Dinheiro é coisa do passado e fintechs vão competir ainda mais com os bancões


Estudo da consultoria PwC mostra que o número de transações com meios de pagamento que não o dinheiro em espécie vai crescer 52% até 2025

Por Naiara Bertão, Valor Investe — 07/12/2021

A pandemia foi um importante acontecimento para as pessoas experimentarem formas de pagamento além do dinheiro em espécie. O advento do Pix no Brasil e a popularização dos cartões de crédito sem contato, por aproximação, ajudaram a reforçar isso. A tendência é clara: cada vez mais brasileiros, latinos e consumidores do mundo todo usarão outros meios que não o dinheiro em espécie para fazer as compras no mercado, pagar a passagem no ônibus, pedir comida em um restaurante ou transferir o dinheiro do churrasco para o amigo.

Estudo feito pela PwC e seu braço de consultoria estratégica, a Strategy&, mostra que o número de transações sem dinheiro em espécie na América Latina deve aumentar em 52% até 2025 e, depois, em 48% até 2030. O ritmo de crescimento é menor do que países da Ásia-Pacífico, cujo aumento esperado de volume é de 109% até 2025 e em 76% até 2030. A China, por exemplo, já é um país cuja cultura do pagamento digital está enraizada há anos. Em seguida, estão a África (com 78% e 64%, respectivamente) e a Europa (64% e 39%). Estados Unidos e o Canadá terão o crescimento mais lento (43% e 35%).

Considerando o mundo todo, a expectativa é que os volumes globais de pagamentos feitos por meios digitais aumentem em mais de 80% até 2025, com as transações passando de cerca de um 1 trilhão para quase 1,9 trilhão por ano. Até 2030, o número de transações per capita sem dinheiro em espécie será aproximadamente o dobro ou o triplo do nível atual em todo o mundo, apontou a análise.

O estudo foi feito com base no número de transações e não com volume financeiro por ser uma base de comparação mais direta e fácil, uma vez que os volumes precisariam envolver cálculos que considerassem as moedas locais.

“A América Latina deve ter crescimento menor porque o Brasil é representativo e já estamos em um mercado maduro com escala e opções de meios de pagamento, além de infraestrutura de pagamento já mais robusta”, explica Lindomar Schmoller, sócio da PwC.

 

Fintechs x Incumbentes

Outro ângulo analisado foi como cada participante da cadeia de valor da indústria de meio de pagamento – banco, adquirente, processador, operador de POS (maquininha), provedores alternativos (contas digitais e fintechs) – geram receita.

A projeção da consultoria é de que em 2030, os bancos terão aumentado em 64% o seu bolo de receita, passando de US$ 342 bilhões em transações, para US$ 561 bilhões. Os chamado prestadores de serviços comerciais, como os POSs, vão crescer 50% neste período, saindo de US$ 141 bilhões em 2020 para US$ 212 bilhões dez anos depois.

A grande surpresa, porém, vem dos métodos de pagamento alternativos, que incluem soluções de pagamento de big techs, empresas de telecomunicações e varejistas fora, ou além, dos tradicionais pagamentos bancários e com cartão. O valor das receitas estimadas para estes competidores é de US$ 313 bilhões em 2030, 301% maior do que em 2020, de US$ 78 bilhões.

Mudanças nos pools de receita de 2020 a 2030 — Foto: PwC e Strategy&

Mudanças nos pools de receita de 2020 a 2030 — Foto: PwC e Strategy&

“Globalmente, a fonte de receitas ainda é muito concentrada nos bancos e eles evoluem até 2030 de forma importante, mas muito abaixo da velocidade de crescimento de provedores alternativos de pagamento, que puxarão parte importante da receita para eles. Quando surge um competidor com essa projeção de crescimento, o cenário para o setor muda”, comenta Willer Marcondes, sócio, PwC Brasil.

No relatório, o depoimento do fundador e presidente da Marqeta, plataforma global de emissão de cartões, Jason Gardner, comenta que esse crescimento dos pagamentos móveis vai impor prêmios cada vez mais elevados à experiência do usuário. Para ele, isso vai forçar as fintechs e as instituições financeiras de todos os portes a implantar tecnologias que possam transformar infraestruturas de “back-end” mais complicadas em aplicativos comerciais e de consumo que sejam fáceis de usar.

 

Brasil

O crescimento dos pagamentos digitais vem na esteira do open banking, com a migração de cartões e contas para carteiras digitais.

Com relação ao Brasil, a pesquisa mostra que o aumento de geração de receita dos bancos será de 20% até 2025, saltando de US$ 17 para US$ 21 bilhões, e terá uma queda de 1% até 2030 (para US$ 20 bilhões). No caso dos meios de pagamento alternativos, os números são bem maiores: 143% de aumento até 2025 (de US$ 7 bilhões para US$ 17 bilhões) e 70% na sequência, entre 2025 e 2030, quando atingirão R$ 29 bilhões e terão passado os bancos.

Dados sobre Brasil da pesquisa da PwC sobre meios de pagamento

Receita da Indústria (US$ bilhões)202020252030Variação 2020-2025Variação 2025-2030
Receita – Bancos Emissores            17            21            2023%-1%
Receita – Métodos alternativos de Pagamentos                7            17            29143%70%
Receita – Credenciadores (Prest. Serv. comerciais)                4              5              518%12%
Receita – Rede de cartões (Arranjo ou bandeira)                2              2              331%25%
Receita – Processadores terceirizados + Terminais                1              1              257%52%

Fonte: PwC e Strategy&

O cenário começou a mudar nos últimos anos, especialmente desde o início da pandemia, com os bancos estatais lançando carteiras digitais para pagar à população subsídios sociais e o auxílio emergencial. Isso está ajudando a ampliar a adoção dos pagamentos digitais, especialmente entre pessoas sem experiência com bancos (os desbancarizados).

