A síndrome do apressadinho só atrapalha a comunicação digital


A colunista Stela Campos fala sobre o efeito da ansiedade e do medo de parecer ausente na eficácia das nossas interações a distância no home office

Stela Campos – Valor – 10/05/2021

Se você ainda não encontrou a melhor forma de se expressar nos meios digitais, seja por e-mail, WhatsApp ou nas reuniões de Zoom, corra porque esta talvez seja a habilidade que realmente vai importar daqui para frente. Nesse novo mundo híbrido do trabalho, saber se comunicar com eficiência a distância é o que vai garantir seu emprego, sua promoção, seu futuro. Tudo bem, já usamos tudo isso há muitos anos, mas as gafes continuam acontecendo e parece que só estão piorando.

Na ânsia de nos mostrarmos eficientes e sempre de prontidão, até porque sentimos uma certa culpa por estarmos distantes uns dos outros no home office, a pressa tem vindo antes da razão. Existe uma grande expectativa hoje sobre o tempo de resposta em qualquer meio de comunicação digital. Em poucos minutos, alguém já começa a sofrer porque supõe que foi ignorado. São milhares de suposições que levam a pessoa a mandar uma nova mensagem para se certificar de que o outro recebeu a primeira. Assim nossas caixas postais e aplicativos ficam entupidos e perdemos um tempo precioso fazendo faxina digital.

Poderíamos ser mais práticos estabelecendo regras apenas para não enlouquecer. Alguns assuntos precisam ser tratados em minutos, outros podem esperar horas ou até dias. E tem aqueles que não merecem atenção. Não há demérito em postergar o que não é urgente. Correr para responder para o chefe sem refletir, por exemplo, quase sempre dá errado. Você pode sabotar a própria criatividade e ser pouco estratégico somente porque quis parecer presente e rápido. E as letras trocadas? Uma vergonha. Mas você só se dá conta do que fez, depois.

Como diz Erica Dhawan em seu novo livro “Digital body language”, lançado semana passada: “hold your horses”, em uma tradução livre seria algo como “se segura”. Assisti a uma palestra dela anos atrás e fiquei impressionada com sua habilidade em se comunicar. Há anos ela investiga o poder das conexões nas empresas e a comunicação digital. Em seu último estudo, com mais de 2 mil profissionais, ela estima que as pessoas percam pelo menos quatro horas por semana tentando entender mensagens digitais confusas no trabalho. Ela estima que isso custe, aos EUA, US$ 889 bilhões ao ano. Confesso que ao trocar e-mails com ela esses dias fiquei um pouco tensa de cometer algum deslize, afinal todo mundo tropeça alguma vez.

É muito desperdício de energia e dinheiro com mensagens truncadas. Portanto, pense antes de escrever, use a pontuação correta, perca seu tempo buscando obstinadamente ser claro e objetivo no que quer dizer. Erros na interpretação de mensagens, em qualquer meio de comunicação digital, podem gerar infinitos conflitos e angústias no trabalho, especialmente quando estamos distantes. Um OK, por exemplo, pode ser visto como uma resposta funcional ou extremamente impessoal e antipática, depende de como a pessoa o interpreta. Alguém poderia apenas estar com pressa e preferiu digitar só duas letras, sem pensar nas consequências.

Emojis são sempre um risco e muito já se falou sobre isso. Eles podem ser úteis, simpáticos ou denegrir a sua imagem. Se um jovem usa um emoji na mensagem para um chefe sênior corre o risco de parecer pouco maduro. Se o contrário acontece, o chefe pode ser taxado de tiozinho pelo subordinado. É sabido, no entanto, que uma carinha feliz nesse distanciamento do home office ajuda a expressar sentimentos que não conseguimos demonstrar pessoalmente. Em todas essas situações, a dica é conhecer a sua audiência, a relação de poder, o grau de intimidade. Preste atenção nos detalhes antes de mandar um emoji beijoqueiro:)

Nas mensagens instantâneas, as regras são parecidas. O bom senso deveria prevalecer, mas a afobação dos nossos dias faz muita gente perder o controle. O fato de ficar explícito que você leu ou ouviu e não respondeu imediatamente pode matar alguém de ansiedade. Entender a prioridade do outro faz parte do jogo. Espere e roa as unhas se for preciso. Talvez a pessoa nem saiba o que te responder naquele momento.

As reuniões virtuais são um capítulo à parte. Entenda de uma vez por todas que nem tudo precisa ser resolvido pelo Zoom. Alguns assuntos podem ser tratados por e-mail e outros pelo telefone, como já falei nesta coluna. E quando o encontro virtual for de fato necessário, evite marcar no fim do dia quando todo mundo já está cansado. Ninguém gosta de aparecer destruído na tela.

Se não quiser aparecer, desligue a câmera, mas lembre que se alguém preferiu uma reunião por Zoom é porque provavelmente quer te ver. Não seja antipático, siga a maioria. O mais importante, no entanto, é ter claro o motivo da reunião. Isso vai tornar mais eficaz a sua comunicação digital. E tudo começa na escolha de quem deve participar. Os mais tímidos, no geral, não gostam. O segredo é pensar em quem de fato deveria estar envolvido naquele tema, naquela etapa do projeto ou discussão. Enviar as perguntas com dias de antecedência para os participantes se prepararem e pensarem sobre o assunto ajuda na dinâmica do encontro.

Deixar o chat aberto para as pessoas enviarem respostas é uma regra que Erica Dhawan recomenda. Ela diz que assim o organizador pode selecionar as respostas mais diversas para compartilhar na reunião. Isso ajuda os tímidos e evita que aquele grupo de três ou quatro falantes dominem a tela. Em qualquer meio de comunicação digital, respeitar o silêncio e a pausa para organizar o pensamento e a reflexão pode ser o primeiro e talvez o passo mais importante para qualquer profissional hoje. “Hold your horses”.

https://valor.globo.com/carreira/coluna/a-sindrome-do-apressadinho-so-atrapalha-a-comunicacao-digital.ghtml

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