorar desfechos clínicos.

Nas últimas duas décadas, avanços em monitoramento remoto, dispositivos vestíveis, análise de dados estruturados e telemedicina impulsionaram a viabilidade do HEC. Ele deixou de ser uma experiência restrita a estudos-piloto e se tornou um modelo consolidado em várias partes do mundo, com respaldo de evidências científicas robustas. 

Programas de HEC já foram implementados com sucesso em países como Austrália, Canadá e Espanha. Em todos eles, a modalidade não apenas reduziu o tempo de internação como também melhorou a satisfação de pacientes e familiares.

Durante a pandemia, o interesse por modelos de HEC cresceu ainda mais. Com a necessidade de distanciamento social e a superlotação dos hospitais, muitas instituições aceleraram a adoção de soluções de monitoramento remoto e teleconsultas. 

Pessoas com quadros clínicos estáveis puderam receber acompanhamento médico em casa, liberando leitos hospitalares para casos mais graves. Essa experiência prática reforçou a ideia de que, em muitas situações, o hospital pode não ser o melhor lugar para o paciente.

Para quais pacientes o hospital em casa é indicado?

Nem todas as condições clínicas são elegíveis para esse modelo de assistência. Estudos apontam que doenças crônicas e algumas linhas de cuidado selecionadas, como pneumonia adquirida na comunidade e infecção urinária, são as que mais se beneficiam do HEC.

Nessas situações, o risco de complicações pode ser controlado de maneira eficaz em casa, desde que haja uma equipe multidisciplinar acompanhando o paciente, seja de maneira presencial ou virtual.

O atendimento pode ocorrer em diferentes formatos.

  • Presencial: com visitas periódicas de profissionais de saúde, que realizam avaliações, procedimentos e coleta de exames.
  • Híbrido: combinando visitas presenciais com monitoramento remoto e teleconsultas.
  • Virtual: apoiado principalmente em dispositivos de monitoramento (smartwatches, sensores de sinais vitais) e plataformas de telemedicina, com idas pontuais de profissionais ao domicílio, quando necessário.

Além de trazer benefícios ao paciente, o HEC pode ser uma solução para o esgotamento físico e emocional dos profissionais de saúde, agravado no período pós-pandemia.

Em vez de lidar com a superlotação hospitalar, a equipe atua de maneira mais focada e personalizada, reduzindo a carga de trabalho presencial e melhorando a qualidade da interação com o paciente. 

Esse modelo também favorece a humanização do cuidado. O paciente permanece em seu ambiente familiar, cercado por seus entes queridos, o que pode acelerar a recuperação.

Custos e sustentabilidade: o que falta para o HEC se consolidar?

A tecnologia para viabilizar o HEC já está desenvolvida, regulamentada e validada cientificamente. Então, o que impede uma adoção em larga escala?

  1. Modelo de financiamento: fontes pagadoras, como planos de saúde e sistemas públicos, ainda operam sob um paradigma hospitalocêntrico. A transição para modelos de pagamento baseados em valor pode acelerar a incorporação do HEC.
  2. Cultura médica e profissional: a adoção de um modelo descentralizado exige mudanças na formação e na prática dos profissionais de saúde, incluindo capacitação em telemedicina, análise de dados e gestão de tecnologia.
  3. Infraestrutura e interoperabilidade: para que o monitoramento remoto funcione, é fundamental que haja interoperabilidade entre os sistemas de saúde, garantindo que os dados do paciente fluam com segurança e privacidade.
  4. Engajamento do paciente e da família: o sucesso do HEC depende de uma boa comunicação e da segurança dos pacientes e familiares, que devem estar preparados para seguir as recomendações médicas em casa.

A mudança para um modelo assistencial menos dependente do hospital é uma necessidade econômica, clínica e social. O HEC representa um passo fundamental nessa transformação, trazendo benefícios para pacientes, profissionais e para o próprio sistema de saúde. 

Ao permitir que boa parte dos cuidados seja realizada no domicílio, o HEC traz muitas vantagens. Reduz custos, melhora a experiência do paciente e libera recursos hospitalares para casos de maior complexidade.

É fato que ainda existem barreiras a ser superadas, como a adequação dos modelos de financiamento e a evolução cultural no meio médico. Mas a pressão por maior eficiência, a disponibilidade de tecnologias avançadas e a busca por práticas mais centradas na qualidade de vida dos pacientes indicam um caminho sem volta.

Mais do que um conceito, o HEC é uma oportunidade de repensar a forma como a saúde é oferecida. À medida que profissionais, instituições e fontes pagadoras alinharem esforços para viabilizar essa modalidade, estaremos cada vez mais próximos de um sistema de saúde moderno, sustentável e verdadeiramente focado nas pessoas, dentro e fora das paredes do hospital.

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  • Artigo escrito em parceria com Anna Clara Rabha, médica pediatra, alergista e imunologista, especialista em transformação e inovação em saúde, embaixadora da Comunidade Inovação em Saúde e CEO da plataforma de telemedicina Agora Consulta.

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Gustavo Meirelles

É vice-presidente médico da Afya, fundador da Comunidade Inovação em Saúde, investidor e conselheiro de startups. Médico radiologista, com especialização, doutorado e pós-doutorado no Brasil e no exterior. Tem experiência como executivo de grandes empresas de saúde, com MBA em gestão empresarial. http://www.gustavomeirelles.com

O futuro da saúde está em tirar os hospitais do centro do atendimento – MIT Sloan Management Review Brasil

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