Como cidade barrou desmontagem de ponte do século 19 para iate de Jeff Bezos


Estaleiro desiste de pedido na Holanda; embarcação de bilionário custou US$ 500 milhões

David Segal ROTERDÃ | THE NEW YORK TIMES/Folha 16.ago.2022 

A imagem teria sido um fenômeno nas redes sociais: alguns milhares de cidadãos da segunda maior cidade da Holanda ao lado de um rio lançando ovos no novo iate de 127 metros construído para Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo.

Quando o barco passasse pela multidão, seria alvo de gemas de um alaranjado forte, além de pelo menos um ponto vermelho muito brilhante. “Eu teria jogado um tomate. Sou basicamente vegano”, diz Stefan Lewis, ex-membro do Conselho da Cidade, perto da Hef, como a ponte Koningshaven é conhecida.

Bezos e o Oceanco, estaleiro que fabricou a escuna de três mastros e US$ 500 milhões (R$ 2,5 bi), geraram revolta com o que soou como um pedido inócuo ao governo local: desmontar brevemente o trecho mediano da Hef, de 70 metros de altura, permitindo que o navio cruzasse o canal e saísse para o mar. O processo teria demorado um dia ou dois e o Oceanco arcaria com os custos.

Ponte Hef em Rotterdam, na Holanda

Pedestres caminham em via próxima à ponte Hef, em Roterdã – Ilvy Njiokiktjien – 20.jul.22/The New York Times

A ponte, de aço escuro na forma de um “H” imenso, não é de fato usada por ninguém. Serviu como passagem ferroviária durante décadas até ser substituída por um túnel e desativada no início dos anos 1990. Está sem uso desde então.

Em suma, a operação teria sido rápida, gratuita e não atrapalharia em nada. Então, por que o alvoroço? “Há um princípio em jogo”, frisa Lewis, 37. “O que você pode comprar se o dinheiro não for um obstáculo? Vai driblar todas as regras? Pode desmontar monumentos?”

No fim de junho, o vice-prefeito da cidade informou que o Oceanco havia voltado atrás e cancelado o pedido, o que foi visto como vitória das massas sobre um bilionário —embora fosse muito mais do que isso. Foi uma oportunidade de ver o antagonismo entre os valores holandeses e americanos.

Quanto mais se sabe sobre a Holanda, com sua preferência pela modéstia em vez da extravagância, pela comunidade em vez do indivíduo, mais parece que essa confusão foi roteirizada por alguém cujo objetivo era enlouquecer a população local.

O primeiro problema foi a riqueza surpreendente de Bezos. “Os holandeses gostam de dizer: ‘Agir normalmente já é loucura’. E achamos que as pessoas ricas não estão agindo normalmente. Não acreditamos que todos possam ser ricos como nos EUA, onde o céu é o limite”, afirma Ellen Verkoelen, membro do Conselho da Cidade e líder do Partido 50Plus.

Ela estava entre os que consideraram o pedido do Oceanco uma concessão razoável a uma empresa de um setor altamente competitivo. Mas viu eleitores enfurecidos e entendeu as origens disso. “Quando eu tinha 11 anos, recebemos um estudante americano de intercâmbio por uma semana. E minha mãe disse a ele que fizesse o próprio sanduíche, como nos EUA. Em vez de colocar uma salsicha no pão, ele pôs cinco. Minha mãe não disse nada, mas comentou comigo: ‘Nunca vamos comer assim nessa casa’.”

Há bilionários na Holanda, e uma enorme diferença salarial entre CEOs e funcionários. A empresa de pesquisa Statista informou que, para cada dólar ganho por um trabalhador médio, CEOs recebem US$ 171 (o valor é de US$ 265 nos EUA, maior disparidade entre todos os países).

A diferença é que os ricos na Holanda não ostentam, assim como os poderosos não mencionam quanto recebem. Holandeses já comandaram um dos maiores impérios do mundo, mas há certo orgulho de que o primeiro-ministro vá de bicicleta visitar o rei e coloque um cadeado na magrela em frente ao palácio.

Há um valor na igualdade que sobreviveu às lutas do país para assimilar os imigrantes e um boom de gentrificação que afasta a classe média e operária das cidades. Isso decorre de um fato geográfico difícil de ser ignorado. Um terço do país está abaixo do nível do mar, e cidadãos há séculos têm pouca escolha a não ser se unir para criar uma infraestrutura de diques e sistemas de drenagem para permanecer vivos.

“Os Países Baixos são baseados na cooperação”, explica Paul van de Laar, professor de história da Universidade Erasmus. Participe. Misture-se. Os ideais locais soam familiares a um país ansioso para pegar leve com um homem com US$ 140 bilhões (R$ 713 bi) e um barco de US$ 500 milhões?

O duelo Roterdã x Bezos chegou às manchetes em fevereiro, quando surgiram notícias de que o Oceanco havia recebido a aprovação para desmontar a Hef —o custo da operação nunca foi divulgado. O parecer veio de um funcionário público que aparentemente não viu problemas, e um alvoroço se seguiu.

“Achei que fosse uma piada”, conta Lewis, que soube da permissão pelo Facebook. “Então, liguei para o gabinete do vice-prefeito e perguntei: ‘Isso é real?’ Levaram um dia para me dar retorno.” Quando a notícia chegou ao público, moradores irados começaram a aparecer com frequência no noticiário da TV local e um grupo foi formado nas redes para organizar a sessão de arremesso de ovos.

O Oceanco, que emprega mais de 300 pessoas, não se pronunciou publicamente sobre a decisão de cancelar o pedido e não respondeu à reportagem. A imprensa local diz que a empresa estava preocupada com ameaças contra os funcionários e com vandalismo.

Não está claro como o iate, conhecido como Y721, será concluído. Em fevereiro, um político local afirmou: era impraticável levar o iate sem mastro para outro local onde pudesse ser terminado.

Para van de Laar, o verdadeiro vilão da história não é o Oceanco ou Bezos, que provavelmente nunca tinha ouvido falar na Hef. É o Conselho da Cidade. “As emoções são importantes. O conselho não entendeu isso, o que é incrivelmente estúpido.”

A questão não era apenas esse bilionário em particular ou esse iate em particular. Era essa ponte em particular. Para quem é de fora, a Hef parece um brutamontes desajeitado que não funciona mais. Não é isso que os locais veem. Quando foi inaugurada, em 1927, foi considerada uma maravilha arquitetônica. “Há poemas sobre a Hef. Quem faz um filme sobre Roterdã inclui a Hef. Ela é mais do que uma ponte”, observa Arij De Boode, coautor de um livro sobre a obra.

Roterdã é uma das poucas cidades europeias em que quase todos os edifícios são novos porque o local foi devastado pelos nazistas na Segunda Guerra. Isso a transformou em uma cidade do futuro —exceto pela Hef. A ponte se tornou o marco mais reconhecível da cidade, vista como símbolo de resiliência e um dos últimos elos com o passado.

Quando se falou, décadas atrás, em derrubá-la, os moradores protestaram. Foi declarada monumento nacional em 2000 e passou por uma restauração. Hoje, é prova do fim da função sobre a forma, um monólito que não pode ser alterado nem temporariamente —não importa quem peça, não importa o preço.

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