Para enfrentar este cenário, companhias investem em programas de desenvolvimento, ações de diversidade e parcerias com instituições de ensino
Por Jacilio Saraiva — Valor – 28/08/2025
O setor de energia é um dos que mais enfrenta dificuldades para encontrar profissionais qualificados – 85% das empresas da área, no Brasil, relatam esse problema, um índice maior do que o da indústria de tecnologia da informação (84%), conhecida pela alta demanda de mão de obra. Os dados são de uma pesquisa realizada pela consultoria global de soluções em recursos humanos ManpowerGroup com 1.050 empregadores de oito segmentos.
De acordo com seis grandes empresas ouvidas pelo Valor, a falta de currículos é combatida com programas de desenvolvimento de carreira, ações de diversidade e cursos de qualificação realizados em parceria com instituições de ensino. “Uma das maiores preocupações das companhias é a rápida evolução tecnológica no segmento e a necessidade de atualizar as habilidades dos times”, diz Wilma Dal Col, diretora de RH do ManpowerGroup.
Na Engie, com mais de três mil funcionários no Brasil, havia no fim de julho, 20 vagas abertas em estados como Pará e Rio de Janeiro – 10% para cargos de liderança. “Sentimos a pressão por profissionais qualificados, especialmente em áreas técnicas e operacionais”, diz Sophie Quarré de Verneuil, diretora de pessoas e cultura da Engie Brasil e vice-presidente de recursos humanos para a América Latina. “A escassez é mais evidente quando buscamos perfis com formação em eletrotécnica, manutenção e operação, além de engenheiros especializados em energia renovável.”
Verneuil afirma que 42% das posições abertas são concentradas no nicho da engenharia, com foco em projetos e automação; antes de operação, produção de ativos renováveis e infraestrutura (21%), e funções em campo, como manutenção e segurança (21%). Também há oportunidades nos departamentos de tecnologia (11%), finanças e suprimentos (5%).
Segundo a executiva, a estratégia para enfrentar a carência de pessoal combina ações de capacitação e diversidade. Em 2024, foram investidos mais de R$ 8 milhões em treinamentos, com mais de 73 mil horas de aprendizagem, um aumento de 15% em relação ao ano anterior.
Uma das maiores preocupações das companhias é a necessidade de atualizar as habilidades dos times”
— Wilma Dal Col
“Criamos um programa de trainee para mulheres, a fim de aumentar a presença feminina nas áreas técnicas”, acrescenta. Em 2023, todas as 13 engenheiras da primeira edição da iniciativa foram contratadas. No ano passado, foram abertas 24 vagas na América Latina, sendo 12 no Brasil – 21 profissionais passaram na seleção.
Na CPFL Energia, com 16,9 mil funcionários, o objetivo é mitigar desafios regionais de insuficiência de mão de obra, especialmente em locais com menor oferta de cursos técnicos. “Investimos na formação de novos talentos e na requalificação de colaboradores”, garante Renato Povia, diretor de recursos humanos do grupo CPFL.
A empresa mantém uma escola de excelência operacional que já capacitou mais de 18 mil pessoas. “Somente a formação gratuita de eletricistas atende cerca de 700 alunos ao ano, com uma taxa de 75% de aproveitamento nas empresas do grupo”, detalha. Em 2024, a unidade passou a treinar pessoal para atividades em subestações e na geração de energia eólica. Em João Câmara (RN), foi montado um curso de auxiliar técnico de manutenção exclusivo para comunidades indígenas. “Foram 19 formandos para atuar em parques eólicos”, diz Povia.
Durante o mês de julho, a companhia ofereceu, em média, 300 vagas em São Paulo, no Rio Grande do Sul e na região Nordeste. Do total, 5% são para cadeiras de gestão. No ano passado, 94% das vagas de liderança foram preenchidas por profissionais que já atuavam no grupo, segundo Povia. A Universidade CPFL, plataforma de educação corporativa da marca, somou 518,1 mil horas de capacitação em 2024, com 18,2 mil alunos. “O resultado reforça a eficácia dos investimentos no desenvolvimento de pessoas, com foco na formação de futuros líderes.”
Na avaliação de Débora Rangel Celeti, associate partner da Fesa Group, de soluções de recursos humanos, as empresas precisam se preocupar também com o “turnover” das equipes. Um estudo da Fesa realizado em abril com 17 companhias do setor elétrico brasileiro aponta que o índice de rotatividade dos funcionários subiu de 13,6%, em 2022, para 16,6%, em 2024.

“É essencial que as operações deixem de depender exclusivamente da atração de profissionais [no mercado] e passem a investir na formação dos próprios talentos”, recomenda. “Organizações que estruturam programas de desenvolvimento profissional apresentam, em média, até 30% menos de turnover.”
A ideia é seguida pela Auren Energia, segundo Rômulo Vieira, diretor executivo de pessoas, sustentabilidade, tecnologia e comunicação. “Temos uma parceria com o Insper, responsável pela criação de programas de extensão, como o ‘Futuro da energia’, oferecido gratuitamente para os gestores”, destaca. “Desde 2024, cerca de 60 executivos foram capacitados.”
Na Enel, uma das metas é reforçar as equipes de trabalho externo. “Até 2026, serão feitas cinco mil contratações de profissionais treinados pela empresa, em parceria com o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial]”, revela Alain Rosolino, diretor de pessoas e organização da Enel Brasil. Este ano, até março, foram contratados 2,1 mil candidatos em São Paulo, Rio de Janeiro e Ceará, estados em que o conglomerado atua com distribuição de energia.
No Grupo Equatorial, com 12 mil funcionários, há cerca de 200 vagas disponíveis, sendo menos de 1% para cadeiras de comando – algumas das oportunidades para áreas técnicas, como no caso dos engenheiros, estão abertas há mais de 100 dias, dado que ilustra a escassez de capital humano no setor.
O plano é contratar 1,4 mil profissionais até o final do ano, para operação, expansão das ligações elétricas e suporte.
“Priorizamos a formação de sucessores nas posições de liderança, a fim de garantir a perenidade da cultura corporativa”, explica a diretora de gente e gestão do Grupo Equatorial, Fernanda Sacchi. “Muitos dos nossos superintendentes, diretores e gerentes entraram na empresa como estagiários ou trainees.”
De acordo com a executiva do Grupo Equatorial, a taxa de retenção de talentos nos programas de trainees chega a 95%.
Para Fábio Folchetti, diretor de pessoas e organização da Neoenergia, presente em 18 estados e no Distrito Federal, ações de diversidade podem acelerar a agenda de desenvolvimento de carreiras nas empresas. Em 2024, o grupo lançou um programa que estimula a evolução profissional, exclusivo para pessoas negras. No ano passado, formou 18 funcionários, sendo que quatro já assumiram novos cargos. “A iniciativa foi ampliada este ano e conta com 60 participantes”, afirma.
Na avaliação de Ricardo Simabuku, conselheiro da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), associação criada em 1999 que reúne companhias do setor, os empregadores precisam reconhecer que a formação de talentos é tão importante quanto a operação técnica dos empreendimentos. “As empresas devem tratar a qualificação de pessoas como uma dimensão estratégica”, destaca.
Em 26 anos, a CCEE capacitou mais de 30 mil profissionais. Em junho, lançou a CCEE Academy, com mais de 50 cursos, incluindo programas de pós-graduação desenhados em parceria com instituições como Insper, Fundação Dom Cabral e a Universidade de São Paulo (USP). “O MBA em gestão de risco e comercialização de energia, feito com a USP, é inédito no setor e avança para a segunda turma”, comemora.
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