Bioeconomia para desenvolver a Amazônia


Exploração sustentável da sociobiodiversidade torna-se essencial para evitar o pior cenário para a região amazônica

Por Carlos Nobre, Francisco Costa e Carolina Genin – Valor – 27/09/2022

Desde o Relatório Brundtland, de 1987 – que definiu pela primeira vez o conceito de desenvolvimento sustentável -, um debate crucial ganhou corpo: o reconhecimento de que uma crise ecológica se instalara, inerente aos padrões de crescimento das sociedades industriais, os quais aprofundavam desigualdades sociais. O antídoto estava em um novo modelo de desenvolvimento.

A partir de então, desenvolveu-se um ideário de sustentabilidade, mediante o qual instituições devem primar por crescimento ecologicamente prudente, socialmente equânime e economicamente viável. Com isso, se estabeleceu a esperança de garantir para as gerações futuras as condições naturais que fundamentaram a existência das atuais.

Exploração sustentável da sociobiodiversidade torna-se essencial para evitar o pior cenário para a região amazônica

Para dar concretude a esse objetivo, se estabeleceram espaços de negociações globais, entre eles as Conferências das Partes voltadas às agendas de Clima e de Biodiversidade. Hoje, ambas as agendas convergem quando a pergunta é: como fazer a transição da economia global para uma economia menos dependente em carbono, mais justa e menos destrutiva para o planeta? As ideias e ações em torno da bioeconomia, com grande força no presente momento, são parte desse esforço.

Conceitos e práticas de bioeconomia se desenvolveram carregados do sentido de transição para uma economia de baixo carbono, do insustentável para o sustentável. De trajetórias tecno-produtivas a partir de processos mecânicos e químicos insustentáveis, que geram impacto climático, para inovações em processos produtivos capazes de desenvolver produtos de base biológica e renovável.

Essas duas rotas fundam bioeconomias focadas na redução da “pegada de carbono” das trajetórias do paradigma mecânico-químico, marca registrada do modelo econômico vigente e que não impõe limites ao crescimento. Não obstante, há uma outra rota, que tem atraído menos atenção, pautada na biodiversidade e que conserva as características naturais do ecossistema.

Análise recente lançada pelo WRI Brasil mostrou que esta outra rota se mostra a mais adequada à conservação e restauração da Amazônia – a chamada bioeconomia bioecológica, ou sociobiodiversa. Essa bioeconomia já existe em duas variantes: a que maneja os recursos da floresta em pé com zero desmatamento e a que imita as qualidades do bioma em sistemas agroflorestais cultivados e regenerativos em áreas desmatadas e degradadas, privilegiando a promoção da biodiversidade, a conservação dos ecossistemas, a habilidade de prover serviços ecossistêmicos e a prevenção da degradação do solo. Tudo isso atrelado a processos econômicos capazes de gerar renda, emprego, agregação de valor e lucro.

Essa bioeconomia é feita hoje pelas mãos de comunidades indígenas, tradicionais, quilombolas e de agricultores familiares, que já demonstram a sua viabilidade. O relatório científico de 2021 do Painel Científico para a Amazônia, criado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, mostra que o valor da produção rural deste tipo de prática saltou de US$ 400 milhões para US$ 1,1 bilhão entre 1995 e 2017, com emprego de 400 mil trabalhadores.

Outro estudo, liderado pelos pesquisadores Pedro Brancalion, da Universidade de São Paulo (USP), e Rafael Chaves, da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, mostrou que a restauração florestal já gera milhares de empregos no Brasil e que cumprir a meta de restaurar 12 milhões de hectares prevista no Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa geraria entre 1 e 2,5 milhões de empregos. A essa particular bioeconomia devem ser direcionados os investimentos, transformando a infraestrutura, as dinâmicas e os mercados atualmente precários e com baixa retenção local dos seus resultados.

A floresta tropical amazônica é um dossel fechado, onde a maior parte da energia solar é absorvida na parte superior e utilizada para a evapotranspiração, mantendo a temperatura máxima em torno de 30°C e permitindo que não mais do que 4% da radiação solar atinja o solo. Isso mantém sempre a serrapilheira muito úmida e não inflamável, não permitindo a propagação de incêndios deflagrados por descargas elétricas.

Essas condições ótimas de evolução climático-ecológica permitiram o surgimento da maior diversidade de plantas, animais e microfauna do planeta devido a temperaturas ideais e constante disponibilidade de água. São essas características da floresta úmida que os sistemas agroflorestais usam a seu favor. Em vez de corte raso para implementação de agricultura ou pecuária intensas em carbono, é feita uma combinação de árvores de diferentes espécies e tamanhos para produção de frutas, óleos, essências e outros produtos. Essa é a bioeconomia que precisa ser incentivada com grandes investimentos e ocupar as áreas já degradadas da região.

Hoje, a Amazônia está em outra direção. A combinação sinergística das mudanças climáticas com as alterações regionais causadas pelo desmatamento e degradação, colocam uma boa parte da região sul da Amazônia muito próxima do ponto de não retorno – uma “savanização” que resultará em ecossistemas de dossel aberto e degradados. Naquela região, a estação seca já se encontra de 4 a 5 semanas mais longa do que a registrada em 1979, e a floresta se tornou uma fonte de carbono, ao contrário da parte menos alterada, que remove gás carbônico da atmosfera.

Se o ponto de não retorno for ultrapassado, é muito provável que entre 50% e 70% da floresta será alterada no intervalo de 30 a 50 anos, liberando mais de 300 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, o que tornaria quase impossível atingir as metas do Acordo de Paris, alteraria os padrões de chuva em boa parte do país e fragilizaria a sua capacidade de produzir alimentos.

A urgente implementação e em escala desta nova bioeconomia bioecológica na exploração sustentável da sociobiodiversidade, baseada em ciência, inovações tecnológicas e conhecimentos tradicionais, torna-se essencial para evitar o pior cenário.

Conscientes disso, 81% dos eleitores brasileiros mencionam a Amazônia como prioridade para o próximo presidente – como mostrou pesquisa encomendada pelo Instituto Clima e Sociedade ao PoderData -, e investidores brasileiros e estrangeiros começam a voltar o olhar para uma nova economia para a Amazônia.

Nesta década decisiva, a grande contribuição que o Brasil pode dar para o clima global é também uma enorme oportunidade de trazer crescimento econômico para o país e para a população de uma das regiões mais carentes de desenvolvimento. Um grande e ágil projeto para a economia da Amazônia colocaria o Brasil novamente em uma trajetória de liderança, atraindo o capital necessário para salvar o bioma e tornando possível o nosso futuro ainda nesta década.

Carlos Nobre, cientista do Earth System, pesquisador do IEA/USP e membro da Royal Society

Francisco de Assis Costa, professor titular do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (GPDadesa-NAEA) da Universidade Federal do Pará

Carolina Genin, diretora de Clima do WRI Brasil

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/bioeconomia-para-desenvolver-a-amazonia.ghtml

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Um comentário em “Bioeconomia para desenvolver a Amazônia

  1. Fico muito feliz em ler um artigo inteligente e esclarecedor no 1o. dia de 2023 como este do Dr. Carlos Nobre e tambem do Prof. Francisco de Assis Costa . Vamos trabalhar para mostrar aos brasileiros os perigos de savanizacão / piora do clima / escassez dos alimentos – no futuro próximo – que nos deixaram. E os cientista acima nos apresentando soluções é um presente. Que falemos mais sobre isso para podermos passar para outras pessoas acrescentando que temos uma agora uma missão.

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