Dress code informal, valorização do tempo, autocuidado: quais mudanças nos escritórios vieram para ficar


Transformações que vêm acontecendo no mundo do trabalho englobam modismos e mudanças culturais

Por Stela Campos e Adriana Fonseca – Valor – 02/05/2025 

Quando foi chamado para trabalhar no Itaú, em 2011, para ocupar o cargo de superintendente de inovação digital, o designer Fabricio Dore teve que comprar um terno. A vestimenta que constava no “dress code” do banco como obrigatória naquela época não fazia parte da sua realidade.

“Eu morava fora do Brasil, sou designer, me vestia como um designer.  Cheguei ao banco, nunca tinha tido um terno. Comprei um para poder ir trabalhar”, relembra.

Hoje liderando um time de 900 pessoas e ocupando a cadeira de Chief Design Officer no Itaú, depois de um período fora do banco, ele se veste de maneira bem mais informal para trabalhar – até um tênis laranja faz parte de suas escolhas quando vai ao escritório. “Parecem coisas bobas, mas são importantes, [porque transmitem um] sentido amplo da diversidade, [de poder] ser quem eu sou no ambiente de trabalho.”

Para ele, a roupa é um aspecto simbólico das transformações pelas quais o mundo do trabalho passou nos últimos anos. “[O terno ] representava esse comportamento de que havia formalidade maior nas relações entre as pessoas”, diz. “Antes era um ambiente em que as pessoas colaboravam pouco, e hoje a colaboração é tudo.”

O Itaú aboliu o “dress code” em 2018, de maneira formal. Sergio Fajerman, Chief People Officer no banco, conta que a empresa não queria que os funcionários fossem “a pessoa fora do trabalho, a pessoa dentro do trabalho”. “Sou um com a família, coloco uma armadura, viro executivo e vou para o trabalho. O banco queria a pessoa do seu jeito.”

O mundo corporativo demorou a aceitar, por exemplo, que as tatuagens não eram um sinônimo de rebeldia e podiam destoar nos escritórios. “Antes, quem ia entrevistar alguém de tatuagem para o mercado financeiro olhava torto”, conta Cláudio Garcia, que já atuou no mercado de outplacement e hoje dá aulas de gestão global e estratégia na Universidade de Nova York. “As pessoas cobriam a tatuagem para ninguém ver, hoje é diferente”, diz.

A mudança na forma de se vestir é apenas a parte mais aparente de uma transformação que vem acontecendo no mundo do trabalho. A rigidez que se via nas roupas também se via na hierarquia corporativa e na forma de liderar pessoas. O mesmo ocorreu com a aparência dos escritórios.

Antes cheios de salas onde os chefes se isolavam dos funcionários, eles começaram a se transformar neste século, quando mesas de pebolim e pingue-pongue, além de pufes coloridos, passaram a fazer parte da decoração em um formato de andares sem divisórias, onde todos trabalham lado a lado.

“Essas mudanças eram uma manifestação de que ‘não dá mais essa rigidez’ do comando e controle, eram um sinal aparente, uma expressão que ia mostrando que as coisas estavam mudando”, afirma Bob Wollheim, vice-presidente da multinacional brasileira de tecnologia CI&T. Ele, que alternou ao longo da carreira os papéis de executivo e empreendedor, montou um escritório desses coloridos e inovadores nos anos 2000, quando era CEO da Ideia.com.

“As pessoas se influenciam pelo ambiente, é algo que impacta a cultura organizacional”, diz Wollheim, que, naquela época, andava de patinete pelos corredores do escritório. “O escritório que tinha vibe de jogo, do escorregador, coisas desse tipo, tinha uma simbologia mais profunda do que talvez se perceba, inclusive para a liderança tradicional, que às vezes não está 100% engajada naquilo, mas que talvez inibia seus sentidos mais retrógrados.”

Os tempos mudaram, e as mesas de pebolim e pingue-pongue são mais raras de serem encontradas. “Elas estão sumindo”, afirma Garcia. O “open office”, entretanto, continua firme. Mas o escritório de plano aberto não significa que a hierarquia foi totalmente superada. “Hoje as pessoas não têm mais sala, mas em determinadas organizações têm o andar”, diz Alessandra Lotufo, sócia diretora da Afferolab.

