‘Estamos entrando na era do pós-emprego’, diz executivo da Ânima, um dos maiores grupos privados de educação


Daniel Castanho, que preside o Conselho da empresa, avalia que a nova geração vai trabalhar por projetos e não ficar anos na mesma companhia

Glauce Cavalcanti O Globo 02/01/2022 

RIO – A educação precisa se adaptar a um mercado de trabalho em que os profissionais trabalham por projetos, em períodos mais curtos, avalia Daniel Castanho, presidente do Conselho de Administração da Ânima Educação, um dos maiores grupos no ensino superior privado no país.

Para ele, a transformação da educação é determinante para a economia: “O grande problema deste país é produtividade, porque não há indissociabilidade entre o que você aprende e o que você, depois, tem de agregar em valor à sociedade”, afirma, em entrevista ao GLOBO.

Na Ânima, as parcerias com empresas vão seguir crescendo, conta Castanho. No início de dezembro, a companhia fechou acordo com a DNA Capital, gestora de fundos com foco em saúde, que fez um aporte de R$ 1 bilhão na Inspirali, subsidiária de educação da Ânima, ficando com 25% do capital da empresa.

Castanho, da Ânima Educação: alunos não vão mais escolher um curso para entrar na universidade, vão eleger as competências que querem desenvolver Foto: Divulgação

Castanho, da Ânima Educação: alunos não vão mais escolher um curso para entrar na universidade, vão eleger as competências que querem desenvolver Foto: Divulgação

Há no radar mais aquisições? Qual é o foco da empresa hoje?

Nenhuma negociação dura menos do que quatro a seis meses, principalmente com as instituições com as quais a gente lida. Elas têm 50 anos, são as famílias (que comandam o negócio). Sempre são conversas longas. E a gente está tendo conversas o tempo inteiro com outras instituições. A integração é um tema fundamental nosso, tem muita coisa a ser feita.

Há a construção da cultura. E tem a pauta, que já era do Conselho, que é a de transformação da educação. O que a gente tem hoje em produto, vamos chamar assim, não é mais baseado no currículo por disciplinas. É um currículo por competências. E a tecnologia vai impactar efetivamente a sala de aula. Não é o presencial ou o a distância, é o híbrido.

Conteúdo não é mais fim, é meio. O que é o fim são as experiências para que o aluno possa aprender. A avaliação tem que ser encarada por um assessment, e não simplesmente para verificar se o cara memorizou ou não, com uma prova que tem gabarito, porque se ela tem gabarito, ela cabe no algoritmo, e aí a pessoa poderia ser substituída por um robô. Assim, tem uma enorme pauta acadêmica.

E pelo lado financeiro?

Para além da questão financeira da operação, um dos temas importantíssimos é affordability (acessibilidade), olhar no curto prazo a possibilidade de financiamento de aluno, de desconto. Isso é muito sofisticado para ser feito hoje.

É preciso cruzar dados de preço por praça, turno, curso, concorrentes com os daquela pessoa (estudante), saber o quanto ela pode pagar. Se a diferença for de até 15% entre dois alunos na mesma sala de aula, não tem problema, mas você está dando a possibilidade (de o jovem estudar).

Eu tenho que criar outros modelos de negócio, inclusive. Será que o cara vai entrar para Administração e fazer um curso inteiro? Ou vai ser um modelo tipo Netflix, em que ele paga e é unlimited, e estuda o que quiser?

Parcerias como as com a DNA e a Vivo (operadora de telefonia com a qual Ânima tem projetos em comum) são pontes para conexão com o mercado?

Há alguns anos, para suprir esse gap (lacuna) entre a universidade e o mercado, várias empresas criaram universidades corporativas. O grande problema deste país é produtividade, porque não há indissociabilidade entre o que você aprende e o que você, depois, tem de agregar em valor à sociedade.

 Os nossos pais, com 70 a 80 anos hoje, entravam no trabalho como estagiário no financeiro e, se desse tudo certo, ele se aposentava naquela mesma empresa depois de 40 anos como diretor financeiro. A carreira de quem tem 40 e poucos ou 50 anos, como eu, que tenho 46, já é de trabalhar dez anos num lugar, oito no outro, seis no outro.

Nossos filhos vão trabalhar seis meses em cada lugar. Estamos entrando na era do pós-emprego, do trabalho por projetos. Não tem mais de entrar para cursos de Administração, Direito ou Engenharia. Tem de entrar na universidade. A Ânima é assim hoje. Você entra na universidade, olha aquelas três mil competências e escolhe. Eu não tenho mais Matemática 1, Estatística 1.

Eu tenho Análise de Business Plan. O que é isso? É o professor de matemática com o de contabilidade. Tenho Estatística da Decisão, que é o professor de estatística com o professor de Teoria Geral de Administração. Tudo prático. O aluno chega e escolhe as competências que ele quer desenvolver, que têm a ver com aquele momento em que ele está no trabalho. Você não sabe mais quando está aprendendo e quando está trabalhando.

São mudanças difíceis de pôr em prática, não?

