Estudantes de Medicina precisam aprender o que é evidência científica de fato, diz diretor do Sírio


Para Fernando Ganem, termo foi banalizado ao ser usado por qualquer um para promover protocolos médicos duvidosos, principalmente nas redes sociais; Faculdade Sírio-Libanês abriu neste semestre primeira turma de graduação em Medicina

Por Fabiana Cambricoli – Estadão – 20/12/2025 

Com a multiplicação, nas redes sociais, de perfis de profissionais de saúde que divulgam “protocolos médicos” duvidosos – muitas vezes apresentados como se tivessem respaldo científico —, uma das tarefas centrais das faculdades de Medicina é ensinar o estudante a reconhecer o que é evidência de verdade de fato e, sobretudo, onde buscá-la. A avaliação é do cardiologista Fernando Ganem, diretor médico do Hospital Sírio-Libanês, cuja faculdade recebeu sua primeira turma de Medicina neste semestre.

Para Ganem, o termo “evidência científica” foi banalizado e passou a ser usado por alguns como verniz de credibilidade para práticas que não se sustentam em bases sólidas. Por isso, diz, esse é um debate que precisa começar cedo na formação médica.

“Na graduação, a gente tenta trazer, desde o primeiro momento, o que é a evidência científica de fato. Inclusive, porque a palavra evidência científica está banalizada. Qualquer pessoa bota nas mídias sociais que tem protocolos com as melhores evidências”, afirmou ele, em entrevista ao Estadão.

Na conversa, ele detalhou por que o Sírio-Libanês decidiu abrir uma escola médica em meio à expansão sem precedentes de cursos no País e quais diferenciais a instituição busca oferecer, em especial na integração dos ensinamentos teóricos e práticos, e na oferta de disciplinas não óbvias: como empreendedorismo, gestão e inovação.

Ganem também refletiu sobre o impacto do excesso de informação em saúde (boa e ruim) e do uso da inteligência artificial generativa na relação médico-paciente. “Hoje a gente tem um desafio chamado Dr. ChatGPT. Os pacientes chegam com a pesquisa feita, com os exames a serem feitos e com as opções terapêuticas. Isso gera um trabalho maior, um dispêndio de energia maior no sentido de você tentar explicar e chegar naquilo que realmente é fato”, disse.

Por outro lado, ele apontou áreas em que a IA pode trazer ganhos concretos para o sistema de saúde, como apoio a exames de imagem, alertas de piora clínica e predição de risco, mas defendeu cautela para evitar erros e distorções induzidos pela tecnologia. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

Diante de um aumento sem precedentes de escolas médicas, por que o Sírio-Libanês decidiu abrir um curso de Medicina e quais os diferenciais que vocês acham que conseguiram trazer para a formação médica?

Todo mundo sabe da proliferação de faculdades de Medicina pelo Brasil, e acho que o Sírio-Libanês tinha uma responsabilidade no sentido de construir um curso de graduação. Ele é uma instituição que se consolidou no setor saúde do ponto de vista assistencial e de pesquisa, mas é uma instituição com uma vocação de ensino indiscutível. A grande maioria do corpo clínico daqui faz parte também de outras instituições, predominantemente Universidade de São Paulo (USP). O nosso corpo clínico hoje tem mais de 40 professores titulares em alguma instituição, mais de 150 doutores. Então, como juntar aquilo que a gente tem na assistência com o ensino? E aí vem a concepção da nossa faculdade. Ela tem a obrigação de compartilhar conhecimento e formar acadêmicos com tudo o que o 

Ministério da Educação preconiza como pré-requisito, mas adaptando duas coisas principalmente: a experiência da saúde suplementar e do SUS, que é a realidade brasileira, e o que está chegando por aí: formação em gestão, formação em empreendedorismo, incorporação de tecnologia e inovação digital.

E a gente tem no início do curso uma integração da cadeira básica com a cadeira clínica. Então, a gente não tem as matérias tradicionais – bioquímica, física, biofísica, farmacologia –, que logo no início do do curso mantém o aluno muito distante da prática. A gente entende que este modelo é muito difícil de garantir o engajamento. Eu assisti a uma aula recentemente e foi muito bacana, porque ela começa falando de bioquímica e proteína. Na sequência, fala de órgãos e sistemas. Passa por patologias e, no final, vem uma grande especialista falar sobre Alzheimer e explicar por que aquela proteína é fundamental no desenvolvimento do Alzheimer e por que algumas moléculas são importantes na solicitação do exame para fazer um diagnóstico mais assertivo.

