Gigantes como Google, Meta e Microsoft veem lucro disparar com a IA, enquanto editores de notícia colapsam — os luditas talvez estivessem certos
Por Guilherme Ravache, Valor – 01/08/2025
Os resultados mais recentes de Google, Meta e Microsoft mostram uma realidade incômoda: a inteligência artificial, longe de ameaçar o monopólio das big techs, está fortalecendo ainda mais o domínio das gigantes de tecnologia. Enquanto isso, o jornalismo — cuja produção alimenta muitas dessas ferramentas de IA — sangra silenciosamente.
As big techs estão gastando mais do que nunca em inteligência artificial, mas os retornos também estão aumentando nas áreas-chave dessas empresas, para alívio e alegria dos investidores.
A Alphabet (Google), a Microsoft, a Amazon e a Meta Platforms devem gastar quase US$ 400 bilhões apenas neste este ano em despesas de capital, principalmente para construir sua infraestrutura de inteligência artificial.
Segundo o Morgan Stanley, US$ 2,9 trilhões devem ser gastos entre 2025 e 2028 em chips, servidores e infraestrutura de data centers. Esses investimentos devem contribuir com até 0,5% do crescimento do PIB dos EUA neste e no próximo ano, afirma o banco.
Investimentos dessa magnitude em uma tecnologia que promete ser revolucionária, mas ainda com retorno financeiro difícil de calcular, deveriam ser uma preocupação para os investidores das gigantes de tecnologia. Porém, com o lucro crescendo nos negócios tradicionais dessas empresas, a aposta é que elas levam vantagem justamente por poderem gastar mais do que suas jovens concorrentes.
Recentemente aprovada, a Lei One Big Beautiful Bill deve impulsionar ainda mais os gastos. A nova legislacnao capitaneada por Trump oferece estímulos fiscais para empresas que antecipam investimentos, liberando fluxo de caixa para ampliar ainda mais os gastos na área.
Google evidencia desequilíbrio de poder econômico
Veja o exemplo do Google. A aposta de muitos era de que com o crescimento da IA, o domínio da empresa em resultados de buscas seria reduzido, mas o que aconteceu indica o oposto.
O CEO, Sundar Pichai, afirmou semana passada, após o anúncio de resultados do segundo trimestre da empresa, que os resultados de busca com resumos de IA agora têm mais de 2 bilhões de usuários mensais, um aumento em relação aos 1,5 bilhão registrados na última atualização trimestral.
“Vemos a IA impulsionando uma expansão na forma como as pessoas buscam e acessam informações”, disse Pichai em uma conversa com analistas, acrescentando que os recursos de IA “levam os usuários a buscar mais, à medida que descobrem que a Busca pode atender a mais necessidades”.
As impressões de busca — o número de links exibidos nas pesquisas, mesmo que não sejam clicados — aumentaram 49% no ano seguinte ao lançamento dos resumos de IA, conforme um relatório de maio da empresa de SEO BrightEdge.
De acordo com o Google, a receita com buscas cresceu 12% no segundo trimestre em relação ao ano anterior, atingindo US$ 54,2 bilhões, um recorde.
Em outras palavras, a busca do Google nunca esteve tão saudável — o que representa um desastre silencioso para quem produz o conteúdo consumido sem clique. Pesquisas apontam que com os resumos de IA, os cliques em links chegam a cair até 79%.
Menos funcionários e jornalismo; mais milionários
Na Meta, os números também animaram o mercado. As ações da empresa dispararam com a notícia de que a dona do Facebook, Instagram e WhatsApp viu seus lucros dispararem no segundo trimestre. A receita no período foi de US$ 47,5 bilhões, bem acima da expectativa de US$ 44,8 bilhões. É um crescimento de 22% em relação ao ano anterior. As ações subiram 12% no pregão seguinte ao anúncio.
A Meta atribuiu os bons resultados à inteligência artificial. “O forte desempenho neste trimestre se deve em grande parte à IA, que está trazendo mais eficiência e ganhos para o nosso sistema de anúncios”, disse Mark Zuckerberg, CEO da Meta, durante a divulgação dos resultados.
Na primeira metade de 2025, a Meta já investiu US$ 31 bilhões em despesas de capital (capex). A empresa projeta gastar entre US$ 66 bilhões e US$ 72 bilhões com data centers.
