Nós, robôs


Com avanço da IA, mercado de humanoides pode movimentar US$ 5 tri até 2050

Por João Luiz Rosa e Daniela Braun — Valor – 05/01/2026

Da simpática Rose, de “Os Jetsons”, ao protetor B-9, de “Perdidos no Espaço”, faz tempo que os robôs humanoides vivem e agem na ficção. Já em 1927, a vilã de “Metrópolis”, o clássico expressionista de Fritz Lang (1890-1976), era uma máquina com aparência humana – a falsa Maria. A novidade é que, com os avanços recentes da inteligência artificial (IA), os autômatos parecem finalmente perto de virar realidade, com aplicações em lojas, fábricas, armazéns, hotéis, hospitais – até dentro de casa.

O mercado global de robôs pode ultrapassar US$ 5 trilhões até 2050, com mais de um bilhão de humanoides em atividade, 90% deles (930 milhões) em tarefas industriais e comerciais, estima o banco Morgan Stanley. Outros 80 milhões vão atuar nos lares. O Citibank é ainda mais incisivo: prevê que 1,3 bilhão de robôs com IA em geral estarão em circulação em 2035, com 4 bilhões deles em 2050. Os humanoides, em particular, serão 648 milhões de unidades e movimentarão US$ 7 trilhões ao fim do período.

A era dos robôs com IA é o tema da lista das 10 tecnologias do Valor para 2026, em sua 17ª edição. Destacamos as principais funções que os autômatos devem assumir nos próximos anos: entregadores, garçons e baristas, inspetores de segurança e bombeiros, médicos, motoristas, mordomos e assistentes, operários, pedreiros e serventes, policiais e recepcionistas. Muitos deles serão multifunção.

Desde a origem, a palavra “robô” remete a trabalho. O termo apareceu pela primeira vez na peça teatral “R.U.R” (Rossum’s Universal Robots), de Karel Capek (1890-1938). Deriva da palavra tcheca “robota”, que significa trabalho forçado ou servidão. Na trama, seres artificiais substituem humanos em tarefas pesadas. Não à toa, histórias sobre revolta das máquinas se tornariam tema recorrente na ficção científica.

Além da IA, o movimento em torno dos robôs humanoides é sustentado por avanços em componentes físicos como sensores avançados, baterias de longa duração e materiais leves, incluindo a chamada “soft robotics”, que imita a pele e as articulações humanas, com efeito muito mais realista.

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As 10 tendências para 2026

1 – Entregadores

Robôs desenvolvidos com IA que realizam entregas de refeições devem se multiplicar pelos corredores de shopping centers e saguões de hotéis este ano. Um exemplo é a robô ADA, que ajuda a reduzir o tempo de entrega da empresa de delivery iFood especialmente em locais de grande circulação de pessoas como shopping centers. Nos shoppings Iguatemi Ribeirão Preto e Iguatemi Alphaville (SP), a ADA retira os pedidos de comida dos restaurantes e os carrega a uma área central para coleta pelos entregadores. Até 2030, o iFood pretende contar com 1.000 robôs como a Ada em circulação. Desenvolvido pela startup Synkar, de Ribeirão Preto, o robô combina visão computacional, sensores e mapas do local para “enxergar” o entorno e planejar a melhor rota para navegar de forma autônoma nos corredores do shopping. A meta da Synkar encerrar o primeiro semestre de 2026 com cem unidades da ADA em operação.

2 – Garçons e baristas

Seu futuro barista ou bartender pode ser Adam, um robô que vem circulando em eventos e feiras de tecnologia, preparando cafés, chás e drinks, além de puxar conversa com o público. Ele já preparou coquetéis na sede da gigante americana de chips de IA Nvidia, na Califórnia (EUA) e é presença confirmada na feira de tecnologia CES 2026, em Las Vegas. Criado pela americana Richtech Robotics, Adam leva o nome da sigla em inglês para “Mixologista Automatizado com Dois Braços”. Treinado com os conjuntos de softwares de IA da Nvidia, o robô barista prepara e serve até 200 bebidas por dia usando visão computacional por IA para interagir com os clientes. Em 2025, a Richtech ganhou a simpatia de investidores com alta acumulada de 23,15% em suas ações negociadas na Nasdaq. A expectativa do mercado é positiva para os papeis da empresa ante a sinalização de que Donald Trump vai liberar subsídios à indústria de robótica americana em 2026.

3 – Inspetores e bombeiros

Spot é um robô quadrúpede que já virou presença obrigatória em eventos de tecnologia. Em 2025, Spot chamou a atenção do público nas calçadas de Austin, no Texas, no evento de inovação SXSW 2025, e nas novas instalações do centro de inovação da Whirlpool, inaugurado em dezembro, em Rio Claro (SP). Mas não se engane quando Spot dá cambalhotas e se equilibra em duas patas exibindo um comportamento similar ao de um pet. O robô de guarda da Boston Dynamics, que pertence à Hyundai Motor Group, foi projetado para inspeções industriais em ambientes críticos e terrenos difíceis. Entre suas funções estão vistoriar e prevenir acidentes em usinas, fábricas, mineradoras e dutos, realizar resgates e detectar incêndios. Em meados de 2025, o Spot foi atualizado para fazer a gestão de instalações criando um gêmeo digital para identificar desde motores superaquecidos até vazamentos de ar e riscos regulatórios.

