Internet mais rápida e novos medicamentos: saiba os legados da missão Artemis II


Voo dos quatro astronautas deve servir de marco para nova era nas redes de telecomunicações e avanços na medicina

Por Bruno Romani – O Globo – 11/04/2026 

Programas espaciais costumam resultar não apenas em avanços para fora da Terra, mas também para dentro do planeta. Ainda que seja apenas uma peça inicial em programa de longo prazo, a missão Artemis II, encerrada ontem, também deve ter um “travesseiro Nasa” para chamar de seu. O voo que levou os quatro astronautas aonde humanos jamais estiveram deve servir de marco simbólico para uma nova era da internet — ou, ao menos, das redes de telecomunicações que a tornam possível.

Ao contrário de outras missões que geraram descobertas na agricultura, na biologia, na física, além de descobertas em astronomia e cosmologia, os principais frutos da Artemis para a Humanidade devem estar ligados aos avanços obtidos na nave Orion. Luís Eduardo Loures, professor de Engenharia Aeroespacial do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), explica:

— A Artemis II é uma missão tecnológica. Não é uma missão científica. Eles testaram várias coisas, e uma delas é a presença do ser humano na cápsula.

Transmissão via laser

Com mais de 3,8 mil fornecedores, a missão testou funções de propulsão e de fornecimento de energia, água e ar para a cápsula, validou o escudo térmico durante a reentrada na atmosfera terrestre e até propôs um novo sistema sanitário, que teve problemas de entupimento. No entanto, o maior legado da Artemis II para a Humanidade deve ser o sistema O2O (sigla para Orion Artemis II Optical Communications System), que utilizou laser em vez de radiofrequência para transmitir dados entre a espaçonave e a Terra.

Quando Neil Armstrong disse a célebre frase “Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a Humanidade”, as palavras viajaram por ondas de rádio até a Terra — todas as palavras e dados enviados do espaço desde o Projeto Mercury até a Estação Espacial Internacional seguiram a mesma rota. Embora técnicas de otimização das frequências tenham sido aplicadas ao longo de décadas, o método atingiu um teto, o que na era das imagens em 4k e dos inúmeros sensores representam uma limitação para a comunicação.

Assim, a Nasa e o MIT Lincoln Laboratory criaram um terminal que utiliza luz infravermelha para enviar informações. Por oferecer ondas muito menores e frequências mais altas, o sistema consegue atingir velocidades de até 260 Mbps — isso significa que a Orion podia enviar para Terra até 36 GB de dados por hora (ou quase dois filmes e meio de duas horas em 4k na Netflix). A comunicação via radiofrequência é capaz de enviar apenas 7 GB por dia (uma hora de filme 4k no streaming).

A Nasa afirmou que condições climáticas reduziram a velocidade média para 80 Mbps, mas, até 4 de abril, a Orion mandou mais de 100 GB de dados para três bases na Terra (Califórnia, Novo México e Austrália). É um volume que demoraria semanas para ser transmitido pelo método tradicional.

— O laser é a “fibra óptica sem fio”. Ela pode ser a base para a próxima geração de rede de internet via satélite ultrarrápidas — explica Marcilei Guazzelli, professora do departamento de Física da FEI.

Atualmente, satélites usam de maneira limitada comunicação a laser com a Terra. Tanto os equipamentos de baixa órbita, como os da Starlink, de Elon Musk, quanto os geoestacionários usam radiofrequência para enviar dados ao planeta. O uso de laser é dedicado apenas para a comunicação entre satélites, no próprio espaço. As belas imagens geradas com a missão mostram o que pode mudar com satélites munidos da nova tecnologia.

— Esse tipo de velocidade abre as portas para novos produtos que derivam de satélites. Estamos falando de uso e imagens para agricultura de precisão, meteorologia e monitoramento ambiental. Poderemos detectar vazamentos de óleo e pesca ilegal. Com o laser, a comunicação é feita sem perdas de pacote de dados. E com o tempo isso será barateado — diz Oswaldo Loureda, professor da Universidade Federal do Maranhão (UFMA).

Na Artemis II, o O2O foi usado exclusivamente para streaming de vídeo em 4k, dados científicos massivos e procedimentos técnicos complexos, enquanto a tecnologia a radiofrequência continuou responsável por partes críticas da missão, como comunicação de voz, dados de saúde e segurança e arquivos vitais para o voo.

Assim, o sistema a laser poderá compor as próximas gerações de redes de telecomunicação, como 6G e até 7G. Isso pode levar à sua implementação em hospitais, para evitar a interferência de radiofrequência em aparelhos médicos, e em carros autônomos, que poderão se comunicar entre si e com sinais de trânsito.

Outro benefício da comunicação a laser na Terra é que a tecnologia é mais difícil de ser interceptada e, portanto, é mais segura. Isso ocorre porque os feixes são altamente concentrados e estreitos. Assim, qualquer desvio de apenas uma fração de grau resulta na perda do sinal. Por outro lado, é a sua maior limitação: o feixe deve ser apontado com alta precisão diretamente para o receptor.

