‘A escola que conhecemos hoje já morreu’ diz Daniel Castanho, do grupo Ânima Educação


Sonia Racy – Estadão 05 de julho de 2021 

A educação brasileira “tem de passar por uma transformação enorme”. Quem o diz, e que se dedica a essa causa há muito tempo, é o empresário Daniel Castanho – que faz de seu grupo, a Anima Educação, o laboratório de uma “comunidade de aprendizagem” de 350 mil alunos e 18 mil educadores.

A transformação a que ele se refere, pressupõe uma condição: “Você tem de pensar o futuro vindo do futuro”. O que, segundo ele, significa “quebrar toda a estrutura dogmática que existe dentro da escola atual”. Pois “essa escola da forma como está estruturada, morreu. Professor que quer controlar o aluno, acabou”.

Castanho quer tirar da frente dos alunos, por exemplo, disciplinas como Matemática, Física, Português… Na verdade, já está tirando, pois o modelo de ensino que se pratica em suas escolas é integrado e holístico. “No Anima não temos mais a área de tecnologia, pois ela está presente na empresa como um todo”. E a pandemia do coronavírus, nisso tudo? “O que ela está fazendo é antecipar o que já precisaria estar mudado”.

Nesta entrevista, o educador deixa claro o que pretende atingir: “No final, a gente não é o que a gente junta, mas o que a gente espalha. A vida tem que ser pautada pela capacidade de sonhar. Quem não sonha já morreu”. A seguir, os melhores trechos da conversa.

Daniel Castanho. Foto: Claudio Belli

Como a pandemia está mudando a educação?

A educação tinha, e tem, que passar por uma transformação enorme. A pandemia não transformou nada, o que ela está fazendo é antecipar o que já precisaria ser mudado. Quem sabe essa mudança será estrutural. Por exemplo, o ensino a distância vai deixar de existir, vai ser o ensino permeável, fluido, integrado, indissociável. Sem esse negócio de ensino a distância e/ou presencial.

E o que é exatamente essa mudança estrutural?

Veja, a escola atual foi desenhada na época da revolução industrial, cujo propósito era tirar a pessoa do campo e levá-la para a indústria. Ou seja, ela oferece a mesma coisa para todo mundo, ensino formalizado, disciplinas. Aí tem algo grave, aprende-se alguma coisa e não se vê nenhum sentido. A escola está estruturada para que o aluno faça uma prova que não tem significado.

Eu aprendi um montão de coisas que não usei.

Não é que não sirva, hoje a gente sabe que precisa aprender, o cérebro desenvolve um conjunto heterogêneo de saberes. Quem vai fazer medicina tem de aprender Física por quê? Por causa da lógica. Se você faz Medicina, não importa se é questão de Matemática ou Física. O que conta é que você fica mais inteligente de uma maneira holística. Mas o fato é que você não aprende, você decora. Pra quê? Decora para a prova. E depois estuda na universidade pra quê? Para tirar o diploma. Aí vai trabalhar pra quê? Para ganhar dinheiro. E nunca para o seu propósito, para ser um empreendedor, para fazer uma coisa de que goste. Ser empreendedor não é ter uma empresa, é ser um resolvedor de problemas. Enfim, voltando à questão central, o aluno tem de entender por que está aprendendo aquilo.

O método, no sentido da maneira de ensinar, tem sido o mesmo há quanto tempo?

É o mesmo desde sempre. Mas além do significado, você tem de aumentar a qualidade da presença. Porque você tem de estar onde está. Tem um ditado indiano que diz que o segredo da felicidade é você estar onde está. Muita gente está no trabalho pensando no fim de semana, e no fim de semana pensa na reunião… A qualidade da presença é o quê? É estar na aula com desejo de aprender. Você só aprende por curiosidade ou necessidade.

No fundo, é a diferença entre decorar e aprender, não?

Isso. Mas aí, a escola está estruturada com sistemas de ensino e as duas coisas têm que mudar. Sistema é um negócio fechado, o mesmo para todo mundo, nada personalizado. E aí tem o ensino. O foco é o que eu ensinei, não o que você aprendeu. A gente tem de migrar o sistema de ensino para ecossistemas de aprendizagem, onde o foco não é o que se ensinou, mas o que o aluno aprendeu. E a metodologia envolve muita coisa. A começar pela transmissão do conteúdo: todos aprendendo a mesma coisa. Você aprende algo para uma prova que tem um gabarito. Se tem gabarito, cabe num algoritmo. Se cabe no algoritmo, pode ser substituída por um robô. E daí o que vemos? Que estamos preparando nossas crianças, nossos jovens, para fazer algo que pode ser substituído. Ou seja, os robôs vão roubar esse emprego deles.

O que se pode fazer a respeito?

O que eu lhe digo é que a tecnologia vai devolver a humanidade ao ser humano. De que forma? Tirando esses empregos que podem ser substituídos por algoritmos e gerando outros que tenham a ver com criatividade, com olhar o outro, com solidariedade, curiosidade. São os elementos que têm de estar presentes dentro da escola. Então, a escola vai passar por uma disrupção muito grande. Vai se aprender Matemática, Física, Português, mas também aulas de teatro e educação física, que vão te ensinar garra, determinação, o modo como você vai lidar com o erro. Na educação física, se você não acertou a cesta, pega a bola, tenta de novo, de novo… Exercita a resiliência. Na aula de artes, você enxerga o que não é explícito, ouve o que não foi falado. Coding e decoding serão a base dessa educação futura.