Sim, mas tem uma mudança no core. Primeiro porque conteúdo não é fim, mas meio para desenvolver habilidades e competências. Então, a escola não tem de ficar vendendo curso e cobrando uma prova que não tem significado nenhum para o aluno.

A escola tem de ser personalizada, primeiro. O aluno escolhe o percurso formativo dele. Aí, ele terá prazer em aprender. E vai continuar para o resto da vida. Na escola, depois de quatro anos, o cara estoura um rojão porque se formou. Não pode. Ele tem que falar: “Não quero sair daqui”.

Para isso tem de se oferecer alguma coisa que tenha significado para o aluno, não de ter só um certificado.

Além do crédito estudantil público, como financiar estudantes?

Muitas vezes, as pessoas pensam a educação da maneira mais tradicional. Se a lição de casa em papel não mudou ao ser dada pelo Google Classroom, está errado.

A mudança tem de ser profunda, não é só mudar a tecnologia. Se você pensar que a estrutura virá só do modelo de Fies (financiamento estudantil), não é por aí. Temos de pensar inclusive outros modelos de negócios. Imagina a gente, aqui, criar uma moeda virtual, o Ânimoney, digamos,que o aluno possa pagar a faculdade de outras maneiras.

Por exemplo, se ele trabalhar em um projeto social nosso, ele paga a faculdade. Imagina se o meu aluno, mesmo pagando mensalidade, se prontifica a dar aula particular a alunos de ensino médio de escolas públicas? Se eu tiver 20 alunos incríveis meus dando aula particular para esses estudantes da rede pública, eles vão querer estudar com a gente.

E aí, eu diminuo o meu custo de marketing, porque eu consigo cobrar menos na mensalidade e esse cara que está trabalhando acaba atraindo outros alunos mais para frente. Hoje, a gente tem mais de 200 empresas parceiras, como a Siemens, por exemplo. (Em aula), entra um professor nosso de Engenharia e outro da Siemens, ele é um profissional daquela companhia. E ele vai ensinar Engenharia 4.0. Se interessa pelo aluno e, na hora, já está contratando.

É o modelo dual. Tem alguns formatos. Não se pode pensar que a solução simplesmente é financiamento estudantil e falar que a culpa é do MEC (Ministério da Educação), do Ministério da Economia. Temos aqui, muita coisa dentro da Ânima, na qual o aluno pode trabalhar. Tem um programa de tecnologia, na área de marketing. O call-center é feito só de alunos porque é peer-to-peer, de aluno para aluno. Tem o Instituto Ânima, muito relevante, com orçamento de R$ 20 milhões, R$ 30 milhões nossos e de parceiros. Vários alunos trabalham lá.

Ele também pode fazer uma pesquisa aplicada. É o sistema que tem de ampliar essa sua gama de atividades. Tem empresa que precisa, por exemplo, de um sistema de gerenciamento de controle de remédios para um asilo. E meus alunos fazem, entregam e recebem por isso. Eles estão aprendendo numa questão prática, agregando valor para a sociedade e ainda ajuda a pagar a faculdade.

https://oglobo.globo.com/economia/negocios/estamos-entrando-na-era-do-pos-emprego-diz-executivo-da-anima-um-dos-maiores-grupos-privados-de-educacao-1-25338617?utm_source=aplicativoOGlobo&utm_medium=aplicativo&utm_campaign=compartilharSe você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/ICFvu2V5bCu67L6KwXc6ZD  (09) para WhatsApp ou https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

3 comentários em “‘Estamos entrando na era do pós-emprego’, diz executivo da Ânima, um dos maiores grupos privados de educação

  1. A Deslocalização que nos é oferecida pelo 5G através da Smartphonezação ou Smartphoneglobalização e trazida pela Metaverso introduz alterações significativas no contexto da Contínua Adquiridas Competências, que antes se resumia no Modelo Tradicional e ou Modelo Virtual..
    No nosso Ensino defendemos sempre 1 Rh Extensivo a Família para além dos Colaboradores e Clientes, alargando ainda o perímetro das acções de formação exclusiva das universidades corporativas para os Concorrentes, Clientes para além das Universidades.

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  2. Se eu preciso ficar em uma habilidade específica ou competência não necessito fazer um curso superior no máximo um curso técnico. A universidade em si deve representar um conhecimento universal e não expressar somente as vontades do empregador, ou seja, do mercado de trabalho. O que adianta estudar uma competência específica e o mercado de trabalho no futuro não mais a valorizar. Fiz biblioteconomia e terminei o meu doutorado com ênfase no mercado financeiro, aprendi com livros, artigos e na prática do dia a dia. Não necessito fazer um curso de graduação em contabilidade, administração ou economia. Encontra-se tudo na internet, livros e artigos para o desenvolvimento de competências específicas. É uma visão muito pobre do ensino superior.

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  3. Estamos entrando na era de mais técnica e menos conhecimento e convicção..O ensino superior tornou se escada para o emprego e, olhe lá. Está pobre e podre. O mercantilismo na educação destruiu famílias comprometidas com a formação íntegral e incorporou a farsa da fabricação de diplomas.
    Infeliz futuro para a humanidade.

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