As mídias sociais prometeram nos conectar, mas, ao contrário, nos deixaram isolados e tribais.


Um psicólogo que estuda ansiedade e estresse explica como lidar com uma época cada vez mais conflituosa.

POR ARASH JAVANBAKHT Fast Company 13/11/2020(Tradução Evandro Milet)

Há cerca de um ano, comecei a acompanhar meu interesse por saúde e boa forma no Instagram. Logo comecei a ver mais e mais contas, grupos, publicações e anúncios relacionados a fitness. Continuei clicando e seguindo, e eventualmente meu Instagram se tornou todo sobre pessoas em forma, condicionamento físico e material motivacional e anúncios. Isso soa familiar?

Enquanto os algoritmos e meu cérebro me mantinham rondando os feeds sem fim, me lembrei do que os profissionais de marketing digital gostam de dizer: “O dinheiro está na lista”. Ou seja, quanto mais personalizado for o seu grupo, pessoas e páginas, menos tempo e dinheiro serão necessários para vender a você idéias relacionadas. Em vez disso, os embaixadores da marca farão o trabalho, divulgando produtos, ideias e ideologias com paixão e gratuitamente.

Sou um psiquiatra que estuda ansiedade e estresse, e frequentemente escrevo sobre como nossa política e cultura estão atoladas no medo e no tribalismo. Meu co-autor é um especialista em marketing digital que traz expertise para o aspecto tecnológico-psicológico desta discussão. Com a nação no limite, acreditamos que é fundamental ver como a nossa sociedade está sendo facilmente manipulada para o tribalismo na era da mídia social. Mesmo depois de terminado o exaustivo ciclo eleitoral, a divisão persiste, se não se amplia, e as teorias da conspiração continuam a surgir, crescer e provocar divisão nas redes sociais. Com base em nosso conhecimento sobre estresse, medo e mídia social, oferecemos a você algumas maneiras de enfrentar os próximos dias e de se proteger do ambiente atual de divisão.

A PROMESSA,  MATRIX

Aqueles de nós com idade suficiente para saber como era a vida antes das mídias sociais podem se lembrar de como o Facebook era empolgante em seu início. Imagine, a capacidade de se conectar com velhos amigos que não víamos há décadas! Então, o Facebook era uma conversa dinâmica virtual. Essa ideia brilhante de se conectar a outras pessoas com experiências e interesses compartilhados foi fortalecida com o advento do Twitter, Instagram e aplicativos.

As coisas não permaneceram tão simples. Essas plataformas se transformaram em monstros tipo Frankenstein, cheias de supostos amigos que nunca conhecemos, notícias tendenciosas, fofocas de celebridades, auto-engrandecimento e anúncios.

A inteligência artificial por trás dessas plataformas determina o que você vê com base em sua atividade nas mídias sociais e na rede, incluindo seu engajamento com páginas e anúncios. Por exemplo, no Twitter você pode seguir os políticos de que gosta. Os algoritmos do Twitter respondem rapidamente e mostram a você mais postagens e pessoas relacionadas a essa tendência política. Quanto mais você gosta, segue e compartilha, mais rápido você se encontra se movendo nessa direção política. Há, no entanto, esta nuance: esses algoritmos que rastreiam você geralmente são acionados por suas emoções negativas, geralmente impulsividade ou raiva.

Como resultado, os algoritmos amplificam o negativo e então o espalham, compartilhando-o entre os grupos. Isso pode ter um papel na raiva generalizada entre os que estão envolvidos na política, independentemente de seu lado do corredor.

A TRIBO DIGITAL

Eventualmente, os algoritmos nos expõem principalmente à ideologia de uma “tribo digital” – da mesma forma que meu mundo do Instagram se tornou apenas pessoas saradas e ativas. É assim que o Matrix de alguém pode se tornar os extremos do conservadorismo, do liberalismo, de diferentes religiões, defensores ou negadores das mudanças climáticas, ou outras ideologias. Membros de cada tribo continuam consumindo e alimentando uns aos outros com a mesma ideologia, enquanto policiam uns aos outros contra a abertura para “os outros”.

