Talento é dinheiro, e o Brasil não investe


No século XXI, capital humano de alto talento é o ativo mais escasso e valioso

Por João Batista Oliveira – Valor – 01/10/2025 

Artigo no “New York Times” de 25 de setembro alertou que a decisão do governo Trump de taxar o visto de estrangeiros altamente qualificados pode levar empresas americanas a deixar o país. Recado dado: talento é dinheiro. Num mundo em que a vantagem competitiva depende de ciência e tecnologia, cada jovem de alto desempenho é um ativo raro — capaz de criar novas indústrias, sustentar clusters de inovação e multiplicar o PIB de uma nação. Em média, cada portador do visto H1-B gera US$ 800 mil em redução do déficit americano, segundo cálculos do Manhattan Institute.

Ajay Agarwal e colegas identificaram as estratégias mais refinadas para identificar talento de altíssimo nível. Eles acompanharam 37 mil participantes das Olimpíadas Internacionais de Matemática e Ciências desde 1959, as mais prestigiosas do mundo e mostraram que medalhistas de ouro da Olimpíada Internacional de Matemática — uma fração ínfima dos estudantes do planeta — respondem por cerca de 5% de todos os grandes prêmios científicos do mundo, como Nobel e Medalha Fields. Ou seja: há ouro de diferentes quilates e instrumentos eficazes para garimpar esse “ouro”.

Competições de física, química ou programação funcionam como verdadeiros radares, identificando jovens que depois lideram centros de pesquisa, fundam startups ou comandam empresas de tecnologia. Coreia do Sul, Israel e Cingapura transformaram essas competições em estratégia nacional: do pódio escolar saem programas especiais de treinamento, bolsas dirigidas e parcerias com universidades. O elo é claro — do pódio para os polos de inovação. Identificar talentos desde cedo é garantir participação de um país nos futuros centros de produção de riqueza global.

Talentos não surgem do nada. Campeões olímpicos não se formam nas Olimpíadas; apenas se revelam. Até chegar lá foram anos de investimento. Não é por acaso que certos países produzem mais desses jovens e outros conseguem atraí-los em maior intensidade.

O Brasil está fora desse jogo. Apenas 1% dos nossos estudantes superam 600 pontos em matemática no Pisa, contra 6% a 12% em países desenvolvidos. Não temos celeiros para produzi-los. E por isso também não temos “fuga de cérebros” poissequer os cultivamos. Perdemos, silenciosamente, a chance de transformar potenciais extraordinários em criatividade e valor econômico.

A Olimpíada Brasileira de Matemática (OBMEP) é uma exceção notável. Criada em 2005, mobiliza anualmente mais de 18 milhões de alunos da rede pública. Pesquisas mostram que até uma menção honrosa aumenta a confiança dos participantes e de seus colegas. Mas falta a etapa anterior — a identificação precoce — e a seguinte — transformar entusiasmo em mecanismos de formação de elite. Sem continuidade, desperdiçamos o que deveria ser tratado como investimento estratégico.

O contraste internacional é evidente. Nos EUA, por exemplo, há processos para identificar alunos a partir dos 3 ou 4 anos de idade. Universidades disputam medalhistas como se fossem atletas. Empresas acompanham de perto essa cadeia e absorvem os melhores para pesquisa aplicada. Diversas províncias do Canadá fazem identificação universal no início da escolaridade, seguida de apoio sistemático a alunos de alto talento. Israel, China, Rússia e outros países adotam estratégias similares para identificar e promover indivíduos excepcionais, dentro do sistema escolar ou em escolas especializadas. Há um mercado internacional de procura dos que se destacam.

Identificar talentos desde cedo é garantir participação de um país nos futuros centros de produção de riqueza

Além de falta de cultura e de oportunidades para identificar talentos, corremos outros riscos. Um deles é o imediatismo — alunos talentosos são descobertos em olimpíadas — mas se contentam com ganhar uma bolsa de estudo numa escola privada apenas melhorzinha. Uma vez formados, esses poucos jovens de altíssimo talento desviam para carreiras mais rentáveis que a pesquisa científica. Em vez de ampliar a fronteira do conhecimento, muitos são atraídos para o mercado financeiro, empresas de tecnologia ou consultorias. É uma escolha racional individualmente, mas representa perda coletiva: cérebros escassos e preciosos se dedicam a aplicações de curto prazo. Para um país que já forma poucos, trata-se de desperdício inaceitável.

À falta de políticas públicas, sobrevivem iniciativas pontuais. Escolas como Farias Brito e Ari de Sá, no Ceará, ou o Instituto Lumen, em São José dos Campos, criaram ambientes seletivos de alto desempenho, à semelhança de escolas americanas que concentram finalistas da Olimpíada Internacional de Matemática. Funcionam como “viveiros de campeões”, criando pares de referência e acelerando a aprendizagem. Iniciativas como o as do Ismart, Instituto Ponte, Instituto Apontar procuram abrir brechas para identificar e tentar ajudar alunos carentes de alto talento. Mas não há política pública. Até hoje apenas um município brasileiro adotou diagnóstico universal de crianças como passo inicial para estabelecer uma política consistente para identificar e promover indivíduos de alto talento.

O caminho é conhecido: identificar cedo, oferecer apoio, criar oportunidades em ambientes desafiadores junto a outros colegas talentosos. Cada município pode adotar estratégias próprias, mas os passos essenciais são os mesmos: combinar testes padronizados com olimpíadas e avaliações nacionais, investir em tutoria, escolas de referência e parcerias com universidades. Não é elitismo, é reconhecer que alguns aprendem mais rápido e precisam de desafios à altura. Mantê-los em escolas ruins é decretar uma pena de morte intelectual.

A mensagem é simples. No século XXI, capital humano de alto talento é o ativo mais escasso e valioso. Países que entenderam isso criaram políticas de identificação precoce, escolas e programas seletivos e pontes diretas para universidades e empresas. O Brasil, se quiser romper a mediocridade, precisa fazer o mesmo. Caso contrário, seguirá à margem da economia do conhecimento — e pagará caro pelo talento não revelado, na inovação que não acontece, nas empresas que não surgem e na riqueza que não deixou de ser criada.

João Batista Araujo e Oliveira é presidente do Instituto IDados

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