E aí a gente vê o quanto você consegue agregar na atenção e envolvimento. Então, acho que iniciativas como essa de trazer, além do currículo tradicional, integração da cadeira básica com a área clínica e complementação da formação com áreas de gestão, iniciação científica, iniciação à pesquisa e até empreendedorismo vão cumprir um papel de formar profissionais mais diferenciados.

Como vocês veem a questão da proliferação de perfis de médicos nas redes sociais promovendo terapias sem evidências científicas? Isso é uma preocupação na faculdade? Como abordar esse tema desde o início da formação dos novos médicos?

O que a gente mais carece hoje na sociedade são fontes de informação fidedigna. Na área da graduação, a gente sempre tenta trazer, desde o primeiro momento, o que é a evidência científica de fato. Inclusive, porque a palavra evidência científica está banalizada. Qualquer pessoa bota nas mídias sociais que tem protocolos com as melhores evidências. Não. A gente quer compartilhar com os estudantes onde buscar as evidências que realmente fazem sentido. Isso é condição sine qua non. Nós precisamos garantir quais são as fontes fidedignas de conhecimento naquela área.

Na sociedade, eu vejo com muita tristeza o poder que qualquer um tem, uma vez que você deu acesso ou permitiu que qualquer pessoa consiga difundir alguma informação. Isso acontece e eu fico muito triste quando isso é feito por um médico porque, mesmo que a informação seja correta e fidedigna, ela não é percebida da mesma forma por todo mundo. Pior ainda se a informação for fundada. Isso a gente vê todos os dias: os soros do rejuvenescimento, os que dissolvem gordura nas artérias….

Hoje não é incomum ter residentes tendo os seus sites em que eles divulgam técnicas, diagnósticos, terapias. E nós fazemos um trabalho logo na chegada de todos eles aqui trazendo casos reais do impacto deste comportamento e que ele não é o mais adequado, além de cases para a gente usar como exemplo. Eu estou muito tranquilo que a instituição está conseguindo transmitir esse tipo de preocupação. É nossa obrigação fazer isso.

A faculdade de Medicina do Sírio-Libanês oferece também aulas que ensinam a metodologia científica?

A gente tem um curso específico de pesquisa, de iniciação científica, onde você consegue dar o grau de relevância de cada estudo. Então, estudo de caso, estudo observacional, série de casos, estudos multicêntricos, ensaios clínicos, enfim, isso tudo faz parte parte do currículo dos nossos acadêmicos. Isso é reforçado a cada momento. Na residência, a gente tem o mesmo tipo de comportamento. E hoje eles estão muito mais preparados. Nós não tínhamos isso. Para a geração de 20, 30 anos atrás, era muito diferente. Nós tínhamos grandes livros, textos, tínhamos grandes mentores e professores, mas as publicações científicas eram trazidas para a gente em três ou quatro grandes bibliotecas, você tinha que fazer solicitação de um artigo que levava de 15 a 30 dias. Um paper não chegava em tempo real. Hoje, todas as publicações chegam em tempo real. O cuidado está em como eu consigo dar para eles (estudantes) a noção de que eles precisam buscar a fonte mais correta.

E de que forma esse maior acesso a informações boas e ruins em saúde impactam a adesão dos pacientes a tratamentos? Além de gestor, o senhor é cardiologista. De que forma isso vem impactando a prática clínica?

Hoje a gente tem um desafio chamado Dr. ChatGPT. O Dr. Google ficou velhinho, ele está desatualizado. Os pacientes chegam hoje com a pesquisa feita, com os exames a serem feitos e com as opções terapêuticas. Nós já vivenciamos uma situação aqui de um paciente em uma situação bastante grave, em que vários especialistas estavam juntos tentando cuidar e o filho discutindo de igual para igual com as equipes sobre qual o tipo de terapia que ele preferia. Isso gera um trabalho maior, um dispêndio de energia maior no sentido de você tentar explicar e chegar naquilo que realmente é fato.

Por outro lado, é muito bom poder trabalhar com pessoas que têm informação e bom senso. Quando você lida com pessoas que têm informação, buscam a informação, se interessam pelo tema e estão abertas a discutir o assunto, é muito bacana. Uma das maiores dificuldades que a gente tem hoje é perguntar para a pessoa: “Quais são os remédios que você toma?” E a pessoa responde: “É aquele comprimido que vem numa caixinha quadrada, um comprimido redondo e branquinho”. Às vezes a pessoa não sabe por que o remédio foi passado. Isso acontece em quase todos os níveis sociais.