Ela explica que muitas vezes os mais seniores se agrupam em determinados andares, mesmo que o plano aberto tenha derrubado as divisórias das salas. “Antes se falava: ‘ganhei um escritório maior’, hoje as pessoas dizem ‘subi para o quarto andar’”, brinca.

O modelo “plug and play” do notebook, sem lugar fixo e com reservas pelos apps, emplacou depois da pandemia da covid-19. As cápsulas, às quais alguns se referem como casulos, que são pequenos espaços de silêncio, aos poucos estão sendo substituídos por várias salas pequenas de reuniões, pois hoje mais pessoas estão indo aos escritórios.

“Um pouco ficou, um pouco não”, afirma Rafael Souto, sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado. “Porque também se percebeu que os escritórios superlegais faziam as pessoas trabalharem muito, mas também que não é legal passar 15 horas no escritório. Foi algo disruptivo, mas começou-se a questionar o quanto mexia no modelo de vida das pessoas. Então hoje o que faz mais sentido e é mais valorizado é a flexibilidade.”

Nesse sentido, a discussão que ainda se faz sobre os modelos de trabalho – presencial, híbrido e remoto – ficou mais evidente no pós-pandemia, mas é consequência também de uma conversa que vem ganhando importância nas últimas décadas: o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.

Assim como a tecnologia passou a ser símbolo de status no mundo corporativo, do Blackberry ao Apple Watch, ela também ajudou a promover uma grande transformação na maneira de se trabalhar. O WhatsApp, que ganhou escala na pandemia, está instalado em 99% dos smartphones do país em 2022, segundo pesquisa da Business Messaging Research Study, e trouxe o trabalho para dentro do bolso ou para o lado da cama.

“Antes o Blackberry ficava piscando na hora do jantar, e eu deixava lá. O WhatsApp trouxe um senso de urgência que cruzou a fronteira entre o lado pessoal e profissional”, afirma Dárcio Crespi, conselheiro sênior e sócio-diretor da ZRG, consultoria global de talentos.

“Existe um awareness hoje que o ativo mais importante é o tempo”, diz Denys Monteiro, CEO da ZRG. Em 2019, muitos executivos influenciados pelo apelo dos diversos clubes das cinco horas da manhã, que se popularizaram pelo mundo, passaram a dormir e a acordar cedo com o objetivo de ganhar produtividade e disciplina em várias dimensões da vida.

Esse hábito de acordar antes das galinhas foi criticado na época por alguns executivos mais experientes do mercado financeiro, que chegaram a dizer que o pessoal morria de sono às quatro da tarde e que essa era uma moda passageira.

Acordar com o dia raiando para fazer exercício, no entanto, é uma prática que foi incorporada e persiste no alto escalão. Abilio Diniz (1936-2024) era um desses praticantes e serviu de exemplo para muitos outros.

Na busca por esse “work-life balance”, alguns executivos incluíram até os esportes de alta performance em suas vidas. Marcelo Zimet, CEO da L’Oréal no Brasil, foi um deles. Triatleta há cerca de oito anos, ele conta que no início da carreira dedicava muito tempo ao trabalho.

“É quando você está aberto a novos desafios, ‘assignments internacionais’, e abre mão de momentos pessoais para isso”, relata. Depois, ele continua, em um segundo momento, quando se constitui uma família, começa uma busca maior por equilíbrio: crescer profissionalmente e ao mesmo tempo dedicar tempo aos filhos. “Eu fazia esporte, mas mais de fim de semana.”

Então, conta Zimet, “chega um momento, quando se alcançam cargos maiores, e onde há mais pressão, [a gente] começa a se questionar”. “Abri mão muito de mim, para dedicar à carreira e à família, e me questionei, porque eu era apaixonado por esporte, mas só praticava no fim de semana”. Foi nesse questionamento, percebendo que havia deixado uma paixão para trás, que o executivo começou a se preparar para fazer triatlo. “Passei a pensar no corpo como uma máquina que precisava ser bem cuidada, para este momento e o futuro”, diz. Foram quatro anos de preparo até se sentir pronto para uma prova.