4 – Médicos

Robôs cirúrgicos estão em funcionamento desde o início dos anos 2000 e, embora tragam  braços, não tentam imitar um corpo humano. São mais uma extensão das mãos do cirurgião, que conduz os procedimentos de uma espécie de cockpit com visor 3D. Trata-se de um dos mercados com mais forte crescimento entre as aplicações robóticas. À medida que evoluem e ficam mais baratos, esses dispositivos são usados para tratar de mais doenças, por um número maior de hospitais. A expectativa é que os sistemas de cirurgia robótica, que incluem equipamentos e softwares, tenha crescimento médio de 12,4% ao ano até 2030, com o movimento de US$ 23,1 bilhões no fim do período, segundo a Grand View Research, uma consultoria. Para este ano, a estimativa é da ordem de US$ 14,5 bilhões. Disputam o mercado companhias como Intuitive Surgical, dona dos robôs Da Vinci, Medtronic (Hugo), Johnson&Johnson (Ottawa) e CMR Surgical (Versius).

5 – Motoristas

Os carros autônomos estão divididos em cinco categorias, desde automação básica até veículos que dispensam totalmente o motorista. Nos EUA e outros mercados internacionais, a corrida para saber quem dominará os serviços de robotáxi, que são robôs sobre rodas, já começou. A Waymo, da Alphabet, holding do Google, já ultrapassou 2 mil robotáxis em circulação e se prepara para reforçar a frota, com a adaptação de modelos de montadoras como Jaguar Land Rover e Stellantis (Chrysler). Já a Zoox, da Amazon, produz seus próprios veículos, assim como a Tesla, cuja operação está em fase experimental. Na China, a disputa é travada por gigantes como Baidu, que oferece o serviço Apollo Go, e o Alibaba, que apoia a AutoX. Em outubro, o CEO da Uber, Dara Khosrowshahi, informou ao Valor que a empresa já havia fechado 18 acordos comerciais para oferecer serviço de robotáxi,  que disse considerar “tanto oportunidade quanto ameaça”.

6 – Mordomos e assistentes

A IA generativa elevou os robôs assistentes a um patamar antes visto somente em obras de ficção científica. O robô humanoide Neo foi desenvolvido pela norueguesa 1X Technologies para ajudar em tarefas domésticas e fazer companhia. Neo foi uma das atrações da conferência anual da Nvidia, a GTC, realizada em março em San José, na Califórnia (EUA), ao lado dos pequenos robôs Blue. Ambos acompanharam o CEO da empresa, Jensen Huang, nos anúncios de novos pacotes de treinamento de IA da Nvidia para robôs. No caso do Blue, a NVidia apresentou o Newton, um mecanismo de código aberto, criado em parceria com o Google DeepMind e a Disney Research. Durante o evento, o Valor interagiu com o simpático Blue e com o eloquente Neo, que demonstrou habilidades domésticas deu abraços e jogou “pedra, papel e tesoura”. Este mês, o Neo chega aos EUA tanto por assinatura de US$ 499 mensais como para venda por US$ 20 mil, disse a 1X.

7 – Operários (manuseio de cargas etc)

O humanoide Digit, da Agility Robotics, foi projetado para atuar em armazéns, fábricas e centros de distribuição executando tarefas repetitivas como mover e classificar caixas ou contêineres de até 18 quilos, trabalhando ao lado de humanos. Em dezembro, a empresa de comércio eletrônico Mercado Libre, controladora do Mercado Livre, anunciou uma parceria com a Agility para testar o Digit em seu centro de distribuição no Texas (EUA). O Digit já está em operação na área de “e-commerce” da GXO Logistics e faz parte de testes pela fornecedora de peças automotivas Schaeffler e pela Amazon. Já o robô Stretch, da Boston Dynamics, é um braço inteligente com sistema de visão computacional que determina a melhor estratégia de coleta. Usando ventosas independentes a vácuo, o Stretch agarra, levanta e posiciona uma ou múltiplas caixas em esteiras transportadoras de empresas de logística como DHL e Maersk e na varejista de moda H&M

8 – Pedreiros e serventes

A indústria da construção civil vive um dilema em vários países, inclusive no Brasil: conciliar a demanda aquecida com a disponibilidade de mão de obra, cada vez mais escassa. O desafio para as construtoras é atrair trabalhadores jovens. Mas estes estão buscando ocupações que não exigem tanto esforço físico. O resultado é o aumento da idade média nos canteiros de obras. Reportagem do Valor mostrou que a idade média de um mestre de obras passou de 40 anos em 2016 para 46 no ano passado. Essa conjuntura vai exigir maior produtividade, o que abre oportunidades para robôs de construção. A previsão é de que esses negócios somem US$ 12,3 bilhões até 2035, com crescimento de 11,2% ao ano durante o período, segundo a Fact.MR, de pesquisa de mercado. Para a consultoria McKinsey, robôs humanoides poderão preparar ferramentas, limpar o local, pintar paredes e descarregar caminhões, liberando tempo para pedreiros e ajudantes.

