‘E agora, Brasil?’: País vive ‘evasão silenciosa’ de profissionais de tecnologia


Há cerca de 25 mil vagas na área de TI ociosas. Para especialistas, país precisa começar transformação digital formando mais pessoas nas áreas de exatas

O Globo 13/11/2020 

Profissionais de TI estão em falta no Brasil, que vive crise no mercado de trabalho Foto: Arquivo

Profissionais de TI estão em falta no Brasil, que vive crise no mercado de trabalho Foto: Arquivo

RIO – Em plena crise econômica gerada pela pandemia, sobram vagas para profissionais de TI, que são alvo de empresas estrangeiras

Com a crise provocada pela pandemia a partir de março, o Brasil superou a marca de 13 milhões de desempregados. Mas, na área de Tecnologia da Informação (TI), sobram vagas.

‘E agora, Brasil?’: Com pandemia, empresas aceleram transformação digital de seus negócios

O que falta é mão de obra formada para atender à demanda do setor que avança junto com a transformação digital em diferentes segmentos da economia, o que pode atrapalhar os planos de empresas e a recuperação do país.

O tema foi debatido  na última terça-feira, da quarta edição on-line dos encontros “E agora, Brasil?”.

Eduardo Peixoto, diretor de Design do CESAR, contou no “E agora, Brasil” que o hub de tecnologia instalado no Recife cresceu 35% neste ano. Com mais demanda por serviços, foi preciso contratar.

— Nós contratamos 130 pessoas durante a pandemia, e continuamos com 70 vagas abertas — afirmou Peixoto, citando que o problema também afeta o Porto Digital, parque tecnológico que abriga 330 empresas, que faturam mais de R$ 2 bilhões por ano. — Tanto no CESAR como no Porto Digital, os negócios não aceleram mais por falta de mão de obra qualificada.

‘E agora, Brasil?’: O colunista do GLOBO Pedro Doria conversa com a comediadora do debate, a repórter do Valor Econômico Daniela Braun, e com convidados sobre o papel da tecnologia para os negócios em meio à crise do coronavírus. Participam Patricia Borges, da L’Oréal; Hudson Mendonça, da Coppead/UFRJ; Maricy Porto, da Kopenhagen e Chocolates Brasil Cacau; Eduardo Peixoto, do CESAR; e Jean Lessa, da B2W Foto: Reprodução / Agência O Globo

E agora, Brasil?’: O colunista do GLOBO Pedro Doria conversa com a com a mediadora do debate, a repórter do Valor Econômico Daniela Braun, e com convidados sobre o papel da tecnologia para os negócios em meio à crise do coronavírus. Participam Patricia Borges, da L’Oréal; Hudson Mendonça, da Coppead/UFRJ; Maricy Porto, da Kopenhagen e Chocolates Brasil Cacau; Eduardo Peixoto, do CESAR; e Jean Lessa, da B2W Foto: Reprodução / Agência O Globo

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação (Brasscom), o setor empregava 1,56 milhão no fim de 2019. A demanda é de 70 mil profissionais de TI por ano, mas cerca de 25 mil vagas ficam ociosas.

As empresas ainda enfrentam a crescente concorrência estrangeira. Com o dólar alto, contratar em reais é barato. E, com o trabalho remoto, nem é preciso se preocupar com vistos e mudanças.

— As tecnologias de comunicação aplainaram o acesso ao capital humano. Não existem mais barreiras geográficas. Empresas de fora estão contratando profissionais que já são escassos aqui — disse Peixoto. — Estamos vivendo uma evasão silenciosa.

Saída pela web: Impulsionado pela pandemia, número de sites de e-commerce cresce 40% e passa de 1,3 milhão

O especialista lembrou cenário semelhante que aconteceu na virada do século, com as empresas de tecnologia americanas buscando mão de obra em outros países. O Brasil poderia ser o destino dos investimentos, mas tinha poucos formados em ciências exatas:

— Esse negócio, de desenvolvimento de softwares, acabou indo para a Índia.

Para resolver o problema é preciso investir na formação profissional, mas isso leva tempo. Para queimar etapas e atender a essa demanda, Peixoto propõe que o país invista no ensino médio, para habilitar estudantes como técnicos em programação.

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‘Mudança cultural’

Apesar do impacto da tecnologia em momentos de crise como o atual, participantes do evento concordam que ‘mudança cultural’ começa nas pessoas. Para especialista, consumidores absorvem inovações mais rapidamente que empresas

A aceleração da transformação digital dos negócios promovida pela pandemia alterou não apenas recursos, processos e operações dentro de empresas, mas também as pessoas envolvidas.

Editoria de Arte Foto: Editoria de ArteEditoria de Arte Foto: Editoria de Arte

Os tomadores de decisão, que viram a necessidade de investir em novas ferramentas para continuarem operando, os funcionários, que precisaram de treinamento, e, principalmente, os consumidores. É o que apontaram os especialistas em tecnologia que participaram do “E agora, Brasil?”.

