Experimentar e aprender coisas novas é fundamental para a vida no mundo digital


Em um mundo que muda cada vez mais rapidamente, é preciso se atualizar na mesma rapidez e aprender a “desaprender e reaprender”, como diria o futurólogo Alvin Toffler. O aprendizado nasce da experimentação.

by Andrea Iorio MIT Technology Review Agosto 13, 2021

Entre os meus segundo e terceiro anos na Universidade Bocconi, na Itália, onde estudei economia, resolvi fazer um estágio em um lugar diferente, que desde sempre despertou a minha atenção por sua altíssima taxa de inovação e avanço tecnológico, ou seja, Israel. Mesmo com apenas cerca de 9 milhões de habitantes, Israel é um dos países mais inovadores do mundo e tem várias estatísticas que comprovam isso: foi ranqueado o sétimo país mais inovador do mundo em 2021, segundo o Bloomberg Innovation Index.

No meu caso, o estágio não foi em uma empresa de tecnologia, mas têxtil, chamada Nilit, onde fui alocado para trabalhar na area financeira com o sistema SAP. A fábrica estava localizada em Migdal Haemek, uma cidadezinha perto de Nazareth e Haifa, e era nesta última cidade, a segunda maior de Israel, que aluguei um quarto em um apartamento compartilhado com outros estudantes Israelenses.

O interessante, porém, é que todos eles eram mais velhos do que eu, mas estavam apenas começando na faculdade, e no começo estranhei este atraso deles todos. Um deles já tinha 24 anos e estava esperando o primeiro semestre começar. Após a sensação inicial de estranheza, quando me questionava “como é possível que Israel seja tão avançado se os jovens começam a estudar mais tarde?”, percebi que talvez a resposta estivesse no fato de que eles começavam muito tarde.

Confuso? Deixe-me explicar melhor.

Descobri que eles estavam começando na faculdade naquela época pois todos tinham passado por três anos de serviço militar — obrigatório para todo homem e mulher israelense —, e depois todos viajaram o mundo, como é comum em Israel, como se fosse um sabático: alguns viajaram um ano, outros dois, e um até três, entre Ásia, África e América Latina.

Especialização como herança de um mundo analógico e linear

Após retornarem destas viagens, eles começavam a faculdade. Eu pensava que isso fosse muito tarde, você pode pensar que isso fosse muito tarde, mas a verdade é que eu aprendi a gostar deste modelo.

O que você sabe sobre o que você quer fazer da sua vida quando tem 17 ou 18 anos? Pouco ou nada, não é?  Qual o seu grau de maturidade e o seu nível de estabilidade emocional? Bem baixo, convenhamos — e nada contra, eu fui assim também, e temos que ser! E qual nosso grau de entendimento de problemas complexos, reais, do mundo, da economia, da sociedade? Também baixo, pois não passamos por muita coisa até então.

E, de novo, não é um critica a quem tem esta idade, pelo contrário, é uma das épocas mais importantes do desenvolvimento do individuo. A critica é para um modelo educacional e corporativo que herdamos de um mundo analógico, que nos coloca sob pressão para decidir o que queremos ser na vida aos 18 anos, nos fazendo acreditar que essa escolha irá moldar o resto de nossa vida e nos tornará bem sucedidos.

Esse mesmo modelo nos diz fundamentalmente que o ensino formal teórico é mais importante do que o aprendizado por meio da prática e da experimentação, e principalmente ao nos fazer acreditar que realizar coisas novas, testando o que gostamos e vendo depois o que fazer com isso, não faz sentido e seja inerentemente ineficiente — e que por isso não devemos experimentar e aprender coisas novas, mas fundamentalmente seguirmos pelo caminho da hiper especialização.

Pelo menos isso é o que eu vivi, e você?

Inclusive eu errei, após ter me formado na Bocconi, ao ir direto para o mestrado em Relações Internacionais na Universidade Johns Hopkins. Não é que não tenha sido bom, pelo contrário, foi incrível, mas pelo fato de que olhando para trás, eu teria gostado de ter tido uns anos de experiência profissional antes de me adentrar num mundo de direito internacional, comércio exterior e finanças. Simplesmente não tinha a vivência prática que me permitia entender concretamente os temas que estava estudando nos livros e nas aulas. Eu acabei sendo um dos mais novos do curso, e olhava para meus colegas, alguns deles dez anos mais velhos, com passagens por cargos diplomáticos importantes em seus países, com um mix de admiração e sensação de não estar no nível deles.

