- Não é a máquina que escreve como nós, somos nós que escrevemos como máquinas; a tecnologia não venceu por genialidade, mas por conformidade
- A IA não ameaça a literatura, ela revela a fragilidade de uma literatura que abdicou do risco em nome da legibilidade
José Manuel Diogo – Folha – 4.jan.2026
Presidente da Associação Portugal Brasil 200 anos
A pergunta “foi um humano ou foi uma inteligência artificial?” tornou-se a nova tchutchuca dos salões da cultura contemporânea, mas só serve para provocar espanto, gerar cliques e alimentar a falsa ideia de que estamos diante de um duelo histórico. Não estamos. O confronto não é entre inteligência artificial e literatura. É entre literatura e a sua própria acomodação estética.
Muitos textos que são hoje escritos com IA são bons. Fluentes. Sensíveis. Reconhecíveis. Eles funcionam porque obedecem com precisão aos códigos dominantes da boa escrita atual —introspecção moderada, emoção legível, imagens cotidianas, conflito psicológico quase domesticado. São textos que não erram, mas é exatamente aí que reside o problema. A IA não venceu por genialidade; venceu por conformidade. Aprendeu rápido porque o terreno estava muito nivelado.
Durante décadas, oficinas literárias, MFAs (“masters of fine arts”) e os mercados editoriais mainstream promoveram o padrão de escrita “correta”. Pessoal, mas não excessivamente; emocional, mas não delirante; sóbrio, mas não demasiadamente elegante. O que daí resultou foi uma prosa treinada para agradar —e tudo o que é treinável é, por definição, imitável. Não foi a inteligência artificial que inventou esse estilo, ela apenas o replica com a imparável eficiência algorítmica.
Mas o mais preocupante na geração de textos por IA —inclusive os literários— não assenta em questões técnicas, mas sim culturais. Se repararmos bem, em toda a história da humanidade, a literatura que importa nunca foi apenas bem escrita; foi perigosa. Criou atrito. Produziu ruído.
Há, claro, quem celebre a literatura automática como democratização criativa, mas esses confundem acesso com profundidade. A IA amplia possibilidades formais, sim. O que ela não faz —ainda— é escrever contra algo. Não conhece custo, vergonha, memória traumática nem a violência de expor uma verdade que não cabe no consenso. O seu texto não sangra porque não tem corpo. O nosso, quando vale a pena, tem.
Para os salões das academias, o que realmente desconforta e desconcerta não é descobrir que uma máquina escreve bem. É perceber que ultimamente aceitamos como literatura uma escrita previsível; tão previsível que pode ser reproduzida por um modelo estatístico. A IA não ameaça a literatura. Ela revela a fragilidade de uma literatura que abdicou do risco em nome da legibilidade e —mais preocupante ainda— uma sociedade que trocou a profundidade pela atenção.
Porque o que verdadeiramente nos devia chocar não é a inteligência artificial escrever tão bem; é nós descobrirmos que escrevemos mal o suficiente para sermos substituídos sem resistência.
A máquina não invadiu a literatura —ela foi convidada! Por uma prosa domesticada, treinada para agradar e incapaz de ferir. Enquanto chamarmos “boa escrita” ao que não arrisca, a IA continuará a passar por boa autora. A verdadeira literatura começa exatamente onde o cálculo falha —no ponto em que escrever ainda implica exposição, perda e a coragem de sustentar frases e textos sem garantia de sentido ou de consenso. Como este.
Quem escreveu, um humano ou uma IA? – 04/01/2026 – Opinião – Folha
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