- Conceito valoriza vida local para que ninguém precise gastar muito tempo para acessar suas atividades cotidianas
- Novo prefeito Emmanuel Gregoire se elege com mesma plataforma de Anne Hidalgo de tirar carros da rua e privilegiar áreas verdes
Mauro Calliari – Folha – 3.abr.2026
Administrador de empresas pela FGV, doutor em urbanismo pela FAU-USP e autor do livro ‘Espaço Público e Urbanidade em São Paulo’
No dia 22 de março, Emmanuel Gregoire foi eleito prefeito de Paris, pegou a bicicleta número 90157 da Velib, o serviço gratuito de bikes, e foi celebrar pedalando pela noite parisiense. No dia seguinte, entusiastas criaram uma conta no X só para encontrar a tal bicicleta usada pelo prefeito eleito. Ela já havia sido usada por mais de 20 pessoas nas horas depois da posse e promete ser uma estrela das redes.
O gesto de usar uma bicicleta de aluguel e não uma limusine ou um carro blindado é, evidentemente, simbólico. A prefeita anterior, Anne Hidalgo, quando assumiu em 2014, prometeu transformar a cidade e adotou o mote da “cidade de 15 minutos”. Gregoire foi seu vice-prefeito e, apesar de ela ter apoiado outro candidato da esquerda, promete dar continuidade e ampliar as reformas que modificaram a paisagem da capital francesa.
A cidade de 15 minutos
O conceito da cidade de 15 minutos é valorizar a vida local e garantir que ninguém precise mais do que 15 minutos a pé ou em bicicleta para acessar suas atividades cotidianas: a escola, o posto de saúde, a boulangerie, o parque, o centro cultural, o trabalho e o lazer.
A ideia não é nova, ela tem raízes na Unidade de Vizinhança, uma ideia do começo do século 20, mas a prefeita Anne Hidalgo encontrou em Carlos Moreno*, um professor franco-colombiano, o entusiasmo para criar seu plano de governo, que ela definiu como um verdadeiro “choque de proximidade”.
Alguns urbanistas torcem o nariz para o apelo mercadológico do nome. Um deles, Alain Bertauld, diz que Paris já é uma cidade de 15 minutos e que a Prefeitura não tem ingerência sobre negócios privados. A ideia também pode gerar reações inflamadas —anos atrás, na Inglaterra, houve até uma patética marcha dos mal-informados de plantão contra a fake news de que as pessoas seriam proibidas de saírem de seus bairros se a cidade de 15 minutos fosse adotada.
O fato é que a ideia se expandiu, surgiu até um sub-slogan para a “metrópole de 30 minutos” e a Prefeitura de Paris mostrou que a qualidade de vida pode, sim, melhorar quando se mexe bem no espaço público.
O que mudou
Quem andou por Paris nos últimos tempos certamente percebeu nas ruas o efeito das mudanças.
Ruas tomadas pelos carros, como a importante Rue de Rivoli ou a Rue de Vaugirard, abriram espaço para ciclovias, calçadas maiores e prioridade para o transporte público. Hoje, as bicicletas já ultrapassaram os carros em número de viagens na região central. SUVs pagam taxa extra para circular no centro.
Calçadas cinzas estão sendo refeitas com mais árvores e áreas verdes. Mais de 60 mil vagas de carro devem dar lugar a jardins de chuva. O Sena está mais limpo, a via Georges Pompidou cede espaço a uma enorme área de lazer e a praia parisiense é um sucesso.
As maiores mudanças aconteceram ao redor das escolas infantis. Ruas tiveram velocidade reduzida ou até foram fechadas para estimular os alunos a ir e voltar a pé.
A poluição sonora caiu. Com menos carros e mais árvores, há 50% menos dióxido de nitrogênio no ar. Estima-se 30% a menos nas mortes causadas por poluição atmosférica.
As mudanças nunca vêm sem oposição. Menos espaço para carros sempre gera reações de motoristas e moradores, mas a estrutura de transporte público de Paris dá conta da maior parte dos deslocamentos. Com uma divisão de votos entre distritos mais ricos e mais pobres, não há vida fácil para nenhum gestor público, mas o projeto passou no crivo eleitoral, com a eleição de um prefeito comprometido com as mudanças.
É melhor não pensar na cidade de 15 minutos como um mantra, mas como um bom conceito, que pode ser adaptado por gestores em todo o mundo. No Brasil, poderíamos pensar num “choque de urbanidade”, transformando bairros e principalmente periferias com mais verde, mais calçadas, estimulando o comércio local e aumentando o acesso aos serviços públicos e ao transporte público.
*Para quem tiver interesse, sugiro o livro de Carlos Moreno “A cidade de 15 minutos”, lançado no Brasil no ano passado pela Editora Bei.
Com ‘cidade de 15 minutos’, Paris virou laboratório urbano – 03/04/2026 – Mauro Calliari – Folha
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Site simnotícias, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV(em renegociação), sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B
Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes e SLM veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas
Se tiver interesse em gêmeos digitais para a indústria procure a Neo Vision – Captura Digital da Realidade