9 – Policiais

As ruas de Dubai, nos Emirados Árabes, têm sido vigiadas com a ajuda de um robô cuja aparência lembra a combinação entre um SUV e um pequeno tanque militar. Criado pela Micropolis Robotics, o robô alerta a central de polícia e viaturas próximas sobre eventuais situações de risco, e não carrega armas. É um exemplo de como a robótica com IA tem sido empregada na área de segurança pública. Na cidade de Nova York, um cachorro-robô batizado de Digidog auxilia nas ações de vigilância, enquanto na China está em testes o RT-G, da Logon Technology, uma forma esférica de 125 quilos que tem câmeras embutidas e pode lançar redes e bombas de gás lacrimogêneo para capturar eventuais suspeitos. Ainda incipientes, esses dispositivos estão longe da letalidade do “Robocop”, o violento policial meio homem e meio máquina do filme de 1987. Mas seu uso também desperta polêmicas sobre privacidade e garantias do cidadão.

10 – Recepcionistas

No mundo dos robôs humanoides, em que tudo é tão recente, talvez os recepcionistas sejam os veteranos. Há anos empresas investem em máquinas para dar orientações e responder a perguntas em hotéis e edifícios comerciais. Dotados de telas que simulam emoções e braços que copiam o gestual humano, esses robôs costumam despertar simpatia e estabelecer conexões rápidas com o consumidor, rompendo a barreira de lidar com uma tecnologia nova. A brasileira PD7 Tech é responsável pelo Well Bot, que traz tela de 14 polegadas e autonomia de bateria de 12 a 14 horas. À medida que os robôs ficam mais parecidos com seres humanos, mais desafiador é o design. Em novembro, o robô russo Aidol, que lembra o Homem de Lata de “O Mágico de Oz”, caiu de cara no chão em sua estreia. A startup chinesa Noetix criou o Hobbs W1, cuja cabeça reproduz um rosto feminino de maneira convincente, mas que pode parecer um pouco assustadora para alguns.

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Grandes líderes do setor tecnológico encaram o avanço dos humanoides com entusiasmo. Elon Musk, da Tesla, afirmou recentemente que “o mais provável é que a IA e os robôs tornem todas as pessoas ricas”. Já Jensen Huang, CEO da Nvidia, destacou que a robótica representa a próxima grande onda da inteligência artificial, considerando os robôs humanoides o desenvolvimento mais empolgante dessa nova etapa.

A adoção dos autômatos vai se acelerar no fim da próxima década, prevê o Morgan Stanley, à medida que a tecnologia superar barreiras técnicas e os países regularem o uso dos robôs. A tendência é que os custos caiam, como costuma ocorrer com tecnologias ao longo de tempo. O custo unitário de um robô, que em 2024 era de US$ 200 mil em países desenvolvidos, pode chegar a US$ 150 mil em 2028 e a US$ 50 mil em 2050. Em países de renda mais baixa, mais aptos a se beneficiarem da cadeia de suprimentos chinesa, o custo pode cair para US$ 15 mil.

A estimativa do Morgan Stanley é que até 33% dos lares americanos com renda anual acima de US$ 200 mil tenham seu próprio robô doméstico em 2050. Mesmo entre famílias de classe média com renda mais modesta, entre US$ 50 mil e US$ 75 mil, pelo menos 3% comprarão um autômato.

Parte da comunidade de tecnologia observa, no entanto, que os desafios técnicos dos robôs humanoides são muito maiores que o otimismo dominante do mercado faz supor. Os autômatos terão de interagir diretamente com o mundo real e lidar com situações imprevisíveis, algo a que a IA não foi submetida até agora. É um teste que suscita questões de segurança: como garantir que os robôs não vão ferir as pessoas em caso de acidentes ou falhas?

Os investidores também estão sob advertência. Autoridades chinesas alertaram, há um mês, para o risco de uma bolha financeira em torno dos autômatos. Milhões de dólares estão sendo investidos em mais de 150 companhias especializadas só na China, o que pode resultar em uma enxurrada de produtos idênticos e com pouco valor de mercado, disseram os técnicos.

Nos Estados Unidos, Rodney Brooks, coinventor do célebre robô aspirador Roomba, disse ao “The New York Times”, há cerca de um mês, que nos próximos 15 anos grandes somas de dinheiro serão desperdiçadas na tentativa frustada de extrair desempenho significativo dos autômatos. A declaração surpreendeu a comunidade de tecnologia, sobretudo porque o Roomba foi um marco entre os robôs domésticos.

Pode ser pessimismo exagerado, como argumentam críticos de Brooks, mas também soa como um chamado à prudência corporativa: apesar do sucesso comercial do Roomba, sua criadora, a iRobot, acabou incorporada por um credor chinês, há apenas 20 dias, após pedir proteção judicial nos EUA.

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