The Economist: Investimentos em startups têm crescimento inédito e se espalham pelo mundo


Há 50 anos, capital de risco financia ideias que transformam a economia global

The Economist/Estadão 01 de dezembro de 2021 

Vladimir Lenin acreditava que uma minúscula vanguarda poderia, por meio da força de vontade, aproveitar as forças históricas para transformar o funcionamento do capitalismo global. Ele estava certo. No entanto, os revolucionários não foram os barbudos bolcheviques, mas alguns milhares de investidores, a maioria sediada no Vale do Silício, administrando menos de 2% dos ativos institucionais do mundo.

Nas últimas cinco décadas, a indústria de venture capital (ou capital de risco) financiou ideias empreendedoras que transformaram os negócios globais e a economia mundial. Sete das dez maiores empresas do mundo foram apoiadas por fundos de venture capital. Esse dinheiro financiou empresas por trás de mecanismos de pesquisa, iPhones, carros elétricos e vacinas de RNAm. 

Agora, a máquina dos sonhos do capitalismo está sendo ampliada e transformada, como um inédito fluxo de US$ 450 bilhões em dinheiro novo para o setor de capital de risco. Este turbocompressor do mundo dos empreendimentos traz riscos significativos – desde os egomaníacos fundadores que torram dinheiro até fundos de pensão sendo desperdiçados em startups supervalorizadas. Mas, no longo prazo, essa máquina também promete tornar a indústria mais global, afunilando o capital de risco em uma ampla gama de negócios e tornando-o mais acessível a investidores comuns. Um maior pool de capital correndo atrás de um universo maior de ideias aumentará a competição e, provavelmente, impulsionará a inovação, levando a uma forma de capitalismo mais dinâmica.

O venture capital tem suas raízes na década de 1960 e tem sido visto como um elemento desajustado dentro do mundo financeiro. Em contraste com os investidores de Wall Street, em seus impecáveis ternos, sofisticação e mansões nos Hamptons, o venture capital prefere roupas confortáveis, “nerdismo” e vilas na Califórnia. Essa particularidade também é uma questão de ênfase intelectual. À medida que as finanças convencionais se tornaram maiores, mais quantitativas e mais preocupadas em fatiar e cortar os fluxos de caixa de empresas e ativos maduros, o venture capital permanece como uma indústria caseira, nadando contra a corrente, buscando encontrar e financiar empreendedores que ou são muito inexperientes ou muito estranhos para participar de uma reunião com sisudos banqueiros e cujas ideias ainda são muito novas para serem traduzidas em modelos financeiros.

Os resultados têm sido surpreendentes. Apesar de investir quantias relativamente modestas ao longo das décadas, os fundos de venture capital dos Estados Unidos têm empresas que valem hoje, no total, pelo menos US$ 18 trilhões. Este número reflete a vertiginosa ascensão das grandes plataformas de tecnologia, como o Google. Mais recentemente, os unicórnios (startups que valem mais de US$ 1 bilhão) apoiados por investidores de risco amadureceram em uma abundância de aberturas de capital. 

Na última década de ouro, um índice de fundos americanos de capital de risco obteve retornos anuais conjuntos de 17%. Alguns se saíram muito melhor que isso.

Esse sucesso agora está se espalhando para o setor financeiro em geral. Os lucros das empresas financiadas por fundos de venture capital estão sendo redistribuídos em novos fundos. Enquanto isso, com as taxas de juros ainda baixas, os fundos de pensão outras empresas com dinheiro em caixa têm demonstrado uma boa dose de inveja e lutam para alocar mais dinheiro em fundos dedicados ou para criar suas próprias filiais de venture capital. Até o momento, neste ano, quase US$ 600 bilhões foram aplicados em negócios – dez vezes o nível de uma década atrás. 

À medida que o dinheiro entra, o capital de risco está permeando a economia de forma mais profunda e ampla. O que antes era um assunto americano hoje é global, com 51% dos negócios (por valor) em 2021 ocorrendo fora dos EUA.