E os investimentos vão continuar crescendo. “Esperamos aumentar significativamente nossos investimentos em 2026”, disse a diretora financeira, Susan Li, durante a teleconferência de resultados.
Os resultados ajudam a explicar por que a Meta tem contratado uma elite de desenvolvedores de IA a peso de ouro. A estimativa é de que a empresa gaste nos próximos cinco anos mais de US$ 1 bilhão apenas com os salários de 12 engenheiros recentemente contratados para criar a superinteligência sonhada por Zuckerberg.
Anos atrás a Meta declarou guerra ao jornalismo e reduziu o alcance de links de notícias e exterminou a monetização de notícias em suas plataformas.
Microsoft: US$ 4 trilhões e crescendo
O valor de mercado da Microsoft ultrapassou os US$ 4 trilhões na quinta-feira, após a divulgação de resultados trimestrais espetaculares. A companhia gerou US$ 76,4 bilhões em receita no trimestre encerrado em junho, que corresponde aos últimos três meses do seu ano fiscal, elevando o total anual para US$ 282 bilhões. O mercado projeta que esse número chegue a US$ 320 bilhões nos próximos 12 meses, valor próximo ao PIB do Chile.
A receita anual combinada das seis maiores empresas de tecnologia deve alcançar US$ 2 trilhões este ano, o equivalente ao PIB da Rússia, a 11ª maior economia do mundo.
Mas se nações como o Chile precisam investir em escolas, saúde, educação e até em Forças Armadas, na Microsoft, como nas demais Big Techs, o investimento é focado em IA. A dona do Office anunciou planos de aumentar seus investimentos de capital para cerca de US$ 120 bilhões no atual ano fiscal, sendo a maior parte destinada à construção de data centers para inteligência artificial.
A Microsoft já possui um backlog de US$ 368 bilhões em contratos assinados apenas em sua divisão de nuvem. “Ainda estamos vendo a demanda aumentar”, disse a diretora financeira Amy Hood aos investidores durante uma teleconferência na quarta-feira.“Por isso, não estou tão preocupada em prever o momento exato em que o crescimento da receita e o crescimento do capex irão se cruzar”.
Na Microsoft, assim como no Google e na Meta, os altos lucros não vêm diretamente da IA, mas do crescimento de tecnologias em que elas já eram dominantes, mas que estão sendo aceleradas pelo maior uso de IA, como suas divisões de nuvem ou publicidade, com mais conteúdo sendo automatizado.
Demissões em big techs e no ecossistema que depende delas
Se por um lado investidores celebram os lucros e crescentes investimentos em chips e data centers, por outro, as gigantes de tecnologia têm acelerado cortes de pessoas em suas estruturas. Mostrar maior receita por funcionário está se tornando uma obsessão dos CEOs para conquistar o mercado.
Se os negócios das gigantes de tecnologia não tem sofrido com a IA, o mesmo não se pode dizer de quem depende dessas empresas, como os sites de notícias.
À medida que a IA entrega resultados cada vez melhores para as big techs, maior o incentivo para que se acelere a destruição de valor dos criadores de conteúdo e donos de direitos autorais.
A disposição das empresas de tecnologia em dividir os lucros da IA com os criadores e donos de conteúdos usados para treinar os grandes modelos de linguagem ou produzir respostas para os chats de inteligência artificial é inversamente proporcional ao dinheiro que entra no caixa delas.
Sites de notícias são canário da mina
A crise dos sites de notícias dá uma noção do atual desequilíbrio de forças. Nos próximos meses, uma onda de demissões deve acelerar nos veículos jornalísticos. No Brasil, e em diversos países, demissões e cortes de custos já estão em curso. Com o crescimento do efeito Google Zero, fechar as contas está cada vez mais difícil.
É válido dizer que os problemas de sustentabilidade do jornalismo já existem há décadas, mas a IA acelerou o problema de maneira assombrosa. Tão rápido que boa parte de quem está vivo provavelmente não terá tempo de se adaptar.
Se antes as empresas de mídia eram os sapos na panela esquentando, agora se assemelham mais aos dinossauros observando à chegada do meteoro. E, desta vez, o meteoro foi treinado com dados extraídos dos próprios dinossauros.
