Do sem G ao 5G: nova internet móvel é chance para o Brasil tirar o atraso


A nova era da conectividade finalmente chegou ao país com a Claro, mas é preciso um plano nacional

Por Juliana Estigarríbia, Lucas Agrela e João Victor Palácio Fonseca – Revista Exame

Publicado em: 30/07/2020 

Em uma fazenda no interior de Mato Grosso, máquinas agrícolas com sistema de condução autônoma operam em lavouras de soja e milho. A programação das rotas e o posicionamento preciso são feitos por meio de uma rede de internet celular 4G da operadora Claro. É uma opção em regiões onde a banda larga fixa, muito comum nos grandes centros, não chega.

Essa tem sido a rea­lidade de muitos brasileiros: 29% dos domicílios no país não têm nenhum tipo de acesso à internet, de acordo com dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação. Em ­áreas rurais, essa parcela sobe para 49%.

Uma das explicações para essa carência está nas dimensões continentais do Brasil, o que dificulta a implantação de redes de fibra óptica, considerada a tecnologia mais eficiente de banda larga fixa. Há muitos anos, as alternativas adotadas em diversas localidades têm sido o rádio e os chips de 3G e 4G.

Mas está a caminho uma revolução para levar conectividade às grandes massas e colocar o Brasil em pé de igualdade com os países desenvolvidos: é a quinta geração de internet, ou 5G.

Quem está saindo na frente na briga por esse mercado é a Claro, subsidiária da mexicana América Móvil, que começou a implantar em julho as primeiras redes de quinta geração do país em alguns bairros de São Paulo e do Rio de Janeiro — antes mesmo da realização do leilão de frequências 5G pelo governo, que deve ficar para 2021. O plano da Claro é tirar da espanhola Vivo o lugar de maior operadora de telefonia móvel do Brasil.

“Estamos na corrida para buscar a liderança do mercado nacional. O forte ganho de participação que obtivemos nos últimos anos demonstra a força de nossa trajetória”, afirma Paulo Cesar Teixeira, presidente da unidade de consumo e pequenas e médias empresas da Claro.

O 5G promete uma velocidade teó­rica de internet de até 10 Gigabits por segundo (Gbps), dez vezes maior do que a do 4G, e com menor latência (veloci­dade de resposta) na transmissão dos dados, o que permitirá o desenvolvimento de tecnologias promissoras, como a internet das coisas (IoT), a telemedicina, os veículos autônomos, a inteligência artificial e a indústria 4.0.

Em processo similar, a expansão da quarta geração de internet viabilizou uma vasta gama de serviços sem os quais, hoje, é difícil imaginar a vida: transporte individual por aplicativo (como Uber e 99), troca de mensagens instantâneas (WhatsApp), streaming (Netflix e Spotify) e entregas de todos os tipos (iFood e Rappi).

O 5G também terá um papel social importante: deverá servir como a última ponta da rede de internet rápida a alcançar re­giões que estão fora dos grandes centros. A fibra leva o sinal até as antenas, que, por sua vez, distribuem a conexão via aérea por um custo mais baixo. O banco de investimento americano Goldman Sachs declarou em um recente relatório a clientes que a implementação do 5G será mais barata do que a de fibra óptica: o custo cairia de 700 dólares para 606 dólares por residência.

Em larga escala, a nova tecnologia levaria a uma economia monumental de recursos, o que poderia reduzir o fosso digital que existe no mundo, evidenciado pela pandemia de ­covid-19. A falta de conectividade pune principalmente a população mais vulnerável, que tem pouco acesso imediato a informações sobre saúde, oportunidades de trabalho remoto, telemedicina e escola, no caso de centenas de milhões de crianças e adolescentes que precisam manter os estudos à distância.

De acordo com uma estimativa da Organização das Nações Unidas, 46% da população mundial ainda não está conectada. São quase 4 bilhões de pessoas sem acesso à internet. No Brasil, 134 milhões de pes­soas utilizam a internet, mas somente 15 em cada 100 domicílios têm acesso à banda larga fixa, de acordo com dados do Banco Mundial.

O leilão do 5G promete diminuir o atraso do Brasil, porém a operadora que conseguir se antecipar terá um grande trunfo. Ao se lançar primeiro no 5G, a Claro repete a estratégia da Vivo, a primeira a implantar o 3G no Brasil em meados de 2004.

“O 5G reforça a imagem da Claro de uma empresa inovadora, com tecnologia de ponta. É importante para ganhar mercado. A Vivo fez isso com o 3G e a TIM tentou a mesma estratégia com o 4G”, afirma Eduardo Tude, presidente da Teleco, consultoria especializada em telecomunicações.