— O digital é a ponta do iceberg — afirmou Hudson Mendonça, pesquisador do LabrInTOS da Coppe/UFRJ. — Existe uma mudança cultural por trás desse processo que talvez seja tão ou até mais importante que a própria ferramenta.

Isoladas em suas casas, as pessoas tiveram que encontrar formas de trabalhar, estudar e consumir. E isso exigiu adaptação a novas ferramentas. Escritórios foram substituídos pelo home office, enquanto estudantes trocaram salas de aula por plataformas de videoconferência. No consumo, o e-commerce ganhou força.

Soluções simples

Foi a imposição desses novos hábitos às pessoas que forçou as empresas a acelerarem seus investimentos em transformação digital, explicou Eduardo Peixoto, diretor de Design do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (CESAR), um centro de tecnologia instalado na capital pernambucana.

Não adianta a oferta de serviços on-line se os clientes estiverem off-line, observou. Mas com a pandemia, todos, de certa forma, foram empurrados para o ambiente digital.

— As pessoas absorvem a tecnologia mais rapidamente que as empresas, e levam isso para os negócios — disse o especialista, ressaltando que o coronavírus acelerou tudo. — As empresas que não eram digitais viraram, tentaram virar ou ficaram fora do negócio.

Mas essa transformação, literalmente da noite para o dia, não foi tarefa fácil. Principalmente para empresas estabelecidas, disse Mendonça, observando que negócios menores, como start-ups, têm mais flexibilidade:

— Uma grande empresa não pode fazer um MVP (sigla para mínimo produto viável, um protótipo para testar a aceitação do público) como uma start-up. Tem toda uma história a ser preservada.

Soluções como a venda por WhatsApp, adotadas pela Kopenhagen, uma das mais tradicionais e antigas marcas de chocolates do país, acabaram se tornando exemplos de saídas simples e ágeis discutidos no debate.

Porém, ter à mão ferramentas não basta. É preciso treinar as pessoas para novos formatos de negócios, concordaram os participantes.

Na B2W Digital, a capacitação do empresário por trás da pequena loja que usa a plataforma das marcas do grupo para chegar aos seus clientes se mostrou um diferencial que não tem a ver com tecnologia propriamente dita. É formação de gente, contou o diretor de Tecnologia e Marketplace da companhia, Jean Lessa, que também precisa estar previsto nos investimentos:

— Este ano ministramos mais de 300 cursos gratuitos, capacitamos 4 mil sellers no terceiro trimestre.

Vantagem no pós-pandemia

Mas, passada a tempestade, as empresas que aceleraram a transformação digital estarão melhor posicionadas que antes da pandemia, acredita Peixoto, do CESAR. As ferramentas digitais facilitam a inovação, tornando mais fáceis os testes de novos produtos e serviços, além de fornecerem dados de consumo dos clientes.

Essa crise também permitiu o surgimento e a popularização se serviços até pouco tempo dignos de ficção científica. Quem pensaria em ambientes virtuais para o ensino curricular em casa ou, no setor de saúde, idosos usando smartphones para consultas remotas?

— Num estalar de dedos, muitas das coisas que a gente dizia não serem possíveis foram testadas — afirmou Peixoto, ressaltando que a digitalização, uma vez iniciada, não tem volta.

E a transformação digital deve se acelerar ainda mais com a próxima geração da telefonia móvel, o 5G. Para Mendonça, as empresas podem mitigar o risco representado pelo atraso da tecnologia no Brasil diversificando as apostas, em vez de concentrar investimentos numa cesta só:

— O mais importante é se preparar para os conceitos. O 5G é uma tecnologia que vai mudar o cenário de tudo, abrir possibilidades que a gente não imaginava. E o processo será longo, então esperar um pouco pode ser positivo se você estiver bem posicionado.

Investimentos em start-ups

Hudson Mendonça está à frente do MIT REAP (Regional Entrepreneurship Acceleration Program), programa de aceleração do empreendedorismo regional do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que ao longo dos próximos dois anos pretende construir intervenções estratégicas com o objetivo de transformar o Rio no Vale do Silício da energia e da sustentabilidade.

Ele vê o cenário do empreendedorismo no país com otimismo, destacando que este ano, apesar da pandemia, bateu recorde de aportes em start-ups.

— A pandemia vai trazer profundas reflexões que vão além do digital — afirmou Mendonça. — A gente pode pensar num outro termo além do unicórnio (start-ups que alcança valorização de US$ 1 bilhão), como o camelo, para start-ups que são resilientes a crises como a da pandemia.

https://oglobo.globo.com/economia/e-agora-brasil-pais-vive-evasao-silenciosa-de-profissionais-de-tecnologia-1-24743726#:~:text=E%2C%20com%20o%20trabalho%20remoto,Estamos%20vivendo%20uma%20evas%C3%A3o%20silenciosa.

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