De que se trata?

Codificar e decodificar, ou programar e desconectar. Coding é programar – daí a enorme demanda por cursos de programação para aplicativos. Decoding é desconectar, entrar no flow, contato com a natureza, meditação, detox da tecnologia. Acredito que o futuro será o equilíbrio entre esses dois momentos.

Há uma ideia hoje, nas empresas, de que na hora de contratar alguém, o domínio técnico ficou menos importante do que competência comportamental.

Esse é um assunto incrível. Muitas vezes você tem na escola gente de um nível parecido, um pouco mais homogêneo. E depois vêm as redes sociais, cujos algoritmos foram desenhados pra te mostrar exatamente o que você já pensa. E aí você começa a achar que todo mundo pensa igual… Todo mundo quem? Todo mundo a quem você deu like, que você curtiu… Resultado: as pessoas se tornam xenofóbicas, com dificuldade de escutar. Tá cada vez mais polarizado.

O que uma escola pode fazer a respeito?

O papel da escola é ampliar a diversidade. E não é porque está todo mundo falando, é porque as empresas estão exigindo. A empresa precisa conviver com as diferenças, a escola precisa promover diferenças e diversidades para que as pessoas possam refletir melhor. E por quê? Porque a gente está entrando num mundo do pós-emprego. Não se vai mais trabalhar com um time de marketing, outro de finanças, RH… Na Anima, por exemplo, não temos mais área de tecnologia, ela está na empresa como um todo. A empresa não tem um time de 20 mil pessoas, tem 2 mil grupos de 10 pessoas. E quem são esses? São os squads, os times. É a menina do RH com o rapaz das finanças, mais o de tecnologia atuando em um só projeto. Todos vão trabalhar por projeto, você não vai mais parar de estudar.

E como as escolas vão organizar essa aula?

Hoje você tem o professor que dá uma aula que poderia ser gravada e passada a diferentes classes e que o aluno pode ver e rever na hora em que quiser. O aluno apreende a mensagem e tem perguntas que depois, aí sim, vem o especialista para a aula síncrona. Não será uma aula, ele vai interagir, passar sua experiência. E digo mais: uma grande revolução vai ser quando metade da sala for de alunos da escola privada e metade da escola pública. Aí sim vamos ter uma revolução no País. A tecnologia criando uma comunidade de aprendizado.

Mas para isso cada um terá de assumir sua responsabilidade desde cedo. Como é que se consegue isso?

Hoje, ou você trabalha com confiança, autonomia e accountability ou você morreu. Não cabe mais no mundo uma estrutura comando-controle. A escola do modo como está estruturada morreu, professor que quer controlar o aluno, acabou. As empresas que atuam assim serão extintas, assim como os dinossauros.

Como você está fazendo suas mudanças na Anima?

Lá a gente não tem mais as disciplinas – Matemática I, Contabilidade I… Você tem o Business Plan. Parte dos professores está na Anima, parte está em empresas, porque é algo indissociável. A gente não desenvolve conteúdo, desenvolve competência. Primeiro você recebe conteúdo, amplia seu repertório, para depois ter a interação. É mão na massa, laboratório, trabalhando com os outros. O aluno não entra em Engenharia ou Medicina, ele entra na universidade, vê todas aquelas competências e vai estudando, não existe ex-aluno.

Ensinando dessa forma, o MEC reconhece depois?

Claro. Ele exige, para que o aluno seja um administrador, que tenha estes requisitos. Todos são cumpridos. Você pode fazer tudo na universidade seguindo o conteúdo da Base Nacional Comum Curricular, a BNCC.

Como realizar tudo isso sem que haja antes uma evolução do ser humano?

Como eu lhe disse, o futuro da escola, da universidade, está baseado no coding. É o uso da tecnologia. Mas não é melhorando um processo obsoleto. Você tem de pensar o futuro vindo do futuro. Repensar a escola quebrando toda essa estrutura dogmática que existe hoje. Por isso tem também o decoding, essa relação com a natureza, com outros seres humanos. E no final a gente não é o que a gente junta, é o que a gente espalha. A vida tem de ser pautada pela curiosidade, pela capacidade de sonhar. Quem não sonha já morreu.

https://cultura.estadao.com.br/blogs/direto-da-fonte/a-escola-que-conhecemos-hoje-ja-morreu-diz-daniel-castanho-conselheiros-de-um-dos-maires-grupos-de-educacao-privada-do-pais/

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3 comentários em “‘A escola que conhecemos hoje já morreu’ diz Daniel Castanho, do grupo Ânima Educação

  1. Ótima matéria. A revolução já está começando só que os mais conservadores têm dificuldade em aceita-la, está tarefa está, principalmente, nas gerações presentes que já, não estão aceitando este método de ensino empregado.

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