O metaverso já está entre nós. Terá o mesmo futuro do seu precursor Second Life?


O conceito do Second Life e do metaverso de um mundo virtual é muito semelhante. Mas para por aí. o Second Life é uma plataforma centralizada, desenvolvida e pertencente a uma empresa, com protocolos fechados. Já o metaverso é um ambiente digital de código aberto e descentralizado, desenvolvido em blockchain

Por Laelya Longo, Valor Investe — São Paulo 10/05/2022


O termo ganhou projeção mundial quando Mark Zuckerberg anunciou a mudança do nome de sua organização de Facebook para Meta, justificando que iria focar na criação do mundo virtual conhecido como metaverso. A ideia de um mundo virtual que reproduza nossa realidade existe há muito tempo e frequentemente está presente em filmes e séries de grande audiência e bilheterias e sua primeira versão nasceu ainda nos primórdios da internet.

No início dos anos 2000, o Second Life causou furor com sua proposta revolucionária de levar para o meio digital a rotina, atividades e relacionamentos que se tem na vida real. Teve recordes de acessos, girou milhões de dólares, empresas abriram “filiais”, tinha sistema financeiro, negócios imobiliários e até uma moeda digital própria. Até que, por diversos acontecimentos negativos, desregulação das transações financeiras, operações ilícitas e até crimes, o Second Life praticamente desapareceu. Paralelamente, o ritmo do desenvolvimento tecnológico e a ascensão das redes sociais, redirecionaram os usuários para outras plataformas.

Seria o metaverso, então, uma versão mais elaborada tecnologicamente do Second Life, mas com um destino igual? Especialistas ouvidos pelo Valor Investe concordam que o conceito do Second Life e do metaverso de um mundo virtual é muito semelhante. Mas para por aí.

A primeira – e fundamental – diferença entre ambos é que o Second Life é (sim, ainda existe e está em atividade) uma plataforma centralizada, desenvolvida e pertencente a uma única empresa, com protocolos preestabelecidos e fechados.

Já o metaverso é um ambiente digital de código aberto e descentralizado, desenvolvido em blockchain (uma espécie de banco de dados compartilhado e inviolável que utiliza criptografia para garantir a segurança e a confiança nas informações registradas). Ou seja, não pertence a uma única pessoa ou empresa e seu código de programação é aberto para todos que quiserem desenvolver aplicações diversas, complementares ou não.

O princípio básico do metaverso é o código aberto (‘open source’). Cripto é código aberto, blockchain é código aberto”, reforça Guto Martino, diretor de marketing da Hathor Labs, empresa de consultoria da blockchain Hathor Network. O código aberto permite que qualquer pessoa (com os conhecimentos necessários) acesse o código de programação de determinado software, leia e modifique seu conteúdo, otimizando ou criando novas funcionalidades, sem ter de pagar por licenças de uso ou direitos autorais. “A pessoa se torna um construtor dentro do ambiente digital”, explica Martino.

O código aberto, característico também dos chamados softwares livres, aqueles que são baixados de graça, já fazem parte do dia a dia de muita gente. O ‘pai’ do código aberto é o sistema operacional Linux, que nasceu para se contrapor ao monopólio do Windows, da Microsoft. Outros exemplos são o navegador Firefox, da Fundação Mozilla, o PDF Creator (concorrente da Adobe), o OpenOffice (concorrente do Office da Microsoft), o Gimp (conhecido como a versão gratuita do Photoshop), entre milhares de outros. Cada nova versão desses programas foi realizada de forma colaborativa, distribuída de forma gratuita, promovendo acessibilidade a recursos que seria permitida somente a quem pudesse pagar.

O metaverso são todos os mundos virtuais que visitamos on-line, que têm uma espinha dorsal econômica apoiada pelo blockchain”, afirma Gabby Dizon, co-fundador da Yield Guild Games (YGG). “Este não é apenas o futuro dos jogos, mas também o futuro do trabalho”, vislumbra. “Quando as economias subjacentes desses mundos virtuais são construídas no blockchain, com padrões ‘interoperáveis’, isso permite que ativos digitais e itens do jogo sejam transportados entre mundos.” Em tecnologia, a interoperabilidade permite que vários sistemas “rodem” com outros, por meio de padrões abertos, independentemente de qual linguagem de programação utilizem e de onde estão instalados. Segundo Dizon, esse conceito é imprescindível quando se trata de propriedade de ativos digitais.

Nesse contexto, Martino reforça que o metaverso é uma coisa muito maior do que o projeto da Meta Plataforms – a não ser que, depois de desenvolvido, Zuckerberg abra o código de programação para quem quiser desenvolver novas funcionalidades a partir dele.

