Banimos essas plantas e bichos trazidos de fora?


Será uma grande revolução de ânimo nacionalista. Brasileiros vão comer comida legitimamente brasileira

Por Claudio de Moura Castro – Estadão – 01/02/2026

Boas notícias! Foi proposta, despertando interesse nacional, uma legislação no Rio Grande do Sul, que visa a banir espécies de plantas e animais cuja origem não é o Brasil. Na mira estão o eucalipto (da Austrália) e a tilápia (da África). O Pinus elliottii (do sul dos Estados Unidos) é outro candidato. Afinal de contas, dada a estonteante variedade dos nossos biomas, que razões haveria para trazer espécies de fora?

Mas, obviamente, isso é apenas o início. Por que não aceitar apenas as espécies autóctones, barrando as irresponsavelmente importadas?

Vejamos a pequena faxina que devemos empreender. O trigo, a aveia e a cevada vêm do Crescente Fértil. O café vem do Norte da África. A cana-de-açúcar foi trazida da Oceania. O milho e o feijão vêm do México, apesar de terem chegado antes do descobrimento. Sejamos puristas, não são espécies autóctones. O arroz vem do leste da Ásia. A soja, da China. A batata veio lá dos Andes, bem como o tomate. A cenoura é do Afeganistão. O pimentão e a abobrinha originam-se na América Central. A cebola vem da Ásia central. A berinjela e a pimenta do reino são originárias da Índia. Cumpre erradicar tudo isso, pois não são plantas brasileiras.

É vergonhosa a longa lista de frutas trazidas de fora. A manga veio da Índia. Comemos variedades locais de abacaxi. Mas predominam as geneticamente modificadas fora do País. A laranja veio do mundo árabe. A tangerina, da China. A banana vem do Sudeste Asiático. Os melões e melancias vêm da África tropical. A uva vem lá do Cáucaso. A goiaba se equilibra na fronteira do aceitável. Sua origem é nas Américas, acima do Equador, embora tenha migrado para cá, bem antes do descobrimento.

E os bichos, com tantos por aqui! Livremo-nos dos “estrangeiros”: cavalos, burros, bois, ovelhas, galinhas e cabras foram trazidos da Europa, apesar de sua origem mais dispersa. Quem sabe, as antas podem ser boa montaria?

Com nosso enorme plantel de árvores, por que aceitar outras de fora? O coco da Bahia (Cocos nucifera), apesar do nome, vem da Polinésia. A palmeira imperial, das Guianas. Banimos ambos! E o absurdo de plantar teca, originária da Ásia. O algodão, um reles arbusto, é nativo do México e de outras partes do mundo. Não passa na prova de brasilidade.

Feita essa limpeza patriótica, vão sobrar as nossas espécies, legitimamente, verde e amarelas. Temos a mandioca e a batata-doce para os carboidratos. Temos o açaí, o cacau e o caju, orgulhos nacionais. E temos a gloriosa jabuticaba. O pequi é nosso, apesar que ficará desfalcado do arroz, combinação estimada no nosso Centro-Oeste.

Será uma grande revolução de ânimo nacionalista. Brasileiros vão comer comida legitimamente brasileira.

Para que café, se temos mate e guaraná? O McDonald’s teria dificuldades, sem batatas, carne de boi e trigo. Mas é empresa estrangeira, pouco importaria o seu desaparecimento.

A laranjada matinal poderia encontrar substitutos mais nutritivos. É preciso valorizar os nossos produtos nativos.

Leite, queijo e iogurte trariam um pequeno problema. Leite de onça, de macaca? Há que dar um jeito. Quem sabe, queijo de capivara? Poderia vir a ser uma esplêndida iguaria. Um probleminha menor seriam as zoonoses, por elas transmitidas. Mas vale o risco.

Para a carne, poderíamos criar jacarés. Sua cauda é uma especialidade culinária. Havemos de descobrir maneiras de alimentar os bichos, em vez de sermos comidos por eles. O jacu substituiria as galinhas. O porco seria substituído pelo caititu, apesar de sua ferocidade e carne duríssima. Nossos indígenas comiam macacos, com muito gosto. Vamos pensar em grandes criatórios, produzindo milhões de símios, destinados às panelas.

Cães e gatos são simpáticos, mas foram também trazidos pelos europeus. Precisam ser substituídos. Há quem tenha quatis e iguanas como pets. Nossas raposinhas são muito ariscas, mas talvez possam ser domesticadas, após algumas dezenas de cruzamentos seletivos. Macacos têm temperamento diabólico. Tampouco sou otimista quanto aos gambás ou porcos-espinhos.

Os nossos indígenas trançavam fibras para suas roupas. Talvez alguma se preste à industrialização, substituindo a lã e o algodão, inaceitáveis pela sua origem estrangeira.

Ao fim desta campanha, orgulhosamente, chegaríamos à completa erradicação das espécies importadas. Teríamos uma alimentação brasileira e uma indústria abastecida com fibras locais.

Na prática, passaríamos a ter uma dieta de mandioca e batata-doce, adicionando alguns condimentos locais. Nossos chefs de cuisine preparariam maravilhosos pratos com essas duas matérias-primas. Quem disse que precisamos de outras?

Talvez, o MasterChef possa converter-se num laboratório, para gerar uma variada gastronomia, baseada nesses dois produtos. Assim, honraríamos a nossa natureza, tão farta e variada.

Nota final: esse ensaio debocha de um delírio legislativo. Mas há espécies invasivas e predadoras, como o peixe leão e o mexilhão dourado. Esses casos ficam fora de nossa chacota.

Opinião por Claudio de Moura Castro

Pesquisador em Educação e doutor em Economia pela Universidade Vanderbilt (EUA), Claudio de Moura e Castro escreve mensalmente na seção Espaço Aberto

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