O cenário do capital de risco da China diminuiu recentemente por causa de uma repressão ao setor de tecnologia pelo presidente do país, Xi Jinping. No entanto, a indústria está crescendo no restante da Ásia e, após décadas de inatividade, a inovação está despertando na Europa, com 65 cidades recebendo unicórnios.

O boom do capital de risco tem se concentrado em um pequeno grupo de empresas de tecnologia, tais como Airbnb e Deliveroo. Agora, mais dinheiro pode financiar áreas onde a disrupção está menos avançada. Neste ano, os investimentos em energia limpa, espaço e biotecnologia foram o dobro de 2019. E o setor está se tornando mais aberto. Enquanto antes uma confortável elite de fundos detinha um raro poder, agora as principais empresas financeiras estão envolvidas e há meios que permitem aos investidores comuns obterem exposição a baixo custo. 

Riscos

 Obviamente, há perigos. Uma é que o dinheiro corrompe. Avaliações elevadas e capital abundante podem tornar empresas e seus patrocinadores autoindulgentes. Das 100 maiores empresas listadas em 2021, 54 estão no vermelho, com US$ 71 bilhões de perdas acumuladas. A governança consegue ser péssima. O Vision Fund de US$ 100 bilhões do SoftBank, que foi pioneiro na emissão de grandes cheques para startups, incitando-as a crescer mais rápido, está mergulhado em conflitos de interesse. Os fundadores saem dos trilhos. Adam Neumann, da WeWork, construiu um culto à personalidade movido a cerveja.

BolsasOperador na Bolsa de NY; fundos de venture capital dos EUA têm empresas que valem US$ 18 trilhões Foto: Spencer Platt/ AFP

Retornos

Outro perigo é que, como em qualquer classe de ativos, os retornos são diluídos à medida que o dinheiro entra. Os fundos convencionais podem descobrir que, além de ter de lidar com os famosos booms e quedas do capital de risco, os retornos de longo prazo são menores do que esperavam.

O que é monótono para os investidores ainda pode ser bom para a economia. É melhor que um dólar marginal vá para empresas iniciantes do que para um inchado mercado imobiliário ou um inundado mercado de títulos. Um crash de capital de risco desencadeado pelo aumento das taxas de juros não desestabilizaria o sistema financeiro. 

Mesmo que as empresas apoiadas pelo capital de risco queimem dinheiro de forma imprudente, grande parte dele irá para os consumidores: por exemplo, em todas aquelas viagens de carro subsidiadas e refeições entregues em casa. No mínimo, o boom aumentará a competição. O investimento de capital de risco este ano excederá o gasto total de capital e os gastos com pesquisa e desenvolvimento das cinco maiores empresas de tecnologia, que também estão sendo desencorajadas a comprar concorrentes em potencial pela ameaça de regras antitruste mais rígidas.

Recompensa

A maior recompensa seria mais inovação. É verdade que nenhuma quantia em dinheiro pode criar brilho puro. E os governos costumam financiar descobertas científicas básicas. No entanto, a oferta global de empreendedores dificilmente é fixada e muitas ideias permanecem subexploradas. O boom anterior de capital de risco mostrou investidores ampliando o horizonte de tomada de risco para áreas mais difíceis e aventureiras. À medida que o investimento de risco se espalha pelo mundo, os empreendedores fora dos EUA terão uma chance melhor de se juntar a eles. E as barreiras para a criação de novos negócios estão caindo, graças à barata computação em nuvem e ao trabalho remoto. O capital de risco visa pegar boas ideias e torná-las maiores e melhores: é justo aplicar essa lógica ao próprio setor. / TRADUÇÃO DE ANNA MARIA DALLE LUCHE

https://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,the-economist-venture-capital-capital-risco-investimentos-startups,70003913366?utm_source=estadao:app

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