A Claro já dava uma mostra de suas intenções em meados de 2017, quando inaugurou no mercado brasileiro o 4.5G, internet com a promessa de velocidade dez vezes maior do que a do 4G tradicional, porém utilizando a mesma faixa de frequência. Chamadas ilimitadas em território nacional e dentro do grupo em viagens ao exterior, sem custos, também passaram a fazer parte de seu pacote pós-pago.

Segundo a Claro, a ofensiva rendeu à empresa muitos frutos: dos cerca de 580.000 clientes que o segmento ganhou até maio de 2020, 500.000 assinaram com a Claro. Agora a operadora pretende ganhar ainda mais destaque ao ser a primeira a oferecer o 5G no país.

Embora não seja com a tecnologia 5G definitiva, que exige a abertura de novas frequências para se disseminar, porque as atuais estão quase lotadas, a companhia promete uma conexão até 12 vezes mais rápida do que a do 4G convencional com o compartilhamento de frequências que já estão disponíveis atualmente.

No entanto, a rede funcionará somente em aparelhos que suportam o 5G, como os celulares da linha Edge, da Motorola, lançados no Brasil em julho. A expectativa é que até o final de 2020 outros aparelhos cheguem ao mercado brasileiro e ampliem o alcance — apesar da previsão de preços altos dos modelos, acima de 5.000 reais.

“O novo processador Snapdragon viabilizará a chegada de celulares 5G de gama intermediária no final deste ano”, afirma Fiore Mangone, diretor de desenvolvimento de negócios da Qualcomm, líder do mercado de processadores e modem para celulares.

Em São Paulo, a nova cobertura de 5G será oferecida inicialmente em regiões de maior concentração de pessoas, como a Avenida Paulista e os Jardins, sendo ampliada gradativamente. O mesmo vai acontecer no Rio de Janeiro, iniciando pelos bairros de Ipanema, Leblon e Lagoa.

Depois do lançamento do serviço de “quase 5G” da Claro, as concorrentes Vivo e TIM também anunciaram planos para oferecer serviços similares, mostrando como a disputa pela liderança do segmento não tem sido fácil. A Claro concluiu no ano passado a aquisição da Nextel, ganhando um pouco mais de espectro de internet e também uma oportuni­dade de abrir vantagem sobre a TIM, atual terceira maior.

Mas a briga está embolada por causa da recuperação judicial da Oi, que conta com 36 milhões de clientes na telefonia móvel. O plano de reestruturação que foi apresentado aos credores da empresa inclui a venda de quatro ativos. O mais valioso é o de telefonia móvel, avaliado em aproximadamente 15 bilhões de reais.

Na tentativa de abocanhar um pedaço, Claro, Vivo e TIM fizeram entre si um acordo e apresentaram no dia 18 de julho uma proposta conjunta para adquirir o negócio. O que as empresas não esperavam era o lance de uma operadora até então desconhecida no Brasil, a Highline, controlada pelo fundo americano Digital Colony. Em 22 de julho, a companhia ganhou da Oi o direito de negociar exclusivamente o ativo depois de fazer uma oferta cujo valor não foi divulgado (veja quadro abaixo).

Fontes próximas às empresas não descartam um novo lance conjunto por parte de Vivo, Claro e TIM, mas até o fechamento desta edição da EXAME não havia notícia de uma nova proposta. Outra possibilidade é que a Highline esteja se cacifando para virar uma grande operadora no país disputando o leilão de 5G, o que atrapalharia os planos das outras três.

O caminho da prosperidade digital não é fácil. Estados e municípios precisam chegar a um consenso em relação à instalação e ao uso das novas antenas voltadas para o 5G, porque a regulação brasileira do segmento ainda é muito divergente entre os entes da federação.

O Brasil também pode ficar no meio de uma disputa geopolítica: a empresa chinesa Huawei, de produtos e infraestrutura de telecomunicações, é acusada pelo governo americano de espionagem, e sua participação no processo de implementação do 5G nos Estados Unidos e em parceiros comerciais, incluindo o Brasil, poderá ser vetada.

Marcelo ­Motta, diretor de cibersegurança e soluções da Huawei, refuta as suspeitas que recaem sobre a companhia. “Somos a empresa mais transparente em cibersegurança do mundo, temos centros que permitem a clientes e governos testarem nossas tecnologias. Nos 22 anos que estamos presentes no Brasil, as operadoras nunca apresentaram pro­blemas”, afirma o executivo.

O pano de fundo dessa disputa é um avanço tecnológico e econômico inédito na história das nações e uma oportuni­dade de ouro de o Brasil finalmente deixar de ser apenas um produtor de commodities para entrar no século 21.

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