Cansados da hiperconexão, jovens aderem à tendência de usar o silêncio digital como forma de expressar exclusividade
Por Alexandre Barreto – Estadão – 14/11/2025
Cada vez mais jovens estão optando por “viver no off”, mas agora o gesto ganhou outro sentido: desconectar virou símbolo de status. Mesmo sendo a geração mais digital da história, a geração Z transformou o ato de silenciar notificações, ignorar mensagens e sumir das redes em uma forma de ostentar exclusividade e controle – como se estar offline fosse o novo luxo em meio ao excesso de conexão.
A tendência também se reflete no Instagram e TikTok: nos últimos três meses, centenas de postagens com a frase “viver no off é o novo luxo”, mostrando paisagens, cafés e encontros presenciais, foram publicadas por diferentes usuários.
Uma pesquisa nacional da Pluxee, divulgada em agosto de 2025, aponta que 67% dos mais de 2,9 mil entrevistados reduziram o tempo de uso nas redes, desativaram ou até excluíram seus perfis. O movimento é puxado principalmente pelas pessoas de 18 a 24 anos, que lideram o hábito de passar menos tempo conectadas às redes sociais.
Júlia Moura, 23 anos, começou a tratar o offline como um status social em 2024. Ela conta que, desde então, passou a ser mais procurada pelas pessoas. “Meus amigos me chamam mais, querem saber o que estou fazendo. É algo que não rolava antes. O interesse surgiu depois que comecei a ficar off”, diz.
Para você
A jovem afirma que estabeleceu limites de tempo e só abre o WhatsApp pela manhã e à noite. Ela usa uma conta anônima para acompanhar publicações no Instagram e no TikTok, mas deixa seu perfil original desativado. “Acredito que é chique ter essa postura. Eu era daquelas pessoas que postava tudo: os pratos que comia, os lugares ‘aesthetic’ que ia, só para engajar no feed. Até digo para algumas amigas que sumir é uma forma de ostentar, já que nem todos conseguem”, conta Júlia.
À frente da HAPU, agência que aproxima marcas da geração Z, a especialista Rafaela Varella diz que conseguir se desconectar virou um privilégio hoje em dia. “É um novo tipo de luxo: do tempo, da atenção e da tranquilidade. O modo ‘não perturbe’ acabou se transformando em um símbolo de status moderno, ele representa o poder de escolher quando estar disponível e quando não estar”, conta.
Ela ainda aponta que, em um ambiente em que tudo é registrado e compartilhado, a forma como os jovens escolhem se mostrar ou não se tornou uma estratégia de identidade. Varella diz que escolher não se expor virou um gesto de afirmação, e o “não estar lá” também comunica. “É uma forma de dizer que eu existo para além do que posto”, afirma.
Por que ficar offline se tornou algo tão valorizado?
O excesso de estímulos digitais tem alimentado um fenômeno recente descrito por pesquisadores da Universidade de Oxford como brain rot, o esgotamento mental causado pelo fluxo constante de conteúdo. O termo define o impacto da exposição contínua a informações e notícias negativas, que tem deixado a geração Z cada vez mais sobrecarregada e desmotivada.
O psicólogo e especialista em psicoterapia Gabriel Mendes, formado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), explica que boa parte das vivências das novas gerações acontece no mundo virtual. Segundo ele, o acesso constante a distrações digitais cria a sensação de estar “sempre disponível”, o que gera cansaço e enfraquece as relações presenciais. “Essa digitalização da vida, em nome da suposta praticidade que o online traz, fez com que nos tornássemos cada vez mais dependentes da conexão virtual”, diz.
E nesse sentido, muitos jovens têm decidido se desconectar: apagam suas contas, trocam o smartphone por celulares de flip, redescobrem hobbies e adotam um estilo de vida mais simples. Câmeras analógicas, livros de bolso e até os chamados “dumbphones” voltaram a fazer parte do dia a dia dessa geração. “Esse tipo de produto renasce justamente da necessidade de simplificar e reconstruir uma relação mais saudável com a tecnologia”, explica Rafaela Varella.
Assim conseguir ficar off vira uma peça de luxo — nem que seja uma desconexão meticulosamente controlada e planejada.
Ficar offline não é só uma tendência, é uma nova expressão cultural
Queren Hapuque, especialista em comportamento da geração Z, observa de perto as transformações e tendências na forma como os jovens se relacionam com o mundo e com o consumo. Ela explica que o ato de “ficar off” deixou de ser apenas uma escolha pessoal e passou a ser uma expressão cultural.
“Existe um valor social associado a quem escolhe estar menos presente nas redes, e isso acabou se traduzindo em estética. Essa ideia surge nas escolhas de lazer, como cerâmica, jardinagem e clubes de leitura, que remetem ao analógico e comunicam uma mentalidade de ritmo próprio num mundo acelerado”, diz Queren. Assim, estar desconectado da internet passou a ser visto como um ostentação pessoal para muitos jovens: é a liberdade de usar a tecnologia por escolha, e não por necessidade.
Para Carlos Ramos, 21 anos, “tudo é um status”. Ele diz que, hoje em dia, as pessoas que afirmam estar desconectadas passam a impressão de encarar isso como um luxo e até se vangloriam por isso. O jovem costuma ficar offline como uma forma de preservar a privacidade e se sentir mais exclusivo. “Eu deixo muita gente sem resposta e as pessoas cobram. Eu não fico esperando resposta de ninguém”, conta. “Uso o off quando quero curtir o momento sem pensar em like, comentário ou visualização. Quero aproveitar de verdade”, complementa.
A pesquisa da Pluxee, realizada em maio de 2025, mostra que o uso diário das redes também caiu entre os entrevistados: 51% no Facebook, 48% no Instagram e 41% no TikTok. A maioria dos brasileiros passa no máximo duas horas por dia online e pretende reduzir ainda mais, motivada pela ansiedade e pela sensação de perda de tempo.
“O que a gente tem percebido é que a presença digital dessa geração está cada vez mais pautada por intenção. A gen Z continua muito conectada, mas agora de forma mais consciente. Ela quer que o digital reflita quem ela é, e não o contrário”, pontua Queren. “A desconexão virou um novo código cultural. Tudo hoje reflete essa vontade de dominar o próprio tempo, de viver de um jeito menos padronizado e mais autêntico”, explica
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