Funções que eram a porta de entrada para o setor agora são feitas por inteligência artificial. Programadores, engenheiros e cientistas de dados devem ser os mais atingidos
Por Carolina Nalin — O Globo – 07/09/2025
O rápido avanço da inteligência artificial (IA) generativa está redesenhando o mercado de trabalho em muitos setores, mas, pela primeira vez, essa revolução digital afeta os próprios profissionais de tecnologia. Ferramentas de IA capazes de escrever códigos, corrigir erros e sugerir melhorias já assumem tarefas que, nos últimos anos, foram a porta de entrada para os iniciantes na tecnologia da informação (TI). Para especialistas, trata-se de um paradoxo: o atual salto tecnológico coloca sob risco quem o provocou.
Programadores, engenheiros e cientistas de dados tendem a ser os primeiros substituídos por máquinas. Nos EUA e na Europa, big techs já cortam vagas para compensar os altos investimentos em IA. No Brasil, o cenário é outro: tecnologia ainda é o setor que mais abre oportunidades. A Brasscom, associação das empresas de TI no país, projeta a criação de 88 mil empregos formais até o fim deste ano. A demanda seguirá em alta.
Oito em cada dez empresas do setor pretendem contratar nos próximos dois anos, e quase metade vai focar em estagiários e iniciantes, segundo pesquisa da Brasscom com a Fundação Telefônica Vivo. Isso porque ainda há no Brasil um descasamento de 30% entre novas vagas e recém-formados na área. No entanto, habilidades decisivas há pouco tempo agora dão lugar à exigência de outras competências desses profissionais sob a influência da IA.
Não basta ter domínio das linguagens de programação, é preciso saber trabalhar com sistemas de IA. O programador clássico, que na última década escrevia seus códigos de forma “braçal”, agora dá lugar a quem sabe orquestrar algoritmos e consegue pensar além deles. O perfil demandado mudou. Criatividade, por exemplo, será mais importante nos próximos cinco anos que a simples análise de dados.
— Funções repetitivas como suporte técnico básico e analista de testes manuais de software já são impactadas pela IA e perderam relevância. Até porque essas novas tecnologias substituem o trabalho mais operacional dos desenvolvedores — afirma Elisa Jardim, gerente da consultoria de recrutamento Robert Half, citando habilidades em machine learning (aprendizado de máquina), cloud (computação em nuvem) e cibersegurança como mais procuradas pelas empresas. — Quem se atualiza e busca entender novas tecnologias tem boas chances de se recolocar. Mas não basta ser só um conhecedor de IA. Os profissionais precisam de pensamento crítico e conhecimento de diversas áreas. Entender aspectos sociais e éticos também é essencial.
‘Bengala’
Se a régua já subiu na hora de contratar profissionais de TI, a adaptação para os que estão em início de carreira tem sido um processo cheio de incertezas. A IA já é aliada indispensável para acelerar tarefas, mas saber equilibrar seu uso no dia a dia ainda é um desafio.
Formado em Física pela Unicamp em 2019, o cientista de dados Giulliano Pastor trabalhou nos últimos anos em duas instituições financeiras. Viu de perto a popularização de sistemas como ChatGPT e Cursor, trocando com colegas impressões sobre até que ponto cada um se apoiava neles. Com o tempo, ele se acostumou a delegar tarefas mais complexas à IA, o que lhe abria tempo para outras funções, como a de planejamento.
— Antes tínhamos que escrever linha por linha (do código). Agora não. Você diz para a IA: “Preciso que o código faça isso e aquilo”, e ela faz o bloco de código pra você. Isso é muito prático, então ficou fácil depender disso — conta.
Mas essa dependência cobrou dele um preço. Desligado há pouco mais de um mês, participou de um processo seletivo em que o uso de IA no teste era proibido. Travou em tarefas que considera simples.
— Foi um pouco chocante. Eu me deparei com questões que eram fáceis, mas, por eu depender da IA durante algum tempo para executar as tarefas, fiquei travado por ter que escrevê-las do zero. É como se eu precisasse daquela “bengala” — diz Pastor, que ouviu algo parecido de colegas. — Muitos se sentem com “síndrome do impostor” ao delegar tudo para a IA e não se sentem mais programadores.
Mercado de trabalho de tecnologia — Foto: Editoria de Arte
Agora, Pastor decidiu refazer o caminho. Voltou às videoaulas de Python para resgatar fundamentos e às competições de programação em sites para testar habilidades.
