BHP, Vale e Rio Tinto aceleram projetos tecnológicos, integrando IA e big data para otimizar processos e reduzir custos; China é o país com maior avanço, enquanto no Brasil processo ainda é embrionário
Por Ivo Ribeiro – Estadão – 22/02/2026
Uma das atividades mais antigas do mundo, a mineração evolui de uma prática rudimentar de extração de minerais da crosta terrestre para o que há de mais moderno em tecnologia nos dias atuais. A mineração 4.0 já é uma realidade no setor — drones, satélites, inteligência artificial (IA), gestão de dados em tempo real (big data) e internet das coisas (IoT) estão no cotidiano das operações de minas, de forma integrada.
Esse cipoal de tecnologias de última geração abrange toda a cadeia de valor da mineração — do mapeamento das reservas minerais à sua extração, das operações de beneficiamento do minério extraído, logística de transporte ferroviário e marítimo até o controle da demanda no mercado consumidor.
O homem, nos primórdios, fazia a mineração estritamente manual, similar ao garimpo que conhecemos, como o de ouro em Serra Pelada, nos anos de 1980, no Pará. Essa mineração, que pode ser chamada de 1.0, consistia em extrair alguns tipos de minérios da superfície do solo para transformá-los em metais para fabricação de ferramentas ou em materiais de construção de moradias.
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Os métodos avançaram ao longo de milhares de anos e ganharam impulso a partir da revolução industrial, no século 18. A extração nos moldes do garimpo ainda persiste em vários lugares do mundo, embora focada no metal precioso ouro. A mineração organizada ganhou espaço ao incorporar equipamentos e máquinas, como caminhões, tratores, moinhos, perfuratrizes e outras ferramentas.
O maior salto tecnológico veio com a introdução de operações automatizadas, centrais, por meio de um computador industrial usado para controlar e monitorar processos e máquinas. Esse estágio, a 3.0, cresceu no século 20 com o avanço da automatização. A maior parte do que ainda se produz de minérios no mundo se dá em mineradoras que trabalham nesse sistema.
A 4.0 chega como a grande revolução industrial na mineração. Globalmente, na China é onde se observa o maior avanço, com minas de carvão já sendo 100% operadas digitalmente. Gigantes do setor como BHP, Vale, Rio Tinto e outras estão acelerando projetos nessa nova fronteira, com investimentos na integração das tecnologias de última geração em suas operações.
A mineração 4.0 forma um ecossistema, o ICT, que reúne Informações, Comunicação e Tecnologia, ao integrar operações autônomas, drones, gestão de dados em tempo real, internet, satélites, comunicação (5G) e IA. “É uma revolução que está acontecendo e quem não se adaptar vai ficar para trás”, diz José Carlos Martins, executivo da indústria de mineração e estudioso do tema, que fez várias viagens à China para ver in loco a aplicação das tecnologias.
Esse modelo promete ganhos com redução de custos, maior eficiência operacional, consumo menor de energia, ambientes de trabalho mais seguros, controle mais aprimorado nas ações de impacto ambiental e maior previsibilidade com o uso da IA. A avaliação é que uma mina mais segura e produtiva assegura vantagem competitiva à mineradora que adota essas inovações. Mas tem um custo adicional para as empresas.
Com longa vivência no setor, Martins foi diretor de metais ferrosos da Vale por uma década, é consultor de empresas e conselheiro da Cedro Participações, grupo que controla uma mineradora de ferro. Na empresa, o executivo conduz o projeto de construção da nova mina da Cedro, em Mariana (MG). “No Brasil, a 4.0 ainda é embrionária, com algumas iniciativas”, afirma.
“Nosso plano na Cedro é que essa nova mina seja montada no padrão 4.0, com o que há de mais moderno tecnologicamente”, afirma. “Vai ficar mais caro que uma planta industrial comum. O acionista terá de acreditar no retorno futuro do investimento.”
“As tecnologias digitais transformam a mina em organismo inteligente e conectado”, afirma Carlos Eduardo Boechat, diretor de Tecnologia e Engenharia da Vale. “Há uma lista grande de ganhos que mineradoras como a Vale estão buscando ao aplicar os princípios da 4ª revolução industrial no setor”, diz.
Em artigo publicado em seu site, a mineradora anglo-australiana BHP, maior do mundo em valor de mercado, diz que a 4.0 ganha cada vez mais presença nos negócios da companhia, terceira maior produtora global de minério de ferro e uma gigante no setor de cobre, com produção próxima de 2 milhões de toneladas por ano, principalmente no Chile.
“Uma nova era de inovação digital está surgindo com o uso de ferramentas de IA na indústria de mineração para sintetizar grandes quantidades de dados complexos, o que será fundamental para a sobrevivência do setor”, afirma a companhia, que tem sede global em Melbourne, Austrália.
Mina virtual paralela
A mineração, destaca Martins, deixou de ser apenas uma indústria extrativa, como ainda é vista por grande parte da sociedade. “Ela retira minério pobre do subsolo, que não vale nada, beneficia e agrega valor. O preço da tonelada de minério de ferro, por exemplo, sai do zero para cerca de US$ 110″. Ele ressalta que cada vez mais é um processo industrial integrado com as últimas tecnologias, inclusive a IA.
