Sigla ganha outra dimensão na medida em que os insumos fundamentais da ciência e da economia do século XXI respondem pelo nome de minerais críticos ou terras raras
Por Assis Moreira – Valor – 22/01/2026
É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.
O Brasil pode ter novas oportunidades com o conceito de ESG 2.0, em meio aos choques geopolíticos. É nessa linha que se inserem intervenções recentes de Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do Brics.
Atualmente, ele é professor do Insead, uma das principais escolas de negócios da Europa, e integra o conselho consultivo internacional do Banco Europeu de Investimentos (BEI) e da Inditex, a maior companhia espanhola em valor de mercado.
Troyjo lembra que 2005 foi um ano fortemente marcado, de um lado, pela ideia de “globalização profunda”, de um mundo plano, com dispersão da produção em diferentes países e expansão dos acordos comerciais. E, de outro, pelo surgimento com grande força do conceito de ESG – sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança) – como efeito colateral das grandes conferências internacionais sobre clima.
Não apenas países passaram a divulgar metas ambientais, como isso se tornou algo orgânico também para as empresas. Da mesma forma que publicam seus dados contábeis, passaram a divulgar sua pegada de carbono.
Também ganhou destaque o conceito de capitalismo de stakeholders, popularizado por Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, em oposição ao capitalismo focado exclusivamente no lucro dos acionistas. A proposta era uma visão mais ampla de responsabilidade social e ambiental, capaz de enfrentar desafios como a crise climática e a desigualdade.
Mas nos anos recentes, nota Troyjo, houve uma sucessão de eventos desenhando uma nova tendência: o primeiro governo de Donald Trump (janeiro de 2017 a janeiro de 2021); a saída formal do Reino Unido da União Europeia em 2020; o acirramento da rivalidade entre EUA e China; a maior crise de saúde pública global com a covid-19; o maior risco geopolítico desde o fim da Segunda Guerra, com a invasão da Ucrânia por tropas russas em 2022; o Oriente Médio em ebulição como não se via desde os anos 1970; e, culminando, a volta de Trump à Casa Branca em 20 de janeiro de 2025.
Trump não apenas reverteu políticas de estímulo à transição energética, como se notabilizou pelo lema “we will drill, baby” (“vamos perfurar”, em referência à exploração de petróleo).
Os europeus, que vinham liderando a transição energética, tornaram-se mais cautelosos diante da hipercompetitividade chinesa. Bruxelas começou a reduzir a ênfase nesse tema, ao constatar que sua política era cara e vulnerável.
Com esses fatores combinados, observa Troyjo, entramos na era do ESG 2.0. O ESG 1.0 foi para o assento do copiloto. Quem passa a comandar o avião é o E de economia, o S de segurança e o G de geopolítica, operando agora de forma integrada. Uma decisão de investimento não é avaliada apenas pelo custo-benefício, mas também por seu impacto sobre a segurança.
O ESG 2.0 ganha outra dimensão na medida em que os insumos fundamentais da ciência e da economia do século XXI respondem pelo nome de minerais críticos ou terras raras. Para Troyjo, um exemplo de ESG 2.0 nesse contexto é a distensão recente da agenda entre Estados Unidos e Brasil. Os americanos, que vinham adotando uma postura mais dura, foram surpreendidos na negociação com os chineses, quando Pequim avisou Washington que aplicaria restrições voluntárias às exportações de minerais críticos.
Os relatórios do US Geological Survey (USGS) passaram a ganhar mais peso, incluindo suas notas de rodapé. E a surpresa foi geral – inclusive para o próprio Brasil, diz ele. O país aparece em segundo lugar mundial em reservas comprovadas de terras raras, com algo entre 20% e 23% do total, atrás apenas da China, que concentra cerca de 40%. O Brasil possui mais reservas comprovadas de minerais críticos do que os quatro países seguintes somados (Índia, Austrália, Tailândia e Rússia).
A China é a mais avançada no refino desses minerais. Mas onde há maior elasticidade entre reservas comprovadas e potencial de refino é no Brasil.
Troyjo recorre à imagem de alguém que manda o paletó para a lavanderia, confere os bolsos e encontra uma nota de 100 esquecida. “Esse conceito de ESG 2.0 caiu no colo do Brasil”, diz ele. “O mais central são os insumos da ciência e da economia, que são os minerais críticos.”
No mundo do ESG 2.0, a situação é mais adversa para a maioria dos países – e ajuda a explicar parte do interesse americano na Groenlândia. Para o Brasil, porém, o cenário facilita o caminho para atrair mais investimento direto, ampliar o comércio e ganhar relevância entre as dez maiores economias do mundo.
Como não perder essa oportunidade? Para ele, é urgente atualizar o mapa geológico do país e identificar quais minerais têm maior valor estratégico entre as reservas comprovadas. Brasília não deve se comprometer com acordos preferenciais, mas sim buscar parcerias com todos.
Também precisa evitar a criação de uma estatal de “Terras Raras”. Deve montar rapidamente roadshows bem estruturados, criar uma espécie de pacote de parcerias potenciais e levá-lo ao mundo. Considera fundamental a criação de escala, à semelhança do que ocorreu na corrida do petróleo nos Estados Unidos.
No ESG 1.0, o Brasil se destacava pela diversidade de sua matriz energética e pelas reservas de água, por exemplo. Agora, nas compilações do USGS, as reservas brasileiras aumentam a cada mês. “O Brasil tem um novo jogo. Com os minerais críticos, o país ganha uma relevância que nós mesmos não sabíamos que existia”, avalia Troyjo.
Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente
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