Para ele, esse preparo acaba virando uma filosofia de vida. “É um autocuidado, que no fim do dia é bom para você e para quem está perto de você”, diz. “No lado pessoal, estou mais disposto, melhor de saúde. No trabalho, tem gente que trabalhou comigo antes e depois, e as pessoas comentam que melhorei foco, disciplina, planejamento.”

Zimet, que treina antes do trabalho, comenta que, antes, era o primeiro a chegar e último a sair do escritório. “Hoje chego com todo mundo. Tenho uma agenda complexa e disciplinada, priorizando o que é importante no aspecto profissional, pessoal e da família.”

Essa mudança no perfil de muitos líderes, que hoje valorizam outros aspectos da vida além do trabalho, para ele, já está impactando as novas gerações. “Hoje, elas veem isso mais cedo, que o autocuidado é fundamental. Se um CEO consegue [fazer tudo isso], por que eu não vou conseguir também?”, diz Zimet.

“Por conta da percepção da longevidade, de que vai se trabalhar até os 100 anos, hoje existe uma preocupação de como vai se chegar lá”, diz Dárcio Crespi.

A preocupação com a saúde física e mental também ganhou novas dimensões com o crescimento de doenças do trabalho como o burnout, que foi reconhecido pela OMS em 2022. Mas, bem antes disso, muitos executivos já embarcavam na busca pelos beenefícios do mindfulness e da meditação.

Ligia Costa, especialista em mindfulness e autora do livro “Líder humano gera resultados”, explica que surgiram vários estudos científicos sobre o tema por volta de 2010 e que ele começou a se tornar mais presente no ambiente corporativo quando o Google lançou a metodologia Search Inside Yourself alguns anos depois.

O programa ajudava os funcionários da empresa de tecnologia a desenvolverem atenção plena e a fazerem uma gestão inteligente das emoções para melhorar produtividade, habilidades de liderança e o bem-estar geral. “O mindfulness ajuda na redução imediata do estresse e traz consciência para a respiração, ensinando as pessoas que elas podem pausar antes de responder”, explica Costa, dizendo que a reatividade impulsiva pode gerar situações inadequadas e desfavoráveis.

CEO da Pirelli Comercial na América Latina, Fabio Siricio encontrou no mindfulness a ponte para equilibrar as demandas da vida pessoal e profissional. Ele conta que se aproximou da prática em 2021, quando morava e trabalhava em Cingapura. “Foi um momento de muita intensidade profissional, e surgiram vários questionamentos pessoais”, diz. “Eu já praticava ioga, que ajudava do ponto de vista mais físico, e percebi que fazia sentido buscar uma forma para alinhar corpo e mente. As vozes que estão na nossa cabeça o tempo todo precisam ser silenciadas para termos calma, ainda mais quando se vive acelerado, com pressão de performance.”

Existe uma diferença entre os modismos, as tendências e as megatendências, como já definiu o estudioso do marketing Philip Kotler. O modismo é um processo lucrativo no curto prazo, pode até durar um tempo, mas passa. Uma tendência se estende por um tempo maior e pode atravessar uma década ou mais. Já uma megatendência está mais relacionada a uma transformação cultural, política ou tecnológica, seu período de influência pode durar bem mais.

Fazer reunião em pé para tornar os encontros mais rápidos e produtivos: modismo ou tendência? Poucas empresas seguem fazendo isso. E trazer celebridades para o conselho de administração, como fez o Nubank convocando a cantora Anitta e a Meta incluindo o presidente-executivo do UFC (Ultimate Fighting Championship), Dana White?

A presença de mulheres nos conselhos de administração, no entanto, vem crescendo na última década e parece estar alinhada com uma mudança cultural a longo prazo. Até 2019 as mulheres ocupavam 8,5% das cadeiras nos conselhos, percentual que subiu para 21% em 2024, segundo pesquisa da PwC e do grupo 30% Club Brasil. No mundo, essa presença feminina vem aumentando.

“Os homens ficaram um pouco aflitos porque antes eram disputados a tapa para serem conselheiros, e agora estão no último lugar da fila”, diz a headhunter Fátima Zorzato, CEO da INWI Consulting. “Tem muitas companhias discutindo essa entrada de mais mulheres. Diferente de uma moda, essa é uma prática efetivamente muito boa.”

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