Por que eles estão desistindo de trabalhar de qualquer lugar do mundo como nômades digitais


Boom de profissionais que adotam o estilo de vida sem endereço fixo cresceu após a pandemia, mas ‘lado b’ do nomadismo força desistência

Por Jayanne Rodrigues – Estadão – 23/01/2026 

Boom de profissionais que adotam o estilo de vida sem endereço fixo cresceu após a pandemia, mas ‘lado b’ do nomadismo força desistência antes do previsto.

Em apenas um ano, a advogada Letícia Pirolo, de 30 anos, percorreu a costa brasileira ao lado do seu cachorro, Manjericão. Eles não permaneciam mais de dois meses em cada destino. Enquanto trabalhava remotamente para o escritório de advocacia que comanda, conheceu lugares como Natal, Recife, Chapada Diamantina e os Lençóis Maranhenses. A próxima rota da dupla seria no exterior. No entanto, os planos mudaram.

Letícia decidiu abandonar a vida como nômade digital, profissional que trabalha enquanto viaja, por causa dos perrengues, da solidão e dos excessos de decisões que o estilo de vida exige. “Eu imaginava que ia viver assim pelo resto da vida”, relembra.

O nomadismo digital ganhou força após a pandemia em meio à expansão do trabalho remoto. Embora não tenha estimativas precisas sobre quantos brasileiros vivem nesse modelo, uma pesquisa da The Nomadic Club aponta que liberdade geográfica e flexibilidade são os principais atrativos para quem vive a experiência no longo prazo.

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No caso de Letícia, o nomadismo veio após a morte do pai. “Queria viver”, conta. Em 2021, ela foi embora de Curitiba sem data para voltar. Na hora de selecionar um lugar para ficar tinha quatro prioridades: precisava aceitar pet, ter uma boa internet, uma cadeira confortável para trabalhar e ser um imóvel bem localizado.

A rotina que durava pouco mais de um mês em cada destino incluía uma jornada de trabalho de oito horas e passeios diários pós expediente. Aos finais de semana, Letícia fazia bate e volta para cidades próximas. “Não tem a pressa como em viagens comuns”, diz ao citar as vantagens do nomadismo.

Por outro lado, começou a sentir o “lado b” do estilo de vida. Mesmo com uma reserva financeira, durante os períodos de alta temporada ficou refém dos altos preços. Em média, gastava R$ 10 mil por mês, somando moradia, alimentação, deslocamento e lazer.

O problema ficou mais visível no dia a dia quando perdeu o “encantamento” com os lugares paradisíacos que visitava. Em paralelo a isso, a advogada se sentia mais estressada ao ter de tomar várias decisões a cada mês sobre moradia, voo, destino e outros detalhes. “Ficou penoso. Não conseguia mais descansar. Ser nômade é quase um segundo emprego”, afirma.

O desgaste da experiência se escalou para a rotina profissional. “Comecei a trabalhar em horários esquisitos”, diz. A sobrecarga de decisões exigidas pela vida nômade passou a comprometer a capacidade de pensar estrategicamente no trabalho. Às vésperas de completar um ano como nômade, abandonou.

Romantização atrapalha experiência

Nem sempre a experiência tem um desfecho traumático. Adepto do nomadismo há mais de dez anos, o consultor Fernando Kanarski, de 40 anos, concorda que o estilo de vida exige mudanças constantes e tomada de decisões diárias. Desde a escolha de onde comer e morar até outros imprevistos, como passagens áreas e deslocamento.

Fundador da The Nomadic Club, comunidade criada em 2021 que reúne cerca de cem nômades brasileiros espalhados pelo mundo, ele acredita que parte da frustração tem origem na forma como a experiência é apresentada, muitas vezes associada a um “sonho”. Para Kanarski, outra razão que força a desistência precoce é a dificuldade de manter em equilíbrio a saúde física, a saúde mental e a questão financeira.

“O nomadismo potencializa esses problemas, então você precisa estar bem nessas áreas”, sugere o veterano no ramo. Ele acrescenta que esse tripé é decisivo para a permanência ou desistência.

Dois desses motivos aparecem na pesquisa conduzida pelo The Nomadic Club como causas de renúncia. Os respondentes apontaram saúde e instabilidade financeira como as principais razões. Para lidar com esses riscos, o consultor mantém dois planos de saúde, um no Brasil, e outro utilizado somente no exterior. Na sequência dos fatores listados no estudo, surge a saudade da família e do círculo de amizade.

“O nomadismo exige muitos momentos de solidão, quem não gosta de ficar sozinho não aguenta o tranco”, avalia Kanarski. Em um post de Letícia Pirolo no TikTok sobre ter largado o estilo de vida, por exemplo, diversos ex-nômades mencionam a falta de amigos como determinante para voltar a um endereço fixo.

Nos comentários, uma pessoa diz que o estilo de vida é “extremamente exaustivo”. Outros comentam que a questão financeira tem um peso considerável. Há também quem diga que não teve paz durante a experiência, “sempre ficava procurando hospedagem”, escreveu. Assim como o conteúdo da advogada, nas redes sociais há inúmeros relatos de profissionais que largaram o nomadismo.

