Apple pretende enviar mais dados de pacientes para os médicos, mas como isso se transforma em benefício clínico?


Sarah Kwon (KHN) Medscape 30 de agosto de 2021

Em breve, anunciou a Apple recentemente, a empresa permitirá que os médicos monitorem as informações clínicas contidas nos smartphones e smartwatches de seus pacientes entre as consultas. Isto é parte do esforço para a saúde que, segundo o CEO da Apple, Tim Cook, será a maior contribuição da empresa para a humanidade.

Desde 2014, sistemas de saúde de todos os Estados Unidos vêm firmando parceria com a Apple para explorar as montanhas de dados que os dispositivos da empresa geram dos pacientes. Mas a maioria ainda está tateando essas ferramentas. Enquanto alguns médicos gostam de ver registros de pressão arterial monitorada em casa, exercícios e similares entre as consultas, outros acham que esses dados são mais para um fardo do que um trunfo.

Mais de 100 tipos de dados estão disponíveis no app Saúde da Apple, disponível no iPhone, Apple Watch. Em junho, a empresa anunciou que os pacientes cujos médicos trabalham com uma das seis empresas de prontuários eletrônicos que participam do novo recurso poderão enviar dados computados por seus dispositivos como frequência cardíaca, horas de sono, tempo de exercício, quantidade de passos dados, histórico de quedas ou ciclo menstrual.

Alguns veem uma grande promessa na construção de canais entre os smartphones dos pacientes e os prontuários acessados por seus médicos. A Apple está “democratizando o fluxo de dados de saúde” entre médicos e pacientes, disse Anil Sethi, ex-diretor de saúde da Apple e atual CEO da Ciitizen, uma startup que agrega dados de saúde de pacientes com câncer.

Mas o anúncio da Apple foi cheio de ambiguidades e trouxe poucos detalhes. A empresa não forneceu uma lista completa dos dados que os pacientes poderão compartilhar com os médicos e não quis comentar para esta reportagem.

Jogadas anteriores da Apple para colocar mais dados nas mãos dos médicos foram anunciadas com grande alarde, mas ainda restam dúvidas sobre quantos profissionais de saúde estão usando esses dados e para quê – e se os casos de sucesso são norma ou exceção. Por ora, são poucos os estudos rigorosos demonstrando claros benefícios para a saúde associados ao monitoramento desses dados.

Embora a Apple tenha criado canais que permitem o compartilhamento de cada vez mais dados com os profissionais de saúde, ainda não se sabe a quantidade de dados que está sendo transmitida.

Em 2014, a Apple lançou o HealthKit, uma ferramenta que, mediante a autorização das pessoas, permite que os serviços de saúde obtenham dados de saúde de seus iPhones. Na época, o então CEO da Mayo Clinic, John Noseworthy, disse que isso “revolucionaria a forma como a indústria da saúde interage com as pessoas”. Mas um porta-voz da Mayo disse que o uso do sistema HealthKit agora é limitado.

O centro médico Cedars-Sinai disse, em 2015, que mais de 87.000 pacientes puderam compartilhar seus dados por meio do HealthKit, um acordo que Tim enalteceu em uma conferência de balanço trimestral. Um porta-voz do Cedars-Sinai não quis comentar que fim levou este projeto.

Mesmo as tentativas da empresa de usar dados do app de seus próprios funcionários para melhorar o atendimento médico ainda não decolaram. O Wall Street Journal reportou que uma iniciativa da Apple de testar um novo serviço de atenção primária para que médicos monitorassem a saúde de seus os funcionários por meio de seus dispositivos havia sido suspensa. A empresa disse que muitas das afirmações a respeito do caso eram imprecisas.

Há alguns casos de sucesso. A Ochsner Health relatou que pacientes inscritos em um programa de controle da hipertensão que dava orientações sobre saúde e monitorava a pressão arterial por meio dos dados dos smartphones, tiveram maior probabilidade de controlar a pressão arterial, seguir o esquema terapêutico e ficar satisfeitos com o tratamento do que o grupo de controle. O sistema de saúde agora também tem programas de monitoramento remoto para diabetes, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e gestantes, disse um porta-voz da Ochsner.

A Epic, a maior empresa de prontuários eletrônicos dos EUA, disse que mais de 100 de seus grandes clientes de sistemas de saúde estão usando o Apple HealthKit para obter dados de dispositivos de monitoramento doméstico, como esfigmomanômetros.

Mas os dados gerados pelos pacientes não foram amplamente adotados na área de saúde, disse o Dr. Benjamin Rosner, professor da University of California, San Francisco (UCSF), nos EUA. Ele e outros apontam grandes obstáculos.

Um, disse o Dr. Benjamin, é que as evidências de que monitorar esses dados melhora a saúde são incongruentes; outro é que os médicos normalmente não são reembolsados pelos planos de saúde pela revisão dos dados que os pacientes coletam em casa.

