Inovação patina no Brasil com juro alto e baixo crescimento


O governo tem de indicar sua estratégia de desenvolvimento, algo diferente de tornar disponíveis os recursos e ignorar a eficácia seu destino

Por Editorial Valor – 30/03/2026 

O Brasil continua patinando em inovação e pesquisa e desenvolvimento (P&D), como revela a mais recente Pesquisa de Inovação Semestral (Pintec), do IBGE. Em 2024, a taxa de inovação das empresas industriais com 100 ou mais pessoas ocupadas no Brasil foi de 64,4%, terceira queda consecutiva e a menor taxa desde 2021, quando estava em 70,5%. Essa queda coincide com um período de forte elevação da taxa Selic, que saiu de 2% em dezembro de 2020 no auge da pandemia de covid-19, para 7,75% no fim de 2021 e 13,75% no fim de 2022, o que desestimulou o investimento das empresas.

A perspectiva para este ano não é das melhores diante da instabilidade global provocada pela guerra dos EUA e Israel contra o Irã. Apesar do peso do fator externo, o fraco desempenho do país em inovação é resultado principalmente de problemas crônicos domésticos que desestimulam as empresas a investirem na criação de produtos e processos originais. Entre os entraves há ineficiência na elaboração de políticas públicas que fomentem o ambiente de inovação no país, resultando em um mercado com pouca exposição à concorrência externa, excesso de burocracia para as empresas acessarem instrumentos públicos de apoio e para registro de patentes, oferta limitada de profissionais de ciências e engenharia e, principalmente, instabilidade econômica.

A pesquisa do IBGE, que investiga a dimensão e o perfil dos recursos voltados para a inovação no Brasil, corrobora os dados de outra pesquisa, o Índice Global de Inovação (IGI), da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), de setembro de 2025. Em ambas, o país aparece praticamente estagnado há um bom tempo nas posições intermediárias do ranking, com pequenas alterações entre um ano e outro. 

Em um momento que a incorporação da inteligência artificial em todas as áreas promete gerar transformações profundas na atividade econômica, com ganhos significativos na produtividade e rentabilidade das empresas, o Brasil arrisca perder novamente o bonde do desenvolvimento. O investimento em P&D é essencial para que uma empresa incorpore uma nova tecnologia em seu sistema produtivo ou para renovar seus produtos – tanto pela inovação pioneira quanto pela imitação seguidora.

Um dos fatores que desestimula a inovação e P&D no Brasil é o excesso de proteção do mercado interno. Enquanto as empresas não sentirem necessidade de inovar, por pressão competitiva, pouco será mudado. Também é preciso sair do viés de oferta que caracterizou as iniciativas das políticas públicas das últimas décadas, como isenção de impostos e crédito subsidiado. A inovação precisa ser um imperativo para a estratégia de uma empresa. Mas ela precisa ver potencial de lucratividade no mercado para se arriscar e, para isso, é preciso haver crescimento econômico sustentável.

Com uma das taxas de juro reais mais altas do mundo, de mais de 9%, inferior apenas à da Turquia, e que tende a permanecer elevada diante da deterioração do cenário externo, já se antecipa que o Brasil crescerá menos que os 2,3% de 2025. Por serem mais ativas na busca de novos mercados e mais expostas à competição externa, as grandes empresas são as que mais realizam investimentos em P&D no Brasil. Em 2024, as companhias com 500 ou mais pessoas ocupadas concentraram 87,4% das aplicações nessa área, com aumento de 84,6% em relação a 2023, segundo a Pintec. Logo, elas registraram a maior taxa de inovação, chegando a 75,4% no grupo.

Vale lembrar que P&D não é sinônimo de inovação, mas uma atividade desenvolvida pelas empresas para chegarem a aprimoramento de produtos e/ou de processos de negócio, e que nem sempre vai levar à um novo produto ou processo. Porém, o retorno da inovação compensa o risco do investimento. Pesquisa inédita da Confederação Nacional da Indústria (25 de março), mostra que entre as empresas que realizaram atividade de inovação nos últimos três anos, 38% relatavam que obtiveram aumento na produtividade como principal resultado, seguido por acesso a novos mercados (21%) e redução de custos (19%).

No IGI, o Brasil caiu de uma modesta 47ª posição em 2011 para o 52º lugar em 2025, e ainda perdeu a liderança regional para o Chile – uma economia muito menor que a brasileira e com uma base industrial mais estreita. Segundo os dados do IGI, o gasto com educação no Chile e no Brasil são equivalentes, de 5% e 5,5% do PIB, respectivamente, em 2021. Porém, enquanto no Chile 21,38% do total de graduados em 2022 eram das áreas de ciências e engenharia, no Brasil esse percentual foi de 16,27%.

Com oferta maior de capital humano de qualidade, em 2024, o emprego intensivo em conhecimento – que pagam salários melhores – correspondia a 33,9% da força de trabalho no Chile, ante 25,13% no Brasil. Há algo errado quando o governo gasta R$ 310 bilhões em  renúncias fiscais e subvenções em duas décadas e não sai do lugar em produtividade, apontam Victor Prodonoff Jr e Hugo Resende (Valor, 18/3). A alta direção das empresas têm de dar prioridade, comandar e guiar o processo. O governo tem de indicar sua estratégia de desenvolvimento, algo diferente de tornar disponíveis os recursos e ignorar a eficácia do seu destino.

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