De qualquer forma, somos criaturas inerentemente tribais; mas, especialmente quando estamos com medo, regredimos ainda mais ao tribalismo e tendemos a confiar nas informações transmitidas a nós por nossa tribo e não por outras pessoas. Normalmente, isso é uma vantagem evolutiva. A confiança leva à coesão do grupo e nos ajuda a sobreviver.

Mas agora, esse mesmo tribalismo – junto com a pressão dos colegas, emoções negativas e temperamento explosivo – muitas vezes leva a colocar no ostracismo aqueles que discordam de você. Em um estudo, 61% dos americanos relataram ter desfeito amizade, deixar de seguir ou bloquear alguém nas redes sociais por causa de suas opiniões ou postagens políticas.

Níveis mais altos de uso de mídia social e exposição a notícias sensacionalistas sobre a pandemia estão associados ao aumento da depressão e do estresse. E mais tempo gasto nas redes sociais se correlaciona com maior ansiedade, o que pode criar um ciclo negativo. Um exemplo: o Pew Research Center relata que 90% dos republicanos que recebem suas notícias políticas apenas de plataformas conservadoras disseram que os EUA controlaram o surto COVID-19 tanto quanto possível. No entanto, menos da metade dos republicanos que dependem de pelo menos um outro grande provedor de notícias pensa assim.

MATRIX FAZ O PENSAMENTO

O próprio pensamento humano foi transformado. Agora é mais difícil para nós entender o “quadro geral”. Hoje em dia, um livro é muito longo, demais para algumas pessoas. A cultura de rolar e arrastar reduziu nosso intervalo de atenção (em média, as pessoas gastam de 1,7 a 2,5 segundos em um post de notícias do Facebook). Ele também desativou nossa capacidade de pensamento crítico. Mesmo as notícias realmente importantes não duram em nosso feed mais do que algumas horas; afinal, a próxima história de grande sucesso está por vir. Matrix faz o pensamento; nós consumimos a ideologia e somos apoiados por likes dos nossos companheiros de tribo.

Antes de tudo isso, nossa exposição social era principalmente para família, amigos, parentes, vizinhos, colegas de classe, TV, cinema, rádio, jornais, revistas e livros. E isso era o suficiente. Nela havia diversidade e uma dieta informativa relativamente saudável com uma grande variedade de nutrientes. Sempre conhecemos pessoas que não pensavam como nós, mas conviver com elas era vida normal, parte do negócio. Agora essas vozes diferentes se tornaram mais distantes – ”as outras” que amamos odiar nas redes sociais.

EXISTE UM ANTÍDOTO(Red Pill em linguagem Matrix)?

Precisamos retomar o controle. Aqui estão sete coisas que podemos fazer para nos desconectar de Matrix:

  • Revise e atualize suas preferências de anúncios nas mídias sociais pelo menos uma vez por ano.
  • Confunda a IA sinalizando todos os anúncios e sugestões como “irrelevantes”.
  • Pratique ser mais inclusivo. Verifique outros sites, leia suas notícias e não desfaça amizade com pessoas que pensam diferente de você.
  • Desligue as notícias da TV e leia em seu lugar. Ou pelo menos coloque um limite disciplinado nas horas de exposição.
  • Frequente fontes de notícias menos tendenciosas, como NPR, BBC e The Conversation.
  • Se você acha que tudo o que os líderes de sua tribo dizem é verdade absoluta, pense novamente.
  • Fique offline e saia (apenas use sua máscara). Pratique horas sem smartphone.
  • Por fim, lembre-se de que seu vizinho que apoia outro partido político não é seu inimigo; vocês ainda podem andar de bicicleta juntos! Eu fiz isso hoje, e nem precisamos falar de política.

É hora de tomar a pílula vermelha. Dê esses sete passos e você não vai ceder à Matrix.

Arash Javanbakht é professor associado de psiquiatria na Wayne State University. Esta peça foi escrita em coautoria com Maryna Arakcheieva, especialista em soluções e marketing digital. Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. 

https://www.fastcompany.com/90574907/social-media-promised-to-connect-us-but-made-us-isolated-and-tribal-instead

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Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana em A Gazeta, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

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