Além de gestor, o senhor é cardiologista e as doenças cardiovasculares, embora sejam, em sua maioria, preveníveis, ainda são a principal causa de morte no Brasil e no mundo. Por que isso ainda acontece mesmo com tanta informação sobre prevenção?

A gente conhece os fatores de risco, mas a doença cardiovascular continua sendo a primeira causa de óbito no mundo, em qualquer lugar, apesar de mais recursos diagnósticos e de novas terapias. Alguns fatores de risco são modificáveis e é nesses fatores de risco que não há uma intervenção ou um controle adequado, porque depende muito de mudança de estilo de vida. Se você pensa, falando de infarto e morte súbita, existe um fator de risco genético e isso é imutável, não tem como interferir, mas tabagismo, diabetes, dislipidemia, que é o aumento de colesterol não controlado, sedentarismo são fatores modificáveis. 

Então, apesar de a gente saber tudo isso, a gente é um país que ainda tem muitos sedentários, a gente é um país que tende a ter obesos. A gente tem muito mais gente com acesso à informação e à saúde, mas não há mudança de estilo de vida. Uma outra coisa é a adesão ao tratamento. Não é incomum a pessoa passar por todas as etapas, conseguir ter a receita e não seguir adequadamente o tratamento porque não acha que é importante ou porque acha que aquele fármaco não está fazendo bem ou está interferindo em outra coisa.

O senhor mencionou os pacientes usando ChatGPT. Há uma grande expectativa sobre o uso da inteligência artificial no setor saúde. Em que áreas o senhor acha que ela tem mais potencial? O Sírio-Libanês está usando algumas dessas ferramentas?

Acho que tem várias frentes que a gente pode usar IA em benefício de todo o sistema: em triagem de pronto-socorro e alertas para deterioração clínica de pacientes, por exemplo. A gente sabe que um paciente internado, antes de evoluir para uma situação catastrófica, já dá sinais de 12 a 24 horas antes. Às vezes, eles não são muito relevantes para a equipe, mas quando você coloca junto esta informação, você tem preditores de um prognóstico adverso.

Na área de radiologia, a inteligência artificial tem sido usada para uma série de coisas: detecção de nódulos, perfis de imagens que sugerem um desfecho pior. Do ponto de vista de gestão de fluxo de pacientes, também: a inteligência artificial hoje consegue trazer para a gente uma inteligência de alocação de agendas, predição de população que falta mais. Então, tem muita iniciativa começando, e a gente tem que saber qual é o limite delas.

Esses exemplos que o senhor citou já estão sendo usados no Sírio-Libanês?

Em agendamento, apoio a (exames de) imagem, apoio a protocolos clínicos e deterioração de situações em pacientes internados.

E tem alguma outra área que vocês ainda não estão usando mas que veem um futuro promissor?

A inteligência artificial para tirar etapas do atendimento do profissional, a gente ainda não pensa nesse caminho. A gente está pensando em como utilizar, na verdade. Porque como é que eu modulo a inteligência artificial na prática? Como eu garanto que eu não tenha alucinações ou desvios da inteligência artificial? Mas neste momento a gente está sendo bastante crítico e estudando para saber quais perspectivas ou em quais frentes a gente vai poder usar.

Hoje, eletrocardiogramas com laudo normal, a inteligência artificial consegue analisar e prever se aquele paciente vai ter uma insuficiência cardíaca daqui a cinco ou dez anos. Não é que o médico não enxerga, mas na análise convencional de um exame como o eletro, ele dá o laudo como normal. Mas a inteligência artificial consegue analisar desvios que nós não percebemos e pode prever uma insuficiência cardíaca no futuro.

No ecocardiograma, análises conseguem predizer algumas patologias que a análise clínica não consegue ver. Então, tem muita coisa por aí, mas a gente não implantou isso, isso está sendo discutido, as sociedades de especialidade têm discutido isso, como usar esse dado para realmente incorporar na prática clínica da área.

Estudantes de Medicina precisam aprender o que é evidência científica de fato, diz diretor do Sírio – Estadão

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV(em renegociação), sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes e SLM veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Se tiver interesse em gêmeos digitais para a indústria procure a Neo Vision – Captura Digital da Realidade

Se o interesse for em IoT, o caso é com a 2Solve

Deixe um comentário