Os cientistas descobriram um isqueiro de 400 mil anos


Pesquisadores acreditam que a relação de nossos ancestrais com o fogo se iniciou muito antes do aparecimento de nossa espécie

Fernando Reinach – Estadão – 16/01/2026

Outro dia li que um par de indígenas, isolados no interior da Amazônia, que evitam todo contato com a civilização, apareceram em um posto da Funai. O que queriam? Fogo. Assim que receberam um pedaço de madeira em chamas voltaram para a floresta e desapareceram. Eles haviam perdido seu fogo e sem saber como acender uma fogueira e sem um incêndio natural para obter fogo, o caminho foi procurar as pessoas que mais temem, o homem branco.

Os cientistas acreditam que a relação de nossos ancestrais com o fogo se iniciou muito antes do aparecimento de nossa espécie, provavelmente 1 milhão de anos atrás.

O Homo sapiens moderno surgiu faz 250.000 anos. E essa história pode ser dividida em três etapas separadas por conquistas tecnológicas importantes. A primeira etapa é quando passamos a aproveitar um fogo natural para nos aquecermos, fazer um churrasco e talvez espantar predadores. Mas quando o fogo apagava ou nos afastávamos, perdíamos o fogo. 

A segunda etapa foi quando aprendemos a carregar o fogo conosco de um acampamento para o outro. Esse é um passo tecnológico importante pois significa uma divisão de tarefas. Alguns indivíduos tinham que se dedicar a manter o fogo aceso enquanto outros caçavam e coletavam alimentos. Se ele apagasse dependíamos de um incêndio natural, geralmente causado por um raio, para recuperarmos o fogo.

Esse talvez seja o estágio desses indígenas que apareceram no acampamento da Funai. E a terceira etapa foi o aprendizado de acender um novo fogo, geralmente provocando faíscas, com o uso de duas pedras. Esse último salto tecnológico, representado hoje por um isqueiro, deve ter sido importante, pois manter o fogo acesso por longo tempo deveria ser uma chateação e um alto risco. Mas acender um fogo novo só com duas pedras ou usando o atrito de dois pedaços de madeira não é fácil, como pode atestar qualquer aprendiz de escoteiro.

Para você

O problema dos arqueólogos é descobrir quando foi acesa a primeira fogueira. É relativamente fácil descobrir as fogueiras em um acampamento pré-histórico. A terra queimada é fácil de identificar e restos de alimentos como ossos carbonizados indicam que ela foi usada para preparar alimentos. Além disso, se o local foi usado diversas vezes, as camadas de cinzas podem ser datadas. Mas como saber se aquele fogo foi criado ali mesmo com faíscas ou se foi trazido de outro lugar?

A novidade vem de escavações de um acampamento na Inglaterra na região de Barnham. Esse local vem sendo escavado faz décadas e ele foi habitado por hominídeos 400 mil anos atrás. Nesse acampamento foi localizado uma região onde eram feitas fogueiras.

A terra do local tem indícios que sofreu ciclos de aquecimento de até 400 a 700 graus Celsius, seguida de resfriamentos sequenciais durante longos períodos, indicando que o fogo estava presente e ausente alternadamente. Isso indica que provavelmente não era um local onde o fogo era mantido aceso.

Mas o mais interessante é a descoberta, na beira da fogueira, de dois fragmentos de rocha de pirita. Esse mineral, composto de um átomo de ferro e dos de enxofre é chamado ouro de tolo pois tem a aparência de ouro. Mas seu nome vem de uma palavra em grego que significa pedra que faz fogo. Isso porque batendo ou raspando dois fragmentos dessa pedra muitas faiscas são produzidas. Nos isqueiros antigos e nas armas de fogo primitivas, a pirita é usada para provocar faiscas. 

O interessante é que as formações geológicas no local não contêm pirita, e, portanto, a pedra deve ter sido trazida de longe. O local mais próximo one ela pode ser encontrada dista 12 quilômetros de Barnham. Examinando os fragmentos os cientistas descobriram que eles estavam gastos como se tivessem sido batidos ou raspados entre si. Além disso havia indícios de que haviam sido aquecidos.

Combinando todas essas informações, os cientistas acreditam que nesse acampamento de 400 mil anos atras, nossos ancestrais já conseguiam acender o fogo usando faiscas produzida por pedras de pirita que iam buscar em lugares relativamente distantes. Isso demonstra que a ato de acender um novo fogo foi descoberto faz pelo menos 400 mil anos. Foi o primeiro isqueiro.

Mais informações: Earliest evidence of making fire. Nature

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https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adz3281 2026

Opinião por Fernando Reinach

Biólogo, PHD em Biologia Celular e Molecular pela Cornell University e autor de “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil”; “Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito”; e “A Longa Marcha dos Grilos Canibais”

Os cientistas descobriram um isqueiro de 400 mil anos – Estadão

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