Com amostra da vida sem internet em Portugal, há os que defendem que governos deveriam organizar apagões mensais


Sem internet, voltaríamos a ser humanos, como os nossos avós. Conversaríamos, olhos nos olhos, inteiros e sem interrupções, trocando histórias e festejando o milagre da vida

Por José Eduardo Agualusa – O Globo – 03/05/2025

Via Lactea vista sobre o Convento de Orada, em Monsaraz, parte da Reserva Dark Sky de Alqueva, na região do Alentejo, em PortugalVia Lactea vista sobre o Convento de Orada, em Monsaraz, parte da Reserva Dark Sky de Alqueva, na região do Alentejo, em Portugal — Foto: Miguel Claro/Visita Alentejo/Divulgação

O apagão em Portugal e Espanha teve um mérito inesperado: acendeu as pessoas.

A longa interrupção de energia elétrica, que, na segunda-feira passada, atingiu a Península Ibérica, trouxe o caos e a inquietação para as grandes cidades — crianças presas em elevadores, escolas fechadas, dezenas de voos cancelados, boatos terríveis, e muita gente assustada, fazendo fila diante das mercearias de bairro para comprar água, vinho tinto, comida enlatada e papel higiênico.

Ao entardecer, porém, o ambiente distendeu-se. Em Lisboa, de onde escrevo esta coluna, vi vizinhos, que nunca antes se haviam cumprimentado, conversando uns com os outros, sentados na calçada. Vi desconhecidos partilhando velas e lanternas; outros oferecendo água e alimentos aos menos prevenidos.

Embora os semáforos tivessem deixado de funcionar não testemunhei nenhum sinal de nervosismo. Os motoristas respeitavam-se uns aos outros. Respeitavam até mesmo os pedestres, até mesmo os ciclistas, numa cortesia rara para os padrões locais. Cheguei a me sentir em Berlim.

As esplanadas encheram-se de gargalhadas, ainda que os bares e restaurantes não tivessem como servir refeições quentes. As pessoas deixaram de olhar para a tela dos celulares — e começaram a prestar atenção umas às outras. Parecia um domingo numa cidade pequena, há 30 ou 40 anos, antes da invenção dos celulares.

Katie Flour, uma chef norte-americana, radicada na capital portuguesa, passou a manhã dessa segunda-feira em casa, assando um cordeiro e preparando saladas para um jantar pop-up num restaurante muito conhecido. Às 11 horas ocorreu o apagão. Ao final da tarde, percebendo que o jantar não iria se realizar, Katie colocou travessas com comida nos bancos de um jardim em frente, acendeu algumas velas, e convidou os vizinhos. Outras pessoas foram aparecendo, e o que poderia ter sido um fracasso se transformou num momento mágico, que Katie nunca mais esquecerá.

Além disso, por algumas horas, libertas da poluição luminosa, as estrelas voltaram. Na noite esplêndida, morna, acolhedora como um abraço, vi jovens deitados de costas, nos parques e nos jardins, apontando com espanto para o desenho das constelações. Talvez fosse a primeira vez que alguns deles viram estrelas.

Vozes mais românticas defendem que os governos deveriam organizar apagões pelo menos uma vez por mês. Não me atrevo a tanto. Contudo, talvez não fosse má ideia cortar o acesso à internet todas as semanas, por exemplo, nas noites de domingo.

Nesses domingos jurássicos voltaríamos a ser simplesmente humanos, como os nossos avós. Conversaríamos, olhos nos olhos, inteiros e sem interrupções, trocando histórias e gargalhadas e festejando a amizade e o milagre da vida. Em vez de tirarmos fotos do jantar para depois as postarmos no Instagram — comeríamos! Em vez de nos abraçarmos para as selfies — nos abraçaríamos! Em vez de nos preocuparmos com os grandes dramas do mundo, estaríamos atentos aos pequenos problemas daqueles que nos são próximos. E isso tudo — atenção! — sob a luz perpétua das estrelas.

Com amostra da vida sem internet em Portugal, há os que defendem que governos deveriam organizar apagões mensais

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