 

Percepção, imersão e tecnologia

Além da parte conceitual e estrutural, diferentemente do Second Life, no qual a interface gráfica era basicamente uma figurinha animada, como um desenho, a experiência pessoal dentro do metaverso conta ainda com equipamentos tecnológicos – que também já foram itens de ficção científica -, como óculos de realidade virtual, holografia e realidade aumentada, que proporcionam uma interação 3D, como na vida real.

O fatigado ambiente 2D das reuniões virtuais, adotado por todas as empresas do mundo em função da pandemia, pode ser substituído por uma reunião 3D, em alta resolução. “Com um avatar e um óculos de realidade virtual, uma reunião poderá ser realizada em qualquer tipo de cenário, em uma sala virtual reproduzida com todas as características de uma sala normal da empresa – ou, em Marte”, ilustra Alex Buelau, diretor de tecnologia da Parfin.

Apesar de parecer algo além do alcance do cidadão comum, um óculos de realidade virtual já custa, no Brasil, praticamente metade de um iPhone recém-lançado.

“Nas plataformas tradicionais de reunião por vídeo, por exemplo, o que vemos basicamente é um álbum de fotos em que podemos ver e ouvir o outro”, descreve Buelau. “No 3D do metaverso, você vira a cabeça, você vê o corpo da outra pessoa sentada em uma mesa e você tem a sensação que está lá mesmo. Sensorialmente, isso faz uma diferença gigante.”

A tecnologia G5 vai permitir conexões ultrarrápidas, com capacidade de banda para uma quantidade muito maior de dados. Da mesma forma, a velocidade e a capacidade de processamento de dados dos computadores e celulares cresce exponencialmente.

Para Buelau, veremos uma “curva de adoção” em que o estranhamento da ideia vai dando lugar à aceitação, uso e consolidação, assim como ocorreu em tão pouco tempo com as plataformas de vídeo, como o Zoom, e até o próprio celular. “Quando o celular foi lançado, tinha um monte de gente falando que nunca iria ter ou precisar. Se você não tem celular, hoje, está fora do mundo.”

Mas essa aceitação não é para todo mundo. Os chamados “nativos digitais” já nascem sabendo. Eles cresceram com a internet, com os games, com a tecnologia como parte de seu próprio desenvolvimento. Os nativos digitais são os habitantes dos metaversos representados atualmente por games como Axie Infinity, Fortnite, Free Fire, Roblox, Minecraft, entre outros, tão populares e populosos que atraem outros tipos de atividades tão comuns no mundo real.

O cantor Travis Scott fez uma apresentação virtual no Fortnite, em abril de 2020, vista por pelo menos 14 milhões de pessoas. Além do entretenimento, toda uma nova economia começa a se desenhar dentro do multiverso, como o “play to earn”, pelo qual a pessoa é remunerada com tokens para jogar.

 

A “nova” nova economia

O conceito de Nova Economia surgiu com a digitalização de processos produtivos e atividades comerciais e da adoção da internet como instrumentos social e econômico no mundo. O metaverso vai criar uma nova economia dentro desse conceito. Uma loja on-line já está inserida dentro da nova economia digital. Poder entrar nessa loja com seu avatar (representação individual por meios virtuais), experimentar uma roupa ou testar um carro, e realizar a compra com uma criptomoeda vai ser a atualização da Nova Economia – e ainda transformar empregos e profissões.

A construtora Tecnisa inaugurou seu stand de vendas no Second Life em 2007. “Tínhamos um stand com apartamento decorado para visitar, onde o avatar de um corretor atendia os interessados – avatares também”, conta Joseph Nigri, vice-presidente do Conselho da companhia. “Instalamos um stand de um empreendimento localizado na Barra Funda [bairro da capital paulista], o Inovarte. Recebemos muitas visitas de curiosos e realizamos algumas vendas.”

“Antigamente, a pessoa que ia comprar um imóvel, comprava o jornal, abria os classificados, selecionava os anúncios, pegava o carro e ia até o local conhecer”, lembra Nigri. “Hoje, ninguém começa a buscar um imóvel sem entrar na internet. O Second Life foi uma forma de as pessoas que estavam buscando imóveis, conhecerem um stand sem ter que sair de casa.” Segundo o executivo, foi uma iniciativa pioneira que, por um custo muito baixo, gerou muita atenção e alguns negócios.

No entanto, a efetivação da compra propriamente dita não podia ser realizada dentro da plataforma do Second Life. “Com o blockchain, a efetivação da compra/venda vai poder acontecer diretamente no ambiente digital. Com o blockchain, você registra seus ativos, transfere a propriedade, tem as criptomoedas para comprar ou vender, transacionar valores”, descreve Nigri.

