Do agro para tecnologia digital e terras raras


Evandro Milet – Sim Notícias – 8/2/2026

A agricultura contemporânea deixou de ser apenas fornecedora de alimentos para se tornar uma plataforma tecnológica capaz de gerar insumos estratégicos para a indústria digital, a mineração e a transição energética. Pesquisas em biotecnologia, química verde e ciência dos materiais mostram que plantas, resíduos agrícolas e subprodutos do agro podem ser transformados em componentes essenciais para eletrônicos avançados, mineração de terras raras e novos processos industriais de baixo impacto ambiental.

Um exemplo simbólico dessa convergência está nos materiais usados em telas dobráveis e dispositivos flexíveis. Polímeros e filmes especiais utilizados nesses produtos podem ser produzidos a partir de carbonatos e biopolímeros derivados do milho. No Brasil, universidades como Unicamp e USP, em parceria com centros de pesquisa em materiais, desenvolvem biopolímeros avançados a partir de amido e açúcares vegetais, com foco em aplicações que exigem leveza, resistência mecânica e flexibilidade, características fundamentais para eletrônicos portáteis, sensores e componentes digitais.

Outro campo em rápida expansão é o uso de compostos agrícolas na mineração de terras raras, elementos indispensáveis para baterias, motores elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e dispositivos de comunicação. Pesquisas brasileiras vêm explorando o potencial de biomateriais extraídos do arroz, especialmente da casca, que podem atuar como agentes no processamento de terras raras, substituindo reagentes químicos agressivos por alternativas renováveis e menos poluentes.

Nesse contexto, grupos de pesquisa ligados à Embrapa, à UFMG, à UFSCAR e à USP investigam o uso de biomassa agrícola, biocarvão e fibras vegetais como insumos para processos industriais avançados. Parte dessas pesquisas busca justamente integrar o conhecimento do agro à cadeia mineral e tecnológica, criando soluções que atendam à demanda crescente por minerais estratégicos com menor impacto ambiental.

Resíduos agrícolas como palha, bagaço, cascas e fibras podem servir de matéria-prima para sensores inteligentes, circuitos biodegradáveis e componentes eletrônicos de curta vida útil, aplicados em internet das coisas (IoT), rastreabilidade logística e monitoramento ambiental. Fibras naturais, lignina e celulose avançada, estudadas em centros brasileiros de pesquisa florestal e agrícola, podem substituir plásticos e metais em determinados componentes digitais, reduzindo custos e emissões.

O Brasil reúne condições singulares para liderar essa integração: grande produção agrícola, diversidade de biomassa, conhecimento científico acumulado e presença relevante de reservas minerais estratégicas. Quando pesquisas do agro são direcionadas para aplicações industriais digitais e minerais, cria-se uma ponte entre o campo, a indústria de alta tecnologia e a nova economia verde.

Um novo fundo, operado pela SP Ventures e Zera e articulado por Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, com recursos iniciais da CNA e gestão técnica da Embrapa, pretende apoiar pesquisas de ponta no agronegócio nas universidades, inclusive na direção dos exemplos citados. 

Assim, a agricultura passa a desempenhar um papel central não apenas na segurança alimentar, mas também no fornecimento de insumos críticos para chips, baterias, mineração limpa e produtos digitais avançados, reposicionando o agro como um dos pilares da inovação tecnológica do século XXI no Brasil.

Do agro para tecnologia digital e terras raras  – Sim Notícias

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