Numerosos estudos mostram que a leitura está em queda livre mesmo em países ricos, como nos EUA e no Reino Unido
Por Isabel Clemente – Valor – 17/10/2025
Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London
Estamos mesmo caminhando para uma sociedade de iletrados, incapazes de ler e interpretar um texto mais longo, de pensar com os próprios neurônios ou de focar numa tarefa intelectual que demande um pouco mais de tempo e massa cinzenta?
Num artigo intitulado “O surgimento da sociedade pós-letrada”, James Marriott, colunista do “Times” inglês, traça um cenário bem pessimista. Ao analisar historicamente o interesse pela leitura, desde a invenção da imprensa em meados do século 18, quando os livros deixaram de ser um privilégio das elites, ao atual descaso generalizado, Marriott adota um tom alarmista. Ele nos lembra que aquela revolução foi “uma democratização sem precedentes da informação; a maior transferência de conhecimento para as mãos de homens e mulheres comuns da história”. Marriott argumenta que a realidade impressa é “ordeira, lógica e racional” porque os livros “classificam o conhecimento” e que, agora, trezentos anos depois, na era digital, “os livros estão morrendo.” Com vários outros exemplos sobre uma geração com vocabulário limitado e perdas cognitivas, o que se vê, diz, é “uma tragédia intelectual”.
E a tragédia afeta a indústria. O mercado editorial passa por adaptações – algumas considero graves, como a substituição do trabalho humano pelo você sabe o quê, quando capas, revisão, textos são terceirizados para a inteligência desumana, sem personalidade. Por mais avançados que os programas estejam, eu detecto na hora a diferença para pior. Mas muita gente não reclama, argumenta um amigo do mercado. É uma escolha de Sofia. Diante de vendas em queda – para não falar de dumping, aquela prática desleal que parece não chatear mais ninguém, quando um livro é vendido abaixo do custo da editora ou de livrarias de rua –, em quem apostar? No conteúdo excelente ou no autor com milhares de seguidores, ainda que escreva bobagem?
Eu, às vezes, recebo pedidos de ajuda de pessoas que não fazem a mínima ideia sobre como publicar seus livros. Sonham em vê-los por aí editados. Mas é cada vez mais difícil para uma pequena editora bancar um livro. Geralmente, os autores precisam investir.
Ao mesmo tempo, acompanho com algum entusiasmo as iniciativas que botam as pessoas para ler. Sabe aqueles vídeos que mostram dezenas de pessoas reunidas num parque em Londres para ler juntas? Sonho. Queria repetir isso por aqui. Infelizmente, quando vemos estatísticas de bestseller, não temos como saber quantas pessoas leram o livro que compraram, o que nem sempre é por falta de mérito do livro. Eu mesma tenho livros esperando por mim nas prateleiras. Uma hora, leio. Outras tantas pessoas compram por comprar. Livros comprados e não lidos reforçam o ocaso do artigo de James Marriott? Ou são um mal menor?
Marriott chama tudo isso de contrarrevolução. “Numerosos estudos mostram que a leitura está em queda livre. Mesmo os críticos mais pessimistas do século 20 da era das telas teriam dificuldade em prever a magnitude da crise atual.” Ele cita pesquisas mostrando que as pessoas estão desistindo de ler por prazer nos Estados Unidos, no Reino Unido, onde o índice de literacia sempre foi mais alto do que o brasileiro. Exames internacionais mostram perdas cognitivas em jovens que passam cada vez mais horas diante das telas.
Bem, eu li esse artigo na tela do meu celular. Leio livros digitais e todos os jornais que assino no computador. Faltam pesquisas qualitativas sobre o que fazemos com nosso tempo de tela?
Já triste e desencantada da vida, terminei de ler o artigo de Marriott, pensando o que dizer para o amigo que me enviou o texto perguntando minha opinião. O amigo é um homem da ciência, pHD, radicado há anos no Canadá. Pensando nele e nas pessoas que continuam produzindo conhecimento enquanto o deserto da leitura se espalha, concluo que não somos um bando de iletrados, afinal. E que, se é verdade que, para cada ação, há uma reação de igual força no sentido contrário, é questão de tempo vermos uma nova revolução. Mais auspiciosa, claro. Está aí a comida de verdade brigando contra a ultraprocessada e outros exemplos.
Há pouco mais de 40 anos, as tartarugas estavam na lista dos animais que corriam risco de desaparecer. Foi preciso um trabalho árduo de dezenas de ativistas para reverter a situação. Não foi da noite para o dia, nem de uma hora para outra, mas isso me traz alguma esperança. Precisamos urgentemente de um trabalho consistente e uma campanha em defesa das pessoas leitoras, para que elas não entrem em extinção. E aí, não me leve a mal, eu acho que ler bobagem também faz parte dessa ação.
Isabel Clemente é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e é mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London. E-mail: isabelclemente.writer@gmail.com
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