Mesmo ainda fora de uma blockchain, a Tecnisa já está aplicando os conceitos do metaverso em seus lançamentos imobiliários. O cliente que compra uma unidade de um empreendimento pode fazer a personalização do imóvel, com seu avatar escolhendo e testando acabamentos “dentro do apartamento”. “O projeto final é encaminhado para a obra e o cliente recebe o imóvel pronto do jeito que queria, sem pisar na obra real”, conta Nigri.

Nigri avalia que, para o mercado imobiliário, o metaverso pode significar uma grande transformação. “É possível que, no futuro, os imóveis sejam tokenizados e vendidos no metaverso. A partir daí, acaba a escritura de um imóvel como conhecemos hoje. O blockchain será o registro, o cartório.”

Dizon, da YGG, aponta que a nova economia do metaverso vai ainda transformar o trabalho e as profissões. “Os empregos já estavam se tornando cada vez mais baseados em computador, ou seja, não estão fisicamente vinculados à empresa, com equipes globais e remotas se coordenando em todo o mundo”, aponta. “Esses empregos poderão ser movidos para o metaverso”, afirma, acrescentando que novas profissões surgirão, como arquitetos de metaverso, designers de moda digital, criadores de avatares, moderadores de comunidades, e assim por diante.

 

Finanças e segurança

A nova economia que o metaverso vai gerar – já está gerando, na verdade – passa fundamentalmente pela adoção das criptomoedas para transações comerciais e financeiras. A mais conhecida é o bitcoin, mas já existem mais de 10 mil criptomoedas no mundo. É quase certo que, nos próximos anos, outras tantas irão ser criadas e muitas mais deixarão de existir, conforme essa nova economia for se consolidando e peneirando o joio do trigo.

No ambiente criptografado, descentralizado e sem fronteiras do metaverso, baseado em blockchain, não faria sentido pagar ou receber em dólar ou euro ou real. “Se você está no metaverso, monta uma galeria de NFTs de arte digital e cobra 1 centavo de entrada, não vai poder cobrar 1 centavo de dólar. Vai cobrar 0,000001 bitcoin. Dólar é a moeda do norte-americano. Se você está na Indonésia, você vai ter que comprar dólar para pagar o serviço?”, exemplifica Buelau, da Parfin.

No Second Life também havia um certo fluxo econômico em que, na maior parte das transações, quem faturava era a plataforma. “No dia em que a plataforma morreu, morreu a economia de lá”, diz Buelau. Justamente porque era uma plataforma centralizada, com um dono.

Dizon ressalta que, com a moeda virtual do Second Life, o Linden, podia se comprar ou vender itens, mas a posse dos ativos era “fictícia”. “O Second Life existia apenas no banco de dados do desenvolvedor, então seus residentes não possuíam verdadeiramente os ativos digitais que eles compraram. Com mundos virtuais baseados em blockchain, os ativos serão realmente de propriedade do usuário.

Com o desmantelamento do mundo no Second Life, até uma crise financeira aconteceu. O Ginko Financial, um “banco” não regulamentado que prometia a investidores retornos astronômicos, administrado por um proprietário cuja identidade ainda é um mistério, declarou falência em 2007, após a plataforma estabelecer regras mais rígidas sobre apostas em jogos.

Os residentes do Second Life teriam “depositados” cerca de 200 milhões de Lindens, algo em torno de US$ 750 mil, na época, ou mais de US$ 1 milhão, atualmente. A plataforma chegou a ter mais de uma dezena de “instituições financeiras” que operavam da mesma forma que o Ginko e que, na verdade, eram pirâmides.

Buelau lembra que ilícitos existem tanto na vida real quanto na digital e, talvez, cheguem ao metaverso. “A deep web e a dark web existem e provavelmente vão migrar para o metaverso, mas assim como as regras e leis foram se aprimorando para a internet, também vão acontecer coisas nesse sentido no metaverso.”

Em outra avaliação, Dizon acredita que a própria estrutura do metaverso vai minimizar a necessidade de “policiamento”. “No blockchain, se um ativo digital estiver na minha carteira, ninguém mais poderá tomá-lo. Seu registro é público e não há nada que alguém possa fazer para tirá-lo de mim, exceto roubar minha carteira.”

https://valorinveste.globo.com/mercados/cripto/noticia/2022/05/10/o-metaverso-ja-esta-entre-nos-tera-o-mesmo-futuro-do-seu-precursor-second-life.ghtml

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