O efeito Google Zero é como tem sido descrito o desaparecimento do tráfego que chegava aos sites de notícias por meio das plataformas do Google. As visitas de leitores começaram a cair com os resumos de IA aparecendo cada vez mais nos resultados de buscas. Agora, esses resumos também começam a aparecer no Google Discover, o feed do Google com sugestões de conteúdos para os usuários de Android e Chrome e um dos últimos refúgios de audiência para quem publicava notícias.
“Parece brincadeira, mas o jornal em papel, atualmente, está se provando um negócio mais rentável e sustentável do que o digital”, diz um editor ao lamentar a queda de tráfego de mais de 70% que sofreu nos últimos quatro meses.
“Sem audiência, não há receita suficiente de publicidade digital”, continua o jornalista. “Não há perspectiva de retorno da audiência e nem da receita perdida, seremos obrigados a reduzir a equipe”.
Destruição criativa ou apenas destruição?
Os defensores da IA veem o movimento como mais um exemplo da destruição criativa. Então, a falência de grande parte dos publishers seria apenas um processo de inovações que vão substituir práticas, produtos e empresas antigas, gerando crescimento econômico ao mesmo tempo que causam a obsolescência de modelos anteriores.
Embora a inteligência artificial esteja transformando o jornalismo, o conceito clássico de destruição criativa não se aplica plenamente a esse processo. A IA está, de fato, substituindo tarefas jornalísticas — como redação básica, clipping e edição —, mas não está criando empregos, modelos de receita ou formatos inovadores no mesmo ritmo.
Diferente de outras revoluções tecnológicas, como a internet, que estimularam o surgimento de novos veículos e funções, a IA tem concentrado valor em grandes plataformas tecnológicas, sem reinvestimento proporcional no ecossistema jornalístico.
Além disso, o jornalismo não é apenas uma indústria — é um pilar da democracia, com uma função pública essencial: fiscalizar o poder e informar a sociedade. A erosão do jornalismo pelas ferramentas de IA ocorre em um cenário de assimetria de poder, onde veículos tradicionais não conseguem competir com empresas que detêm escala, dados e recursos incomparáveis.
O que vemos hoje é uma destruição sem criação estrutural equivalente, com impactos não apenas econômicos, mas também cívicos.
A destruição criativa, para fazer sentido, precisa criar algo além de riqueza para poucos. No caso da IA, o que se vê — até agora — é uma redistribuição brutal de poder, sem qualquer compensação social proporcional.
Luditas não eram contra a tecnologia
Na New Yorker, Ted Ching descreveu o momento que vivemos com a IA de maneira bastante instigante em um artigo intitulado Will A.I. Become the New McKinsey? (A inteligência artificial vai se tornar a nova McKinsey?):
“Pessoas que criticam novas tecnologias às vezes são chamadas de ‘luditas’, mas vale esclarecer o que os Luditas realmente queriam. O principal motivo do protesto era o fato de que seus salários estavam caindo, enquanto os lucros dos donos das fábricas aumentavam, assim como os preços dos alimentos. Eles também protestavam contra condições de trabalho inseguras, o uso de trabalho infantil e a venda de produtos de má qualidade que prejudicavam toda a indústria têxtil.
Os Luditas não destruíam máquinas indiscriminadamente; se o dono pagava bem aos trabalhadores, suas máquinas eram poupadas. Eles não eram contra a tecnologia — o que buscavam era justiça econômica. A destruição das máquinas era uma forma de chamar a atenção dos industriais. O fato de o termo “ludita” hoje ser usado como insulto — para sugerir ignorância ou irracionalidade — é resultado de uma campanha difamatória conduzida pelas forças do capital.
Sempre que alguém acusa outra pessoa de ser um “ludita”, vale a pena perguntar: essa pessoa é realmente contra a tecnologia? Ou ela está defendendo justiça econômica? E quem faz a acusação está de fato interessado em melhorar a vida das pessoas — ou apenas em aumentar a acumulação privada de capital?”
Talvez seja hora de recuperar o verdadeiro significado da palavra “ludita”. Quem realmente teme o progresso: quem questiona seus efeitos, ou quem teme repartir seus lucros?
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