Giovanni Bassi, um programador com 30 anos de experiência, diz que a IA avançou a tal ponto que pode assumir algumas tarefas simples antes destinadas a profissionais juniores, trazendo o risco de corte de vagas na base. Mas, para ele, não deveria ser assim:
— Sem abertura para iniciantes, como teremos os profissionais seniores no futuro?
No Pitang Labs, laboratório de inovação tecnológica no Recife, o gerente de inovação Carlos Victor Gomes já não imagina sua equipe trabalhando sem IA. Com cerca de 400 colaboradores, a empresa está institucionalizando o uso de assistentes virtuais de código. E já colhe frutos: a produtividade cresceu 35%, e a geração de testes automatizados, 50%.
— Sinto que não tem mais volta. A IA acelera o trabalho e diminui a carga cognitiva. A gente está voando — ele diz.
Análise e ação
Segundo Gomes, a rotina do programador vem mudando. Antes, era necessário lembrar de todas as configurações para escrever um código numa espécie de bloco de notas. Depois, chegaram os IDEs (interfaces que passaram a completar funções e facilitar a navegação pelo código). Com a IA, os IDEs ganharam “esteroides”, ele define. Além de sugerir trechos, as ferramentas apontam erros, sugerem correções, indicam arquivos relevantes e até montam planos de ação.
Migrações complexas ficaram mais ágeis, a exemplo de um sistema de 20 anos feito em Delphi (ferramenta criada nos anos 1990 para desenvolvimento rápido de aplicações comerciais) que foi levado para a web em apenas seis meses. A IA também permite que provas de conceito sejam desenvolvidas em tempo recorde para clientes, diz Gomes:
— Sem apoio da IA, as pessoas vão ficar tão obsoletas que talvez programar sem ela não sirva mais. Ou só faça sentido em casos muito específicos ou extremamente complexos.
Ele conta que entrevistas de emprego no Pitang Labs já incluem perguntas sobre uso de IA. E acredita que algumas profissões cederão espaço no futuro para outras. A tendência, para Gomes, é saírem de cena postos de analistas de negócios e de requisitos. Ao mesmo tempo, engenheiros de prompt (que formulam os pedidos certos aos sistemas de IA) e de plataformas (que conectam fluxos e sistemas) devem ganhar destaque.
Universidades correm para contemplar novas exigências do mercado
Ainda é cedo para medir o impacto da IA no setor de tecnologia, mas a pressão também chega às universidades.
Para Jo Boaler, professora de Stanford (EUA) e idealizadora da abordagem “Mentalidades Matemáticas”, é preciso modernizar a disciplina e remover conteúdos sem utilidade. Ela diz que o ganho da IA seria devolver a professores e alunos tempo para fazer o que a máquina não faz: pensamento crítico, flexível e criativo.
— Alunos que aprendem a fazer perguntas críticas, a pensar com flexibilidade e a interpretar respostas da IA terão espaço no mercado — afirma.
No Porto Digital, no Recife, um dos principais polos de tecnologia do país, metade das 475 empresas lá instaladas usa IA no dia a dia, conta Pierre Lucena, presidente do hub. Para ele, o desafio não é saber se os profissionais vão adotar a IA, mas fazer a universidade acompanhar o ritmo de mudanças cada vez mais rápidas:
— As universidades estão estacionadas, e não só no Brasil.
Universidades parceiras do Porto Digital discutem formas de aprimorar a aprendizagem com auxílio da IA, conta Lucena. A expectativa é, a partir do ano que vem, ter ferramentas de IA em atividades práticas durante a residência no hub:
— A IA precisa fazer parte do dia a dia. Agora, mais que nunca, a educação vai ser fundamental. Se formava para processos repetitivos, agora precisa preparar para níveis de abstração muito mais complexos.
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O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa) lançou, no ano passado, seu primeiro curso de graduação que coloca a matemática em sintonia com a transformação tecnológica. O bacharelado Matemática da Tecnologia e Inovação combina teoria, ciências da computação e de dados e física. Mas 20% da carga horária é ocupada por humanidades e línguas, num esforço para estimular criatividade e visão mais ampla desse novo mundo. Para Marcelo Viana, diretor-geral do Impa, a dimensão humana é indispensável à formação, já que decisões críticas sobre a vida das pessoas têm sido tomadas pelos algoritmos das plataformas:
— Quem terá mais chances de prosperar no mercado futuro é quem tiver múltiplos talentos e capacidade de ser criativo e se adaptar a um cenário em mutação acelerada.
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