A importância de se sentir perdido

Recentemente comprovei, em uma leitura do Kevin Kelly, autor best-seller e cofundador da revista Wired, que realmente estou certo, que a Angela Duckworth está certa, e que de alguma forma explica porque as aprendizagens práticas dos israelenses no serviço militar e nas viagens ajudam no desenvolvimento e sucesso:

“Eficiência é para os robôs. Eu acho que as pessoas têm que ser ineficientes de propósito, testando, experimentando coisas novas, fazendo coisas divertidas… isso é de onde as novas ideias surgem. Se você ler as biografias de pessoas que foram extremamente bem-sucedidas, vai perceber como elas também tiveram períodos na vida em que se sentiram perdidas — e por isso devemos abraçar essa sensação”.

Garra: paixão + perseverança

Essa frase é perfeita para descrever minha frustração com a crença de que tudo deve correr sem obstáculos no meio do caminho. Inclusive, a psicóloga e professora da Penn University, Angela Duckworth, autora do livro “Garra: o poder da paixão e da perseverança”, construiu a sua teoria em cima disso. Vamos começar entendendo: o que é essa tal de “garra”? Fundamentalmente a garra é a combinação de paixao e perseverança, sustentados por longos periodos de tempo. Como eu gosto de destacar, pois esta é minha interpretação, não é sobre intensidade, mas sim sobre constancia. Sobre persistência. Sobre a somatoria de microações que no longo prazo levam ao sucesso, mesmo que — como dissemos antes — tenhamos que superar inumeros obstaculos. Não é?

No mundo corporativo funciona exatamente da mesma forma: o principal obstaculo é a interpretação do erro, porque até enxergarmos o erro como um vilão, nós teremos equipes e colaboradores que evitam experimentar coisas novas, o que, temos que lembrar, é a semente da inovação, para consequentemente evitar errar. Em um mundo em rápida transformação e onde as expectativas do cliente mudam o tempo todo, você acha que este é um bom jeito para se manter bem sucedidos nos negócios? Bom, já sabemos que a resposta é não.

Veja agora do lado oposto: organizações que entendem que o erro faz parte de qualquer processo de inovação e começam a tolerá-lo mais, fomentam a experimentação, e até a colaboração — pois se eu errei e não tenho medo de compartilhar com meus colegas ou lideres, eles podem me ajudar e apoiar e isso fomenta a colaboração. Ficou clara a relação?

Veja o caso da Domino’s Pizza: um novo CEO, Patrick Doyle, entrou mais de uma década atras para fazer o turnaround da empresa que estava mal das pernas, com resultados ruins, e ele percebeu que ela precisava de mais inovação na cultura da empresa. Foi assim que, em 2014, ele liderou uma campanha chamada Failure is an option, ou

seja, “O fracasso é uma opção”, onde a equipe mostrava em vídeos os

experimentos mal-sucedidos da Domino’s admitindo que, sim, fracassar

é parte do processo.

Esta e outras iniciativas voltadas a deixar claro que experimentar coisas novas é fundamental, fizeram com que a Domino’s valorizasse suas ações de mais de 1800% desde o começo de 2011, e que hoje seja considerada uma das empresas mais inovadoras do mundo pela revista Fast Company, que a definiu como uma empresa de pizza que se transformou em uma empresa de tecnologia de delivery de pizza.  Veja a importância de experimentar constantemente coisas novas!

E, para finalizar, quero lançar um desafio prático: escolha uma área do saber, um assunto, um tema que te interesse muito, mas que você sempre despriorizou porque sempre pensa “isso nao me serve pra nada”. Pode ser um idioma pelo qual você está apaixonado mas que não serve para o seu trabalho. Pode ser xadrez, pode ser cinema, pode ser filosofia, pode ser nutrição, o que te interessar. E te peço para dedicar uma semana de estudos e prática, em seu tempo livre, sobre esse tema. Não sinta culpa pelo tempo livre que você está dedicando a isso, achando que é tempo disperdiçado, pelo contrário: sob a lógica de tudo que você aprendeu neste artigo, valorize os aprendizados novos que você tiver. Anote seus maiores aprendizados, e como exercício final, quero que você anote duas ou três conexões entre eles com o tema do seu trabalho: tenho certeza que você vai encontrar.


Este artigo foi produzido por Andrea Iorio, autor Best-Selling, palestrante, escritor sobre Transformação Digital, professor de MBA e colunista da MIT Technology Review Brasil.

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