Marketplaces como o Mercado Livre, com o serviço Mercado Pago, e contas digitais como o PicPay, estão lançando seus próprios ecossistemas, nos quais comerciantes e pessoas têm diversos serviços financeiros para suprir suas principais necessidades.

Dados sobre Brasil da pesquisa da PwC sobre meios de pagamento

Dados  Brasil202020252030Variação 2020-2025Variação 2025-2030
Número de Transações (Em milhões)      47.720    72.378  107.16352%48%
Volume de transações (Em US$ bilhões)      16.270    22.316    29.63537%33%
Receitas da Indústria (Em US$ bilhões)            31            46            5949%30%

Fonte: PwC e Strategy&

O relatório pontua que o Brasil está na vanguarda da inclusão financeira, graças à liderança do Banco Central em iniciativas que promovem novas tecnologias de pagamento, interoperabilidade, redução de custos e concorrência aberta. Exemplos são o Pix, que explodiu de adesão no Brasil, e também pagamentos com QR Code, que estão alavancando o acesso a esses meios de pagamento, e incluindo no sistema financeiro quem ainda estava de fora.

O que se espera é que esses novos modelos impactem os meios de pagamentos tradicionais como DOC/TED, boleto bancário, cheque e até mesmo com cartões nos próximos anos. “Considerando essas infraestruturas e a existência de novos provedores totalmente baseados em nuvem, os bancos já estão reavaliando seus modelos e soluções financeiras”, diz o documento.

Pagar nunca foi tão fácil – não à toa também temos altas taxas e endividamento.

Tendências

A análise pontua seis tendências para os meios de pagamento: inclusão e confiança, moedas digitais, carteiras digitais, batalha dos trilhos de pagamento, pagamentos transnacionais e crime financeiro. Conheça um pouco mais cada uma das tendências, de acordo com o relatório:

 

Inclusão e confiança

O foco em soluções de código QR nacionais e de carteiras e dinheiro móvel garantirá o amplo acesso e o baixo custo.

Os bancos centrais manterão sua função de assegurar a privacidade, a estabilidade e a confiança em novos provedores e métodos de pagamento, bem como no sistema financeiro.

Operar no modelo anterior de contas bancárias custa caro. As instituições financeiras tradicionais têm altos custos de gestão de estrutura, operação, proteção e conhecimento do cliente. Não consegue rentabilizar o cliente com custo de observância. Os competidores sujeitos a menos exigência regulatória conseguem incluir o consumidor mais facilmente. As próprias moedas digitais e criptomoedas podem reduzir o custo monetário. O desafio é diminuir custos e monetizar esses negócios. Vai ser necessário surgir novos modelos de negócios que não envolvam cobrar tarifas ou uma fatia da transação financeira”, comenta Marcondes.

 

Moedas digitais

O estudo traz que 60% dos bancos centrais estão avaliando o uso das moedas digitais e 14% estão realizando testes-pilotos.

A grande preocupação dos bancos centrais é que surjam iniciativas sem regulamentação. Por isso, muitos estão avaliando iniciativas para criar suas próprias moedas digitais. É diferente do modelo descentralizado de criptomoedas, que não têm controle monetário, relacionado à estabilidade econômica do país”, diz Lindomar Schmoller, sócio da PwC Brasil. “As criptomoedas não avançaram tão rápido porque carecem de maior segurança do lado do investidor e do ecossistema, mas também porque a própria dinâmica das criptos é ainda bastante limitada”, acrescenta.

A conversão e o armazenamento de criptomoedas fiduciárias são oportunidades que estão surgindo, de acordo com o relatório.

 

Carteiras digitais

O uso de pagamentos móveis continuará crescendo de modo constante: a taxa de crescimento anual composta (o CAGR) entre 2019 e 2024 é estimada em 23%.

A proliferação de super aplicativos, serviços de open banking e códigos QR impulsionará a adesão à carteira digital.

Por conveniência, os usuários e o uso serão direcionados para as carteiras digitais como primeiro ponto de contato – deixando de lado as interfaces tradicionais de cartões e bancos.

 

A batalha dos trilhos de pagamento

A iniciação do pagamento está migrando de cartões e contas para carteiras digitais que têm suporte no open banking.

Os reguladores obrigarão a indústria a fortalecer a infraestrutura nacional de pagamentos.

Os consumidores em mercados emergentes estão migrando diretamente para carteiras móveis e pagamentos baseados em contas, sem passar pela “era do cartão”.

Tanto as redes de cartões tradicionais quanto as soluções nacionais de carteiras enfrentarão o desafio de conectar os pagamentos em sistema “open loop” com os pagamentos internacionais para manter sua relevância.

 

Pagamentos transnacionais

Pagamentos instantâneos e de baixo custo estão provocando a reinvenção dos pagamentos transnacionais.

A padronização global dos pagamentos permitirá a conectividade internacional de soluções instantâneas nacionais.

Surgirão soluções regionais (especialmente na Ásia) e soluções não bancárias globais baseadas em criptomoedas e carteiras digitais.

 

Crime financeiro

Com a adoção cada vez maior do open banking e dos pagamentos instantâneos e alternativos por consumidores e empresas, crescem as organizações de “fraude como serviço”.

Em nossa pesquisa, os riscos de segurança, conformidade e privacidade de dados foram as maiores preocupações de bancos e fintechs.

Com a sofisticação do crime financeiro, os provedores terão que proteger todo o seu ecossistema.

 — Foto: Getty Images

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