IA elimina gerências intermediárias e transforma trabalho em competição pelo 0,1% do topo
Mercado de trabalho irá se parecer cada vez mais com plataforma de freelancers
Álvaro Machado Dias – Folha – 21.set.2025
Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind
O princípio de Peter diz que profissionais esforçados são promovidos até cargos onde se tornam incompetentes. Isso explicaria a má qualidade da maioria dos chefes. Mas é uma meia-verdade. Além do nepotismo e das más contratações, existe outro fator: técnicos ruins são transferidos para funções administrativas. Quando surge uma vaga de chefia, essa experiência se torna vantagem competitiva. É o verdadeiro princípio de Dilbert.
A gerência é o pato manco do universo corporativo. Em 2021, quando os governos das economias avançadas ativaram seus generosos planos de resgate da classe média, um estudo da MIT Sloan mostrou que “cultura corporativa tóxica pesa dez vezes mais do que salário na decisão de se demitir”, sendo que tal toxicidade é invariavelmente projetada no superior.
Esses fatores justificam publicamente por que essa faixa de cargos entrou na mira da IA —uma tecnologia comercializada por companhias com muito menos elos hierárquicos por bilhão faturado do que seus compradores. O motivo real é mais prosaico: substituir gerentes, independentemente do seu mérito, permite cobrar muito mais pela transformação tecnológica do que apenas substituir estagiários. E pode ser prejudicial para as empresas.
Embora as gerências sejam o grande repositório dos “bullshit jobs” de David Graeber, organizações horizontais costumam ser menos eficientes do que as verticais. A hierarquia corporativa é uma invenção militar baseada na formação de capatazes. Ao assumirem cargo de mando, muitos passam a defender metas e regras com mais rigor do que os próprios donos do negócio. Nas estruturas mais planas, esse zelo pelo patrimônio alheio é raro, o que torna os escândalos reputacionais e a improdutividade mais comuns.
Essa não é a única função do organograma. Corporações funcionam por planejamento central e salários previsíveis, mantendo às margens as flutuações do mercado. Isso permite que as pessoas que lhes dedicam a vida tenham planos de carreira pela via das cadeias de comando e controle, o que não é possível na economia gig, como todo motoboy sênior sabe.
O papel mais profundo da inteligência artificial nas empresas será aposentar esses sonhos de ascensão. A tecnologia vai desconstruir as gerências intermediárias, que permanecerão nos quadros executivos, mas desaparecerão como degraus de prestígio e remuneração. E o mercado de trabalho irá se parecer cada vez mais com uma plataforma de freelancers de margens infinitas, onde a habilidade de entregar algum diferencial aqui e agora é o que conta.
Na China atual, “200 milhões ou 40% da mão de obra urbana dependem de trabalhos flexíveis”, mas isso é só um prenúncio. Quando a automação atingir nos escritórios a proporção que tem no chão de fábrica é que de fato as coisas vão mudar, por meio de agentes que criam tarefas, avaliam resultados e, onde a legislação trabalhista permitir, dispensam e recontratam.
Para alguns, será libertador. Trabalhadores comuns operarão em células coordenadas logicamente, enquanto talentos excepcionais formarão departamentos de um só. No entanto, a insegurança será grande e a concorrência, coreana: as novas arquiteturas de poder criarão discrepâncias de rendimento capazes de fazer as de hoje soar como práticas de uma economia planificada.
Adeus, plano de carreira – 21/09/2025 – Álvaro Machado Dias – Folha
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