Frederico Trajano, o executivo inovador: “Inovar não é destruir o passado”


Primeiro a ser eleito na nova categoria, Frederico Trajano vai aumentar o número de aquisições e diz que não há limite para os investimentos em inovação

Por Adriana Mattos, Valor — São Paulo

18/09/2020 

Para o CEO do Magazine Luiza, a empresa toda tem que pensar fora da caixa e não ficar na bolha da Faria Lima. 

Há poucas áreas em que o consumidor consegue perceber o efeito das inovações em sua vida como no varejo – seja no processo de compra ou de experimentação. Nos últimos anos, varejistas pelo mundo, sabendo disso, avançaram sobre novas possibilidades – da loja sem caixa ao provador com atendente virtual. No Brasil, de um ano para cá, essa revolução na loja passou a dividir espaço com outra, no segmento de “marketplaces”, algo que talvez melhor explique o prêmio recebido neste ano pelo presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, como o executivo mais inovador do país. Eleito por um conselho de notáveis, a premiação é concedida pela primeira vez pelo anuário Valor Inovação Brasil, junto com a Strategy&, consultoria estratégica da PwC.

Como CEO da rede, Trajano acelerou o lançamento de ações para digitalizar os vendedores, parceiros da varejista, levando-os a gerar negócios a partir de seu “marketplace”, plataforma de venda de produtos de terceiros, além da venda de seu próprio estoque. No fim de 2016, o Magazine Luiza começou a atuar nessa área, mas foi a partir de 2019 que cresceu o volume de soluções em serviços para o pequeno empreendedor.

A empresa quer criar o que chama de ecossistema de serviços para os parceiros, na área de sistemas e logística (entrega das mercadorias vendidas pelo lojistas), no financeiro (como crédito) e em pagamentos virtuais.

Para Trajano, inovar é algo inerente ao processo de construção do Magazine Luiza, fundado em 1957, em Franca (SP), pela tia avó, Luiza Trajano Donato. Ele é a terceira geração da família.“Minha tia vendeu a primeira TV em cores para boa parte das casas do interior de São Paulo, a minha mãe [Luiza Helena] vendeu a primeira lavadora automática, e agora, nesse ciclo, estamos gerando inclusão digital.”

“Não acreditamos em inclusão social sem inclusão digital, e para que isso ocorra é preciso inovar, investir em tecnologia. Isso é absolutamente fundamental para que a gente cumpra o nosso propósito de digitalizar o Brasil”, afirma.

O Magazine Luiza quer dar as ferramentas para criar mais empreendedores digitais, que cresçam vendendo pelo seu on-line. Esses lojistas expõem seus produtos nas plataformas da rede e pagam uma taxa pelos serviços que usam do site. É algo que outras cadeias vêm fazendo – como B2W e Mercado Livre –, algumas até há mais tempo, exigindo que o Magalu acelere mais em suas inovações.

Ao mencionar iniciativas recentes dentro dessa estratégia, ele cita o projeto Parceiro Magalu, lançado logo no início da pandemia, em março. Por meio dele, pessoas físicas e jurídicas (pequeno porte) podem vender on-line, tendo lojas dentro do Magazine Luiza. No caso das pessoas físicas, os consumidores vendem em suas redes sociais produtos da própria varejista e ganham comissão sobre a venda. O produto já existia e foi integrado numa plataforma maior, como forma de dar opção de novo negócio no início da atual crise.

“Olhando mais recentemente, o Parceiro Magalu é uma plataforma inovadora e foi grande destaque da companhia na pandemia porque atinge dois públicos, a pequena empresa analógica que estava com a porta fechada e o Parceiro Magalu para pessoa física. Com isso, 300 mil pessoas passaram a vender produtos do Magalu e ganhar renda extra com isso”, diz. 

Em junho de 2020, além dessas 300 mil pessoas, eram 32 mil vendedores no marketplace da empresa – um ano antes, eram oito mil. Entre abril e junho de 2020, muito impulsionado pelo marketplace, o braço digital do Magalu vendeu mais do que a soma das receitas do on-line e das lojas físicas no segundo trimestre de 2019. O crescimento foi de 182%, o maior da história da empresa.

O executivo cita aquisições recentes para avançar nessa montagem de um novo sistema, integrado ao Luizalabs, o laboratório de pesquisa e desenvolvimento do grupo. “Estamos aumentando o número de aquisições em diversas áreas e teremos logo mais anúncios [de compras]. O Luizalabs está cada vez mais relevante e não tem limite para o investimento que vamos fazer lá”, conta. Em agosto, a empresa anunciou quatro aquisições de startups focadas em logística, sistemas e comunicação.

De janeiro a junho de 2020, a empresa investiu R$ 78,5 milhões em tecnologia, alta de 52% sobre 2019. Na lista de áreas de investimentos da rede (novas lojas, reformas etc.), é aquela com maior valor, e quase a metade de todo o investimento no período. 

O Luizalabs surgiu em 2014 e por lá passa tudo que é relacionado com tecnologia. São cerca de 1.300 desenvolvedores e especialistas – há dois anos, eram 300. Por meio do Luizalabs, em três meses são entregues projetos que normalmente levariam um ano.

Não é só a equipe do laboratório que segue esse direcionamento focado em inovação. A empresa toda tem que pensar fora da caixa. “Quando avaliamos contratações, temos um conjunto de critérios, e um deles é inovação”, diz Trajano ao explicar que o tema deve estar distribuído pela empresa. “É preciso agir rápido, testar, implementar e aprender com o erro, e não esperar muito para fazer. Não há uma pessoa, uma área designada para cuidar da inovação.” Cabe à alta gestão estabelecer um norte para as pessoas inovarem dentro daquilo que se quer. O diretor de agilidade, Henrique Imberti, ajuda a gerenciar o andamento de projetos, que muitas vezes são testados ao mesmo tempo na rede.

Uma das medidas tomadas durante a pandemia, gerada a partir de uma ideia inovadora, foi a venda de insumos agrícolas no marketplace, a ideia que surgiu quando Trajano trabalhou em home office, numa fazenda da família próxima de Franca (SP). “Fora da bolha da Faria Lima e olhando para fora você tem insights, como o que tivemos ao colocar o agro na plataforma. A inovação surge daí, você vive a realidade e tem insights a partir dela”, afirma.

Para Trajano, não passa de mito a afirmação de que para inovar é preciso destruir o passado. “Eu acredito mais na inovação que alavanca o passado, e não que o destrói”, diz. Ele dá como exemplo a decisão de não separar a operação das lojas físicas do site, em 2014, num momento em que muita gente fazia esse tipo de ‘spinoff’.

“Fizemos porque acreditávamos naquilo que foi criado e eu não iria destruir isso”, diz. As pessoas inovadoras que ele mais respeita aprendem com o legado e não jogam fora. “Inovar não é jogar o legado fora”, diz o executivo, que faz parte da terceira geração da família. Em 2016, aos 39 anos, Trajano assumiu a presidência para acelerar a operação digital da empresa.

Para Victor Saragiotto, analista do Credit Suisse, “não são muitas as empresas que vêm fazendo do limão uma limonada como o Magazine Luiza”, diz em relatório. De janeiro a junho, incluindo o período de pandemia, a receita do Magazine Luiza cresceu 25%, para quase R$ 11 bilhões.

https://valor.globo.com/inovacao/noticia/2020/09/18/frederico-trajano-o-executivo-inovador-inovar-nao-e-destruir-o-passado.ghtml

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