Trump e seus aliados não compreendem a forte relação entre a excelência das universidades americanas e o histórico de inovação do país
Por Anne Krueger – Valor – 26/06/2025
Os ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Universidade Harvard e seus estudantes estrangeiros chocaram o mundo, não só por sua grosseria, mas também por sua evidente miopia.
Durante décadas, universidades de ponta como Harvard foram pilares do chamado “soft power” dos EUA. Muitos dos estudantes mais brilhantes do mundo aspiraram estudar em instituições americanas, e os melhores pesquisadores buscaram integrar seus quadros docentes. A própria Harvard representa o ápice do ensino superior americano – e global. Até mesmo o presidente chinês Xi Jinping decidiu enviar sua filha para lá.
Mas agora a maré está mudando. Acadêmicos de destaque estão deixando os EUA para escapar do clima de paranoia alimentado pelas políticas de Trump, e estudantes internacionais de alto nível, que antes tinham como meta universidades americanas como Harvard, Columbia e Northwestern – todas recentemente atacadas por Trump -, estão optando por outros países, temendo que sua formação seja interrompida.
As consequências poderão ser graves. Desde 2000, pesquisadores radicados nos EUA ganharam cerca de dois terços dos prêmios Nobel de Química, Física e Medicina – e 40% desses laureados eram imigrantes. É significativo que quase a metade dos imigrantes laureados com o Nobel nos EUA tenham feito seus estudos de pós-graduação em universidades americanas. Esses acadêmicos não só impulsionaram pesquisas inovadoras e elevaram o prestígio de suas instituições, como também atuaram como professores e mentores de estudantes americanos e estrangeiros, atraindo uma nova geração de talentos acadêmicos.
Além disso, essas interações interculturais ajudam os estudantes americanos a obter uma compreensão mais profunda de outras sociedades, ao mesmo tempo em que proporcionam aos seus colegas estrangeiros uma experiência em primeira mão da vida nos EUA. Muitos dos que estudaram nos EUA posteriormente retornam para seus países de origem e ascendem a cargos de destaque no governo, na academia e no setor privado. Até 2024, 70 chefes de Estado ou de governo haviam concluído parte ou toda a sua formação superior nos EUA.
Até recentemente, esses benefícios eram amplamente reconhecidos em todo o espectro político dos EUA. Um sistema bem estruturado – o Programa de Estudantes e Visitantes de Intercâmbio (SEVP, na sigla em inglês) permitia que instituições credenciadas recebessem alunos estrangeiros. O SEVP também possibilitava que graduados com visto de estudante permanecessem no país por até três anos para adquirir experiência profissional.
Mas, em uma impressionante demonstração de ignorância e má-fé, o governo Trump tentou retirar de Harvard a autoridade para matricular estudantes estrangeiros e até mesmo instruiu os consulados dos EUA a não processarem pedidos de visto daqueles que planejavam estudar na universidade – medida que foi bloqueada recentemente por um tribunal federal.
Desde 2000, pesquisadores radicados nos EUA ganharam cerca de dois terços dos prêmios Nobel de Química, Física e Medicina, e 40% deles eram imigrantes. Deram impulso a pesquisas inovadoras e atuaram como professores, atraindo nova geração de talentos acadêmicos
Essa incerteza é profundamente perturbadora para estudantes atuais e futuros. Aqueles que planejaram iniciar seus estudos em setembro poderão agora descobrir que é tarde demais para se matricular em outro lugar para o próximo ano letivo. Uma queda nas matrículas de estudantes estrangeiros não só prejudicará a pesquisa em instituições americanas, reduzindo o número de assistentes talentosos, como também enfraquecerá o fluxo global de futuros cientistas, diminuindo a profundidade e a qualidade da pesquisa em todo o mundo.
O que Trump e seus aliados não conseguem entender é a forte relação entre a excelência das universidades americanas e o histórico de inovação do país. Uma análise de 2022 constatou que mais da metade das startups dos EUA avaliadas em mais de US$ 1 bilhão tinham pelo menos um fundador nascido no exterior – e, em metade desses casos, o fundador chegou ao país como estudante.
Alguns apoiadores de Trump afirmam que impedir estudantes estrangeiros de se matricular em Harvard e outras universidades particulares abrirá mais vagas para estudantes americanos. Mas, embora umas poucas vagas adicionais possam surgir, o impacto deverá ser mínimo. Na verdade, como uma parcela significativa de estudantes estrangeiros paga o valor integral das mensalidades, sua ausência reduzirá os recursos disponíveis para bolsas e auxílios. Estudantes estrangeiros têm, na prática, subsidiado os alunos americanos que recebem ajuda financeira – uma fonte essencial de apoio que agora seria perdida.
Essas receitas perdidas são insignificantes em comparação com as contribuições mais amplas de Harvard e do sistema de ensino superior. O ensino universitário tem sido, há muito tempo, uma das principais fontes de exportação dos EUA, com muito mais estudantes estrangeiros vindo para o país, do que americanos indo estudar no exterior. Apenas no ano letivo de 2023-2024, os estudantes estrangeiros contribuíram com estimados US$ 44 bilhões para a economia americana.
É claro que Harvard e outras universidades não estão imunes a críticas. No entanto, desencorajar ou restringir as matrículas de estrangeiros seria uma perda profunda tanto para os estudantes e professores americanos quanto para os internacionais. Ao atacar as universidades de ponta, o governo Trump está minando uma das joias da coroa dos EUA e impondo um golpe sem precedentes ao motor da competitividade americana. (Tradução de Mário Zamarian)
Anne O. Krueger é ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-primeira vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), é professora sênior de pesquisa em economia internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e pesquisadora sênior do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade Stanford. Direitos autorais: Project Syndicate, 2025.
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