Um ponto crucial para obter êxito com essa revolução, diz o executivo, é a capacidade de absorver essas tecnologias. “Tem de qualificar pessoas e criar centros técnicos.” Outra barreira, afirma, é cultural. “As pessoas estão acostumadas com fórmulas que sempre fizeram. Na 4.0 tudo é integrado ao sistema: até o celular dos funcionários.”
A 4.0 permite criar paralelamente uma mina virtual (gêmeos digitais) para testar e avaliar projetos antes da decisão final de investimento, minimizando riscos. A empresa faz todas as simulações, alimentando o sistema com dados e informações: plano de lavra da jazida, tipo de minério, volume de reservas, produção que deseja, custos, preço do minério no mercado e equipamentos. “Com a mina virtual, a empresa otimiza o seu investimento”, afirma Martins.
Patrícia Seoane, sócia e líder de mineração e siderurgia da consultoria PwC no Brasil, aponta muitas vantagens da operação integrada com tecnologias digitais: operação à distância, segurança às pessoas, redução de impactos na geração de carbono, maior precisão ao mapear reservas minerais, mapeamento de barragens e clima, análises preditivas para evitar acidentes, entre outras. “A 4.0 tornou-se um item chave para o futuro das mineradoras. A Vale, por exemplo, tem um ‘hub’ de inovação nas operações de Carajás.”
Para a BHP, a revolução tecnológica é essencial para atender à crescente demanda por commodities essenciais para a transição energética global. A mineradora destaca que, para um setor rico em dados, a IA tem o potencial de otimizar processos e melhorar o desempenho em toda a cadeia de valor da mineração — da extração mineral à entrega ao cliente.
A companhia de Melbourne informa que o uso de inteligência artificial a ajudou a desbloquear o valor potencial por meio de inovações como manutenção preditiva, otimização de energia, operação autônoma de veículos e máquinas, com decisões baseadas em dados e monitoramento e relatórios em tempo real. Por exemplo, permitiu a descoberta de novos depósitos de cobre na Austrália e nos EUA, escaneando e mapeando, com uso múons (tipo de radiação cósmica), depósitos minerais subterrâneos com mais rapidez e precisão do que antes.
A empresa cita outras iniciativas. Por exemplo, com a parceira Ivanhoe Electric, análise de dados para detectar com precisão minerais sulfetados contendo cobre, níquel, ouro e prata a mais de 1,5 mil metros de profundidade.
Mina de cobre Escondida, da BHP, que fica no deserto de Atacama, no Chile Foto: BHP/Divulgação
“A tecnologia de inteligência artificial nas plantas de processamento da nossa mina de cobre Escondida, no Chile, ajudou a economizar mais de três gigalitros de água, além de 118 gigawatts-hora de energia, desde o ano fiscal de 2022”, afirma Mike Henry, CEO da BHP, no artigo.
Na operação de minério de ferro na região de Pilbara, Austrália Ocidental, a companhia opera um sistema complexo de várias minas e centros de produção, tudo conectado por correias transportadoras, carregadores e trens, ferrovias e porto. “Todos esses pontos de contato são controlados por meio de um centro de operações remoto”, diz a BHP.
Também em Pilbara, oito carregadores de navios automatizados nas instalações de exportação em Port Hedland são operados remotamente a partir do Centro Integrado de Operações Remotas, em Perth, a mais de 1.800 km de distância. Os equipamentos são responsáveis por carregar 1,5 mil navios graneleiros de minério por ano, despachando 280 milhões de toneladas de minério de ferro (dados de 2021).
Na mina chilena Escondida, a BHP integrou tecnologia de sensores inteligentes em capacetes de segurança para medir a fadiga dos motoristas de caminhão por meio da análise de ondas cerebrais, visando prevenir acidentes relacionados à sonolência do motorista. “Aqueles que utilizam a tecnologia de IA para exploração e extração já estão na liderança”, diz a companhia.
Ganhos na ferrovia
A Rio Tinto, mineradora que disputa cabeça a cabeça com a Vale a liderança na produção mundial de minério de ferro, obteve com a ajuda da IA a liberação de 3 milhões de toneladas métricas de capacidade ferroviária adicional em suas enormes operações na Austrália Ocidental, de acordo com notícia divulgada pela publicação especializada Platts.
A informação é de Chris Crawford-Gray, gerente de ferrovias, infraestrutura e funções digitais da empresa, durante a conferência Digitalização e IA na Mineração, em Perth, Austrália. A mineradora diversificada produziu 298,1 milhões de toneladas de minério de ferro em 2024, ou 12% da produção global para o ano, de acordo com dados da S&P Global Market Intelligence.
A estimativa de Crawford-Gray se soma a uma lista crescente de ganhos que as mineradoras têm buscado à medida que adotam cada vez mais IA para reforçar a segurança, aumentar a eficiência e impulsionar os lucros, destaca a Platts no artigo.
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