“Nos EUA, a gente costuma remunerar os médicos e os serviços de saúde para ver os pacientes cara a cara e fazer coisas com eles quando estão lá”, disse Matthew Holt, um consultor de startup de tecnologia em saúde.

Quando os médicos podem ser reembolsados pelo acompanhamento remoto de pacientes, como no caso de certas doenças crônicas, o pagamento geralmente é baixo, disse Dr. Benjamin.

E muitos médicos já se sentem soterrados de informações sobre a saúde do paciente e de tarefas relacionadas com os prontuários eletrônicos.

“Os médicos da atenção primária estão sobrecarregados com suas caixas de entrada”, disse a Dra. Rebekah Gardner, professora associada de medicina na Brown University, nos EUA. “Antes de as pessoas começarem a comprar Apple Watches e enviar todas as suas horas de sono, vamos mostrar que isso melhora a saúde.”

Ela disse que deseja ver estudos mais rigorosos, financiados de forma independente, mostrando que o monitoramento de dados por meio desses dispositivos faz com que as pessoas fiquem mais saudáveis ou melhora o atendimento.

A responsabilização preocupa alguns médicos. O Dr. Oguchi Nkwocha, médico de um centro de saúde comunitário na Califórnia, teme ser responsabilizado caso deixe de ver algo em “um diário de dados”, mas disse que estaria mais aberto a dados já analisados que contenham insights preditivos.

A Apple não é a única empresa de tecnologia que tem lutado para popularizar o compartilhamento de dados em aplicativos de saúde. Tanto o Google quanto a Microsoft habilitaram o compartilhamento de dados para pacientes em seus produtos de registro de saúde pessoal há mais de uma década, mas os encerraram em função da baixa adesão, observou Matthew.

Os otimistas acreditam que as pesquisas vão acabar mostrando que mais formas de monitoramento de dados aprimoram a saúde e que a tecnologia pode ajudar a tornar esses dados mais palatáveis para os médicos. Então, a Apple pode conseguir fazer com que seus aplicativos se tornem parte da medicina – supondo que o método de remuneração mude de modo a incentivar os profissionais a identificarem as questões de saúde precocemente e intervir antes que as pessoas fiquem gravemente doentes, disse Matthew.

“Isso é empolgante para o futuro do gerenciamento de cuidados crônicos”, disse o Dr. David Cho, cardiologista da UCLA Health, sobre o novo recurso. Com dados sobre fatores de risco como exercícios, alimentação e pressão arterial na ponta dos dedos, ele acredita que poderia ajudar seus pacientes a controlarem doenças crônicas com mais facilidade. Esses dados, combinados com consultas on-line, podem significar menos idas ao consultório.

O anúncio de que a Apple pode integrar dados gerados pelo paciente ao prontuário eletrônico pode ser fundamental para os médicos que desejam analisar essas informações, mas não têm a oportunidade de buscá-las, disse o Dr. Seth Berkowitz, que lidera um programa-piloto de aplicativo de monitoramento remoto no Beth Israel Deaconess Medical Center, nos EUA.

Alguns pacientes gostariam de um recurso que facilite o compartilhamento de dados com seus médicos. Jen Horonjeff, uma paciente com doença autoimune e CEO de uma startup de serviços de saúde, descobriu recentemente, usando um Apple Watch, que sua frequência cardíaca, que os médicos descreveram como irregular, estava normal.

“Eu certamente enviaria isso aos meus médicos”, disse Jen, observando que seus dados dariam aos médicos uma linha de base precisa de sua frequência cardíaca se ela precisasse ser hospitalizada.

Mas Gary Wolf, cofundador do Quantified Self, um movimento de pessoas que rastreiam a própria saúde e outros dados pessoais, disse que encontrar um médico capacitado para tomar decisões com base em “dados refinados” é impossível.

Na ausência de mais evidências de que o fornecimento dos dados obtidos por meio desses aplicativos para os médicos apresenta algum benefício clínico, vai ser difícil avaliar se a Apple está se saindo bem, disse Neil Sehgal, professor assistente de políticas de saúde da University of Maryland, nos EUA.

“No momento, não sabemos se há consequências caso você não insira as informações do Apple Watch no seu prontuário eletrônico”, disse ele.

Se as evidências acabarem mostrando vantagens associadas ao compartilhamento dessas informações com os médicos, disse ele, “essas vantagens estarão concentradas em pessoas que podem comprar um telefone de mil e um relógio de quatrocentos dólares”.

KHN (Kaiser Health News) é a redação da KFF (Kaiser Family Foundation), que produz jornalismo em profundidade sobre questões de saúde. Junto com Análise de Política e Pesquisas, a KHN é um dos três principais programas da KFF. A KFF é uma organização sem fins lucrativos que fornece informações sobre saúde.

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