China contra as big techs


Por Pedro Doria O Globo 05/11/2021 •

Na última segunda, dia 1º de novembro, o Yahoo! encerrou sua operação na China. O ato veio duas semanas após o LinkedIn, rede profissional da Microsoft, afirmar que também fechará as portas no país ainda neste ano. E está marcado para o próximo dia 15 o fim das operações por lá do Fortnite, o mais popular videogame on-line do mundo. Não é coincidência que, na mesma segunda-feira, tenha começado a valer a lei geral de privacidade digital chinesa, muito semelhante à europeia ou mesmo à brasileira. Com uma pequena diferença: só vale para entidades privadas. Lá, perante o Estado, não há direito à privacidade.

Em meados de novembro, o Steve Jobs chinês, Jack Ma, subiu a bordo de seu iate particular e navegou até a Holanda, onde tinha reuniões marcadas com pesquisadores. As ações da Alibaba, sua companhia, subiram 9% na Bolsa de Valores de Hong Kong quando a notícia saiu. Parece exagero — mas não é quando se trata de China. Ma não se manifestava em público desde dezembro do ano passado. Em outubro de 2020, fez um duro discurso com críticas ao sistema bancário do país. Nas semanas seguintes, os reguladores chineses suspenderam a abertura de capital de uma de suas empresas, e o empresário sempre muito falador desapareceu.

O Grupo Alibaba é popular, no Brasil, pela presença de sua plataforma de e-commerce AliExpress. Na China está por toda parte, é como se fosse Google e Facebook ao mesmo tempo. É por isso que o ataque do governo à indústria da tecnologia local começou por Jack Ma.

Pois não parou nele. Desde então, as regras para comportamento on-line apertaram para influenciadores, que não devem incentivar o consumo ou vender imagens irreais de como seres humanos são. Apertaram, também, para a relação entre crianças e videogames — estão proibidos durante a semana e, nos fins de semana, permitidos só por uma hora. O app da Didi, equivalente ao Uber, foi banido das lojas de apps por “violações de privacidade”. Sim. O principal app de transporte do país foi simplesmente extirpado das lojas por ordem governamental.

As mudanças têm dois grandes motivos.

O primeiro é que a China ainda é um país comunista, se não na economia, ao menos na política. Como o atual presidente, Xi Jinping, só o fundador do regime, Mao Tsé-Tung, e o grande reformista, Deng Xiaoping, tiveram tanto poder. Se Deng disparou a abertura do mercado que permitiu o desenvolvimento econômico da China, Xi agora vê como sua missão lembrar às grandes corporações construídas a partir dali quem manda.

Pessoas podem ficar ricas, empresas podem crescer e se desenvolver, mas tudo é uma concessão do Estado. O mais rico chinês não é livre e não deve se sentir com poder para enfrentar o governo. O governo dá a palavra final até sobre que empresas vivem ou morrem.

E é seguindo esse raciocínio que vem a segunda razão — é hora, afirma Xi, de promover a “prosperidade comum”. Pois é: tampouco é à toa que bilionários de companhias como Alibaba, Tencent e Didi começaram a redistribuir seu dinheiro. Trata-se de política oficial de governo. Empresas devem crescer para que o país cresça junto. Mas acumulação de grandes fortunas não será mais tolerada. O dinheiro tem de voltar para a sociedade na forma de doações de caridade, fundações ou na forma de tributos.

A desigualdade, para o Partido Comunista Chinês, está num nível intolerável. Segundo números oficiais, 30% do PIB está nas mãos do 1% mais rico. (No Brasil, segundo cálculos do banco Credit Suisse, são 50%. Nos EUA, segundo o BC americano, o 1% mais rico detém 32% da riqueza.) Pois é. No caso chinês, é sempre uma boa desculpa para impedir que nas redes as pessoas comecem a discutir o papel do governo nos problemas.

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Por Pedro Doria

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Um comentário em “China contra as big techs

  1. Acho corretíssimo, melhor que Brasil onde tudo é legalizado. Pode abrir bingo, puteiro , crianças podendo o dia todo no game. Sou viciado em game desde que nasci, tive do atari ao xbox , todos os games. E só eu sei o mal que isso faz e me fez. Acho que pelo menos o estado tem se mostrado presente por lá. Embora muitas empresas que visam o lucro dos viciados discordem.

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