- Indústrias de eólicas e solares reafirmam potencial, mas reconhecem preocupação
- Avaliação é que falta política industrial para o setor
Alex Sabino – Folha – 14.fev.2026
São Paulo
O Brasil ser “o país do futuro” virou tão chavão que se tornou motivo de piada. A principal preocupação de empresas e entidades é que a exaltação do potencial de energia renovável não vire também chacota.
“Não vamos perder este bonde. E é um bonde fantástico, talvez o melhor da nossa história. Mas a gente precisa ser muito, muito cuidadoso para não perdê-lo. Porque o Brasil tem dificuldade para fazer política de longo prazo. As políticas se resumem a um mandato de quatro anos de um presidente da República. Esse é o meu nervosismo”, afirma Elbia Gannoum, presidente executiva da ABEEólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).
De acordo com dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), o potencial eólico brasileiro pode chegar a 500 GW (gigawatts) de potência. Em 2024, o país foi o quinto no ranking mundial em capacidade instalada, com 33,7 GW. Os primeiros programas de incentivos para investimento nesta matriz de energia surgiram a partir de 2009.
Fenômeno semelhante acontece com a energia solar. Em 2012, representava 0,01% da geração nacional. Hoje é 22,5%. No início de 2025, 13,13% do fornecimento de energia foi fotovoltaica.
O potencial energético solar do Brasil é de 18.500 GW, o equivalente a 74 vezes a sua demanda energética anual.
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Integrantes desse mercado enxergam problemas estruturais, de regulamentação, de planejamento e veem países com teoricamente menos condições climáticas do que o Brasil crescerem de forma mais rápida.
O investimento em energias renováveis, se não substituiu as fontes tradicionais, trouxe diversidade para a matriz brasileira. A maior geração em 2024 ainda foi hidrelétrica (55,3%), seguida da eólica (14,1%), solar (9,3%), biomassa e biogás (8,1%), gás natural (6,3%), petróleo (2,1%), nuclear (2,1%), carvão mineral (1,5%) e importações (1,5%).
Na solar, os clientes comuns são o maior motivo de preocupação. Dos 3.398.687 sistemas gerados no país até o final de 2024, 79,7% eram em residências, segundo números da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica). A entidade diz que distribuidoras têm negado conexão de novos consumidores à rede elétrica, alegando dificuldade de integrar essa energia.
“As empresas não conseguem encontrar um caminho para resolver isso. Não por acaso, muitas companhias de energia solar acabaram fechando as portas porque não conseguiram vender sua tecnologia para a sociedade, para o consumidor. Há gargalos. Temos mais geração disponível do que transmissão já em operação”, diz Rodrigo Sauaia, presidente executivo da Absolar.
A avaliação é que falta política industrial para o setor. O Brasil produz equipamentos, como rastreadores solares, que acompanham o sol no horizonte. Mas a maioria dos painéis (módulos fotovoltaicos) são importados.
O país também está atrasado em outro dispositivo que a China, considerada o exemplo a ser seguido, domina: baterias, consideradas fundamentais porque podem armazenar a energia para usar quando for necessário.
“No Brasil, a gente não tem sequer as regras sobre como se pode usar essas baterias”, completa Sauaia.
Há também a carga tributária. Os equipamentos encaram uma tarifa de 80%, praticamente a mesma quantidade de impostos que incidem sobre um maço de cigarros (83%) e mais do que em uma garrafa de cerveja (cerca de 60%).
O pedido do setor é que o foco governamental seja semelhante ao chinês, que adicionou 329 GW de potência em energia solar apenas em 2024. Toda a matriz elétrica brasileira tem 248 GW.
Outro exemplo é a Austrália, que sequer está entre os dez países com maior potência adicionada no ano retrasado. Mas, mesmo com território considerado inóspito, lidera o ranking mundial de energia solar per capita, com 1,19 kW (quilowatt) por pessoa.
A indústria de eólicas também pede planejamento estatal de longo prazo, algo que vá além do mandato de um presidente.
A Alemanha, por exemplo, alega ter um plano claro para chegar à matriz 100% limpa e renovável até 2035. O Brasil, não. Por enquanto, cerca de 50% da energia gerada no país europeu é renovável, enquanto a matriz brasileira está em 93%.
De acordo com dados do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), para cada R$ 1 que o Brasil oferece de incentivo fiscal para fontes renováveis, outros R$ 5 vão para fontes fósseis.
A avaliação do setor é que o momento é de crise. Pelos números da ABEEólica, não houve novos contratos PPA (de compra e venda de energia) e não existe projeção de crescimento de novos parques eólicos. Isso porque não há procura.
“Se não há demanda por energia no país, não há por energia eólica, e o mesmo acontece na fábrica. Muitas saem do Brasil, fechando suas portas e demitindo”, diz Elbia Gannoum.
O problema não foi apenas brasileiro. Relatório do Global Windy Energy Council diz que o crescimento das eólicas não tem acontecido de forma tão rápida quanto a necessária. O mercado tem sofrido com taxa de juros, inflação, distribuição, inércia regulatória e incerteza política global. Das instalações existentes, 86% estão na China, Europa ou Estados Unidos.
No final de 2024, a capacidade instalada no Brasil chegou a 33,7 GW, com 1.103 parques eólicos e 11.720 turbinas. A projeção é que o país tenha, em 2032, capacidade de 56 GW.
A incerteza econômica e a questão da demanda pela energia fez a participação nacional no mercado mundial cair. A nova capacidade comissionada foi 30% menor do que em 2023, o que fez o tamanho de todo o mercado da América Latina ser reduzido em 1%. Regiões que eram consideradas menos relevantes, como África e Oriente Médio, dobraram sua capacidade entre 2023 e 2024.
Entre as nações que mais instalaram apenas em 2024, o Brasil foi o quinto, atrás de China, EUA, Alemanha e Índia. Antes disso, era o terceiro.
O Oriente Médio multiplicou por dez o seu crescimento em relação ao período anterior, aumentando em 107% graças ao Egito (que instalou 794 MW) e a Arábia Saudita (390 MW).
Os sauditas têm no crescimento da indústria eólica componente principal da estratégia da família real para diversificar as fontes de energia. Planificação central promoveu o aumento da indústria em nações que antes estavam fora do radar, como as Filipinas.
O Global Windy Energy Council considera que este país está se transformando “rapidamente em destino preferencial para investimentos em energia renovável”. Foi o segundo maior mercado do Pacífico em 2024. Em 2021, era o 30º. O governo promoveu liberalização de investimentos estrangeiros, regulou o setor e minimizou a burocracia.
Para tentar dar novo impulso ao setor no Brasil, em janeiro de 2025 foi sancionado pelo presidente Lula (PT) o marco legal da energia eólica offshore. A lei regulamenta o uso de áreas marinhas federais para a geração de energia. A estimativa é que 1.200 GW possam ser gerados por turbinas em alto mar.
Em 2024, foi estabelecido o marco legal para o hidrogênio de baixo carbono, o que indica diretrizes para a produção do chamado hidrogênio verde. A pedido da indústria, o Conselho Monetário Nacional introduziu novos acessos a financiamento dentro do FNMC (Fundo Nacional sobre Mudança do Clima), com juros de 6% para projetos de energia.
Estrutura, regulação e planejamento travam energias limpas – 14/02/2026 – Economia – Folha
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