Solidão e alto custo de vida

Um deles é o da escritora e fotógrafa Laís Schulz. No vídeo compartilhado em seu canal no YouTube, a profissional narra que tinha o desejo de conhecer outras culturas enquanto trabalhava remotamente. Após dois anos vivendo como nômade digital, no entanto, desistiu para cuidar da saúde mental.

Assim como Letícia, a escritora sentiu o peso dos perrengues. Com o tempo, um dos principais desafios foi encontrar equilíbrio entre o trabalho e o turismo por onde passava. “Ser nômade não é estar de férias”, ressalta. Em alguns períodos, devido ao volume de trabalho, só conhecia os lugares aos finais de semana.

A escritora Laís Schulz afirma que sempre sonhou em viajar o mundo enquanto trabalhava, mas desistiu da experiência após dois anos Foto: Reprodução

Ela conta que a falta de rotina também pesou na decisão. Às vezes o apartamento não tinha cozinha ou não havia academia por perto. O baque maior veio durante o período em que estava no Camboja. O plano inicial era seguir pela Ásia por seis meses, mas desistiu após entrar em depressão.

“Não conseguia pensar mais em ter de ir para um lugar novo e reconstruir tudo”, desabafa. Foi então que trocou a flexibilidade da vida nômade para construir laços mais duradouros, morar por mais tempo nos lugares e desenvolver hobbies. “O nomadismo não me dava isso. Senti falta de sair na rua e encontrar pessoas que me conhecessem. Queria construir minha vida em um lugar onde quisesse ficar”, afirma.

A vontade de se estabelecer em um lugar e criar vínculos também foram os principais motivos que fizeram a empresária Kely Coutinho, de 45 anos, dar uma pausa no estilo de vida. A profissional relembra que em determinado momento a imersão em diferentes culturas e o autoconhecimento praticado durante o nomadismo não estavam mais compensando a solidão e o alto custo de alguns destinos, que chegou a R$ 10 mil por mês.

Depois de sete anos na estrada, entre 2018 e 2025, passando por mais de 30 países, resolveu desacelerar. “Não sentia mais aquela vontade louca de estar em movimento. Hoje quero segurança, estabilidade, um lar fixo, negócios locais e vínculos afetivos mais sólidos, coisas que não vivia”, relata.

A última parada como nômade foi em Buenos Aires, onde passou um ano no mesmo apartamento, depois retornou ao Brasil e selecionou João Pessoa como endereço fixo. Desde então, a rotina à beira mar na capital paraibana é mais “previsível” e tranquila. “Hoje o nomadismo não faz mais sentido para mim, mas isso não quer dizer que seja pra sempre”, pondera.

Para Fernando Kanarski, a experiência tem data de início, meio e fim. “Sou da política que viver como nômade tem prazo de validade”. Ele planeja seguir no estilo de vida por mais três anos, após mais de uma década na estrada.

A advogada Letícia Pirolo, por sua vez, não descarta retomar o nomadismo no futuro; no entanto, pretende aumentar a reserva financeira e permanecer por períodos mais longos nos destinos. Laís Schulz também não se arrepende da experiência. Agora diz estar em busca de uma rotina em que permita conhecer novas culturas com mais conforto e estabilidade. “Existe um meio-termo que ainda estou tentando descobrir.”

Perfil do nômade brasileiro

Antes de virar nômade, é preciso avaliar se consegue lidar com uma rotina mais solitária e identificar qual perfil de experiência combina mais com cada pessoa, se prefere se deslocar com frequência ou permanecer mais tempo no mesmo lugar, avalia Kanarski. No que diz respeito ao quesito financeiro, a recomendação é guardar o equivalente a pelo menos seis meses de despesas.

Ele também aponta diferenças entre o nômade brasileiro e o estrangeiro. Fora do País, a maioria atua na área de tecnologia ou como empreendedor. No Brasil, embora profissionais de TI e empreendedores também representem boa parcela do grupo, há presença significativa de profissionais de marketing. Em geral, têm mais de 25 anos e alta qualificação.

Em seu livro Clube dos Nômades Digitais, lançado em 2025, o consultor define o nômade como um profissional que viaja com frequência, adota um estilo de vida minimalista e não tem um endereço fixo.

Apesar da expansão do trabalho remoto, o número de viajantes em tempo integral deve seguir como uma parcela menor e estável desse universo, estima Kanarski. Atualmente, cerca de 6,6 milhões de brasileiros trabalham em home office, segundo o IBGE, mas isso não significa que todos possam se tornar nômades. Isso porque, muitas empresas ainda exigem residência no local de contratação.

Além disso, a consolidação do modelo híbrido, que prevê a presença no escritório em determinados dias da semana, torna o estilo de vida ainda menos viável. Um estudo do Insper divulgado em 2025 revela que o trabalho híbrido segue predominante no Brasil, mesmo com anúncios de retorno ao formato 100% presencial por grandes empresa

Por que eles estão desistindo de trabalhar de qualquer lugar do mundo como nômades digitais – Estadão

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