Urban living labs: quando a inovação aberta chega às cidades


Clayton Melo – Fast Company Brasil 03.03.2022

Na era da economia do conhecimento, não tem escapatória: é inovar ou inovar. E hoje essa busca passa, necessariamente, pela colaboração, pelo compartilhamento de experiências e por colocar o cliente no centro. Prova disso é que a inovação aberta conquistou o mercado nos últimos anos, com inúmeros programas que conectam empresas e startups para desenvolvimento de produtos e serviços.

O conceito de open innovation, criado por Henry Chesbrough, professor de da universidade de Berkeley, nos Estados Unidos, já está bem amadurecido no setor privado. Mas tem um desdobramento relativamente novo que merece ser observado, especialmente por conta do impacto social e econômico que pode gerar. Estou falando da aplicação da inovação aberta no contexto das cidades por meio dos chamados urban living labs.  

Os laboratórios vivos urbanos são ecossistemas de inovação aberta centrados no usuário que têm a cidade como campo de testes. É mais ou menos como usar áreas urbanas para desenvolver MVPs de projetos pensados para resolver problemas diversos, como mobilidade, segurança, energia e meio ambiente. Da mesma forma que o conceito convencional de inovação aberta aplicado às empresas, ele acelera o desenvolvimento de tecnologias e reduz os custos dos projetos urbanos, com a vantagem de contar com a inteligência coletiva advinda da aproximação entre poder público, organizações, universidades, startups e cidadãos.   

OS LABORATÓRIOS VIVOS URBANOS SÃO ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO ABERTA CENTRADOS NO USUÁRIO QUE TÊM A CIDADE COMO CAMPO DE TESTES.

O processo de um urban living lab cumpre algumas etapas. O ciclo começa com um diagnóstico dos desafios de inovação de uma determinada região. Após discussões entre os diversos atores sociais envolvidos, esses desafios são selecionados e abre-se uma chamada pública para inscrição de projetos que buscam solucionar os problemas listados. Geralmente, essas chamadas contam com a participação de startups, empresas e ONGs, por exemplo. Um ponto central em toda essa jornada é a participação efetiva da administração pública, pois a viabilidade de uma proposta depende de recursos e autorizações para intervenções no espaço público. 

A fase seguinte é a de desenvolvimento. É neste momento que as soluções são testadas na vida real – em um bairro, por exemplo, em contato direto com a população. Os projetos-piloto são monitorados e avaliados a partir de uma série de indicadores de desempenho. Os protótipos validados chegam à etapa final, que é a da escalabilidade. Nesta fase, são criadas estratégias para sua aplicação em mais áreas do município, ou até mesmo na cidade toda, dependendo do caso. 

Cases dentro e fora do Brasil

Existem experiências inspiradoras de urban living labs no mundo – e também no Brasil. No exterior, um dos cases mais reconhecidos é o do Barcelona Living Lab, iniciativa do conselho municipal que oferece a cidade para que startups e empresas apliquem projetos-piloto. Se validados, eles podem ser escalados em outros lugares. Entre as soluções testadas estão um método de gerenciamento de coleta de lixo, um mecanismo de iluminação inteligente e equipamentos para monitoramento e carregamento de carros elétricos. 

Outro exemplo é o Living Lab de Matosinhos, município que fica no norte de Portugal. O objetivo lá é criar um bairro carbono-zero, com a formação de um mercado local de carbono no qual os moradores são recompensados por terem hábitos de mobilidade mais sustentáveis. Pela iniciativa, a cidade se abre para testes de tecnologias inteligentes nas áreas de mobilidade, energia, construção civil e arquitetura. 

O LIVING LAB DE FLORIANÓPOLIS FOI LANÇADO EM 2018, COM METODOLOGIA DESENVOLVIDA PELO GRUPO DE PESQUISA VIA ESTAÇÃO DO CONHECIMENTO, DA UFSC.

“Este programa envolve o município, as empresas, os operadores de mobilidade, as comunidades e os cidadãos na construção de novos modelos de mobilidade que evitem emissões e que sejam adequados a quem vive e trabalha no município”, diz o site da prefeitura local. “Trata-se de um palco de cocriação e inovação aberta de produtos, serviços, software, hardware e intervenções urbanas de baixo carbono, onde interagem municípios, centros de conhecimento, empresas, empreendedores e cidadãos”. Em 2018, o projeto venceu o Prêmio Europeu de Promoção Empresarial, concedido pela Comissão Europeia.

No Brasil, uma das cidades que apostam nesse caminho é Florianópolis.  O living lab da capital catarinense foi lançado em 2018 pela Rede de Inovação de Florianópolis, uma parceria entre a prefeitura, a Associação Catarinense de Tecnologia (Acate) e a Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif). Entre as propostas selecionadas estão soluções voltadas a carros elétricos, hortas urbanas, automatização do fornecimento de energia e atendimento a combate a incêndios, entre outros. O programa contou com metodologia desenvolvida por um grupo de pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina, o Via Estação do Conhecimento. 

Essas e outras iniciativas do gênero indicam um caminho promissor de modernização da administração pública. Valendo-se dos princípios da inovação aberta, os urban living labs colocam o poder público como um articulador e um fomentador dos stakeholders locais em busca de inovação para resolver problemas reais das cidades. E o principal: colocam o cidadão no centro do processo, testando, avaliando e ajudando a construir as soluções que afetam diretamente a sua vida. 

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Clayton Melo é jornalista, cofundador da plataforma A Vida no Centro e desenvolve projetos de conteúdo digital em áreas como inovação, tecnologia, negócios sociais e cenários futuros. Foi curador do Festival Path, de inovação e criatividade, e atuou em redações como Istoé Dinheiro, Gazeta Mercantil e Meio e Mensagem. 

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