Descubra os equipamentos eletrônicos disponíveis na nave Orion

Órgão em um chip

Outra parte do legado da Artemis II para a Terra pode estar atrelado à medicina. Ao monitorar a saúde dos astronautas, que vivenciaram microgravidade, radiação intensa e alta velocidade, a missão pode ajudar na compreensão do envelhecimento, no desenvolvimento de terapias e medicamentos e até na regeneração de órgãos inteiros em laboratório.

— Essas condições fazem com que as células envelheçam mais rápido. Assim, é possível observar desde alterações no sistema nervoso central até alterações cardiovasculares, musculares e respiratórias. Todas essas coisas se revertem para a Terra — explica Luiz Vicente Rizzo, diretor de pesquisa do Einstein Hospital Israelita.

O principal experimento para a área é o Avatar (acrônimo para “A Virtual Astronaut Tissue Analog Response”), que utiliza a tecnologia de “órgão em um chip”. Nele, células da medula óssea dos quatro astronautas foram cultivadas em um dispositivo que lembra um pendrive.

Acelerar descobertas

Posteriormente, amostras que ficaram na Terra serão usadas para comparar os efeitos da radiação. A missão cresceu em importância, pois humanos não cruzavam o Cinturão de Van Allen desde 1972, na Apollo 17. A região, que se estende a até 58 mil quilômetros de distância, funciona como um escudo do planeta contra níveis agressivos de radiações ionizantes, radiações cósmicas de fundo e ventos solares. Os efeitos disso tudo ainda não são totalmente compreendidos.

O Avatar usa células da medula óssea, responsável pela produção de glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas, pois é um dos tecidos mais sensíveis à radiação. Além de entender o futuro das viagens espaciais, esses dados podem acelerar descobertas na Terra.

— Essas informações podem ajudar na farmacologia, diminuindo a necessidade de testes em animais de substâncias químicas. Outra possibilidade é para a medicina regenerativa, que busca “imprimir” órgãos em vez de depender apenas de transplantes. A radiação e a ausência de gravidade podem ajudar a encontrar maneiras de fazer isso mais rápido — explica Rizzo.

Assim, o Avatar pode ajudar a Nasa a desenvolver medicina personalizada para futuras missões a Marte, e isso também pode ter desdobramentos em solo terrestre, levando a avanços em tratamentos individualizados para doenças, como o câncer.

Para um soninho mais gostoso e prédios mais seguros

Travesseiro ‘Nasa’ — Foto: Arte/O GLOBO

Travesseiro ‘Nasa’

Nenhum travesseiro viajou para fora da Terra, mas a espuma que deu origem a eles foi projetada para os assentos dos foguetes. Desenvolvida em 1966, a Memory Foam (ou espuma viscoelástica) foi criada para gerar maior conforto e absorção de impacto. Vale lembrar que a espuma não participou das missões lunares do programa.

Traje de bombeiro — Foto: Arte/O GLOBOTraje de bombeiro — Foto: Arte/O GLOBO

Traje de bombeiros

Após a morte de três astronautas no incêndio da Apollo 1 em 1967, a Nasa desenvolveu tecidos, como o Beta cloth, resistentes a fogo. Eles foram criados para os trajes e veículos espaciais das missões seguintes. Hoje, essa tecnologia é usada em trajes de bombeiros, forças militares e pilotos de esporte motor.

Eletrônicos portáteis — Foto: Arte/O GLOBOEletrônicos portáteis — Foto: Arte/O GLOBO

Eletrônicos portáteis

Na década de 1960, os astronautas precisavam de ferramentas para coletar amostras de solo e rochas na Lua. A Black & Decker, pioneira em baterias, foi contratada para criar ferramentas sem fio. Foram criados dispositivos com bateria de níquel-cádmio, que abriram as portas para os eletrônicos atuais.

Proteção contra terremotos — Foto: Arte/ O GLOBOProteção contra terremotos — Foto: Arte/ O GLOBO

Proteção contra terremotos

O foguete Saturn V, que realizou as missões lunares da Apollo, gerava vibrações extremas na base de lançamento. Para preservar as estruturas, a Nasa criou um sistema com elastômeros e amortecedores hidráulicos. A tecnologia foi transferida para a engenharia civil, que passou a construir nos EUA e Japão prédios capazes de resistir a terremotos.

Computadores de aviões — Foto: Arte/O GLOBOComputadores de aviões — Foto: Arte/O GLOBO

Computadores de aviões

Desenvolvidos ao longo da década de 1960, entre 1961 e 1969, os computadores de bordo das naves das missões Apollo foram pioneiros em controle automático de voo, evoluindo eventualmente para sistemas usados em aviões comerciais, como o Airbus A320, e GPS moderno.

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