Não deixe que a pandemia acabe com a cultura da sua empresa


Jenny Chatman e Francesca Gino HBR 18 de dezembro de 2020

Se você é como muitos dos executivos com quem conversamos nos últimos meses, significa que, juntamente com sua equipe de liderança, investiu anos no cultivo de uma cultura eficaz, que seja, ao mesmo tempo, estrategicamente relevante, ao priorizar os comportamentos essenciais ao sucesso da empresa, e forte, no que diz respeito à confiança e valorização por parte dos funcionários. Culturas assim ajudam as empresas a atrair e reter os melhores funcionários, além de levar a ótimos resultados.]

No entanto, a pandemia da Covid-19 pode ser um risco à cultura da sua organização. Ela poderá ser afetada pelo fato de as pessoas estarem impedidas de se encontrar pessoalmente, dificultando a solidificação das crenças que compartilham? A capacidade de usar a cultura da empresa como roteiro para a tomada das decisões em tempos tumultuados será prejudicada? Como continuar construindo e fortalecendo a cultura da empresa, operando remotamente?

Pesquisas mostram que criar uma cultura estrategicamente alinhada e forte, amplamente compartilhada e intensamente valorizada, não garantirá resultados no longo prazo, a menos que essa cultura seja também adaptável em tempo real. De fato, temos um estudo mostrando que empresas estrategicamente alinhadas, fortes e com capacidade de se adaptar rapidamente a ambientes dinâmicos registraram faturamento anual 15% superior ao das empresas menos adaptáveis, no mesmo setor de atuação.

A adaptabilidade cultural, que reflete a capacidade de uma empresa inovar, experimentar e aproveitar-se rapidamente de novas oportunidades, é especialmente importante no atual momento histórico. Os líderes devem continuar cultivando a cultura da empresa, como forma de ajudar as equipes a manterem o foco nas iniciativas mais importantes, enquanto enfrentam os desafios sem precedentes e as condições de instabilidade impostas pela pandemia.

Que práticas você pode aplicar para garantir que a cultura da empresa se torne ou se mantenha adaptável? Aqui vão três ideias:

1. Contrate e promova pessoas resilientes, adaptáveis e que saibam trabalhar sob pressão. As pessoas menos sistemáticas são as mais propensas a ir além e aproveitar todo o seu talento para atravessar as incertezas apresentadas pela pandemia. São os rebeldes, que apresentam, ao mesmo tempo, curiosidade e perspectiva, adotam o novo, superam as diferenças e mantêm o autocontrole, mesmo quando o mundo parece estar desabando. Criam mudanças positivas.

Obviamente, se sua empresa ainda não tiver uma cultura adaptável, seja sincero ao contratar pessoas assim. Diga esperar que elas sejam os agentes da mudança.

2. Selecione e apresente exemplos de como a empresa está aderindo aos seus valores culturais por meio de novas práticas. Como tudo está diferente nesses tempos de Covid-19, será preciso buscar ativamente, selecionar e realçar novos exemplos da cultura que você almeja.

Os líderes de uma grande empresa farmacêutica muito centrada no trabalho presencial perceberam que as reuniões pelo Zoom, necessárias devido às determinações de afastamento social, ofereciam maior possibilidade de interação entre pessoas baseadas em diferentes locais, permitindo maior inclusão, um dos valores centrais da companhia. Assim, a empresa instituiu uma nova norma operacional: se alguém precisa participar remotamente de uma reunião, aquela reunião vai se tornar remota para todos.

Da mesma forma, uma rede varejista que preza pela abertura e transparência começou a conduzir fóruns virtuais frequentes durante a pandemia, abertos a todos os funcionários. Durante esses fóruns, os líderes escutam os funcionários e respondem às suas perguntas. Após as medidas de distanciamento obrigarem os funcionários a trabalhar de casa, uma empresa de entretenimento que anteriormente havia desestimulado o trabalho remoto, percebeu que, ao não o adotar, estaria sendo incoerente com os próprios valores de autonomia e responsabilidade. Os líderes comunicaram a decisão de forma explícita aos funcionários pelo canal de comunicação interna, e se comprometeram a oferecer a possibilidade de trabalho remoto opcional, inclusive após o fim da pandemia.

3. Seja um modelo de valores adicionais. No início da pandemia, a direção da &pizza, uma rede de restaurantes conhecida por vender pizzas em formato retangular com sede em Washington D.C. (EUA), concluiu que seria o momento perfeito para fortalecer sua cultura. Segundo a empresa, sua filosofia baseava-se em “fazer o bem, sendo bom”, para servir e refletir as comunidades em que as lojas estão localizadas.

Em março deste ano, os líderes da empresa lançaram uma iniciativa para distribuir pizzas gratuitamente aos profissionais de saúde em hospitais que atendiam pacientes com Covid-19. Reconhecendo que a pandemia afetaria sua própria “tribo” (seus funcionários), aumentaram a remuneração por hora e os benefícios; por exemplo, passaram a oferecer ao seu pessoal acesso livre à Netflix e a pagar os custos de transporte para o trabalho. Além disso, a empresa também ofereceu folga remunerada para aqueles que quisessem participar das manifestações em protesto pela morte de George Floyd. Dessa forma, obteve uma retenção de 90% dos funcionários, sendo que os 10% que pediram demissão o fizeram alegando motivos pessoais. (Antes da pandemia, a taxa de rotatividade no emprego da rede já era de 10%).

É bem provável que sua empresa já tenha se adaptado ao momento da pandemia de forma mais rápida e efetiva do que você jamais imaginou ser possível. Busque consolidar esse progresso, comunicando a conquista aos seus funcionários e instituindo as práticas aqui descritas. Com isso, você fortalecerá a cultura da sua empresa, de forma a enfrentar qualquer dificuldade que venha a se apresentar.


Jenny Chatman é professora honorária da cadeira Paul J. Cortese de Gestão, vice-reitora de estratégias de aprendizagem e diretora da Berkeley Haas Culture Initiative na University of California, Berkeley’s Haas School of Business.


Francesca Gino é cientista comportamental e professora de Administração de Empresas na Tandon Family da Harvard Business School. Gino é autora dos livros “Rebel talent: why it pays to break the rules at work and in life” e “Sidetracked: why our decisions get derailed, and how we can stick to the plan”

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