Por dentro da misteriosa ‘empresa mais poderosa’ da China


Jornalista do “Washington Post” lança livro que é um relato detalhado da companhia que se tornou um sinônimo da crescente supremacia tecnológica do país asiático e também um ponto crítico nas relações entre os EUA e a China

Por Eleanor Olcott – Valor/Financial Times – 13/01/2025 

É quase impossível passar um dia na China sem esbarrar em alguma parte do império da Huawei. A gigante de tecnologia chinesa vende uma variedade de produtos eletrônicos de consumo que vai de televisores e sistemas domésticos inteligentes a smartphones. Suas redes de telecomunicações e centros de dados mantêm a população online; seus sistemas de direção autônoma estão incorporados em um número crescente de carros elétricos. Ela projeta semicondutores, fabrica painéis solares e até mesmo tem hotéis. Também opera sistemas de vigilância para governos locais, ao mesmo tempo que aproveita seu enorme poder de compra e distribuição para pressionar fornecedores e concorrentes.

Não é exagero chamá-la de “a empresa mais poderosa da China”, como faz Eva Dou em seu novo livro, “House of Huawei” (Portfolio, 448 págs., R$ 133,36 no Kindle). A jornalista do “The Washington Post” e ex-correspondente na China escreveu um relato detalhado de uma empresa que se tornou um sinônimo da crescente supremacia tecnológica da China e também um ponto crítico nas relações entre os EUA e a China.

A Huawei é uma companhia extremamente ambiciosa. Desde sua fundação em 1987, em Shenzhen, ela passou a dominar as redes globais de telecomunicações por meio de apostas tecnológicas estratégicas. Ao longo do caminho, ela atraiu um escrutínio crescente de governos de várias partes do mundo que temem que o equipamento de rede da Huawei permita a espionagem por Pequim.

No entanto, pouco se sabe sobre o funcionamento interno desta misteriosa companhia. Ela despertou a atenção global em 2018, após a prisão de sua diretora financeira, Meng Wanzhou, no Canadá. Os EUA tentaram extraditar Meng, também filha do enigmático fundador da Huawei, Ren Zhengfei, por seu papel nos negócios da empresa no Irã sob sanções. O livro narra o drama em detalhes e explica por que a Huawei se viu no centro de tanta controvérsia.

É uma narrativa que está no cerne da relação geopolítica mais significativa da atualidade e ajuda o leitor a entender por que Washington e Pequim estão em conflito sobre o destino da companhia que desempenhou um papel crucial no fortalecimento do ecossistema tecnológico da China e na ampliação de sua influência internacional. Washington pressionou aliados a parar de usar os equipamentos 5G da Huawei, ao que o Reino Unido inicialmente resistiu, mas acabou cedendo, ordenando a remoção dos equipamentos das redes públicas.

Donald Trump impôs sanções à Huawei pela primeira vez em 2019, durante seu primeiro mandato, restringindo a capacidade de algumas empresas americanas de fazer negócios com ela por preocupações com a segurança nacional. A medida transformou a Huawei em mártir na China. O ataque de Washington continuou sob o presidente Joe Biden, que aumentou ainda mais as restrições sobre a companhia. Pequim fez grandes esforços para apoiar a Huawei em meio à crise que se seguiu após ela ter sido impedida de obter tecnologias estrangeiras essenciais que usava em seus produtos. O governo concedeu subsídios generosos, pressionou clientes a optarem por seus produtos em vez de alternativas importadas e poupou a Huawei de qualquer ação durante a repressão ao setor de tecnologia que limitou o poder de algumas gigantes chinesas como a Tencent e a Alibaba.

Agora, Marco Rubio, a escolha de Trump para secretário de Estado do novo governo dos EUA, aponta para outros quatro anos turbulentos para a Huawei. Recentemente, Rubio escreveu um artigo de opinião para o “Miami Herald” afirmando que o objetivo da Huawei é a “dominação global”, chamando-a de “menos uma empresa de telecomunicações do que um ativo geopolítico do Partido Comunista chinês”. A Huawei insiste que é uma companhia privada e que o governo não interfere em seus negócios ou na segurança de seus produtos.

A prisão de Meng forçou a Huawei a se abrir para o mundo exterior. Ren, que evita a imprensa, deu entrevistas à mídia estrangeira como parte de um esforço para ajudar no caso de sua filha. Eva Dou narra a vida de Ren — desde a infância pobre em Guizhou, uma província montanhosa no sudoeste da China, até o comando da maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo — de uma maneira que ajuda o leitor a entender o que motiva esse engenheiro notoriamente implacável.

O primeiro negócio da Huawei foi importar centrais telefônicas antes de começar a fabricar suas próprias versões mais baratas, copiando designs estrangeiros no processo. Mais tarde, ela se beneficiou de uma política governamental para eliminar a tecnologia estrangeira das redes de comunicações da China. A Huawei desenvolveu uma reputação de generosidade para com funcionários do governo e executivos de telecomunicações, pagando viagens internacionais e organizando banquetes luxuosos em sua sede. Dou retrata Ren como um mestre em criar redes de contatos, com iniciativas que incluíam enviar bolos de aniversário para especialistas em telecomunicações aposentados que haviam ajudado a Huawei.

Há muitas perguntas sem respostas sobre a Huawei que estão na raiz de seus problemas com os EUA. Qual é a sua relação com o Partido Comunista chinês? Sua tecnologia facilita a espionagem de Pequim no exterior? Qual é a relação de Ren com o Exército de Libertação do Povo, onde ele foi um engenheiro? As primeiras inovações da Huawei em tecnologia de roteadores surgiram, como afirmam seus críticos, do roubo desenfreado de propriedade intelectual de concorrentes ocidentais, que ela então aniquilou?

Dou não oferece uma resposta definitiva a essas perguntas, mas expõe eloquentemente fatos disponíveis e permite aos leitores tirar suas próprias conclusões. Ela também é transparente sobre os limites da reportagem ao tentar compreender essa empresa deliberadamente opaca. O leitor fica com a impressão de que o apoio político foi fundamental para a ascensão da Huawei e que Pequim tem um grande interesse em seu sucesso.

“House of Huawei” é mais impactante ao descrever como a empresa venceu a disputa pela dominação dos sistemas de comunicação de rede globais. As companhias de tecnologia chinesas são famosas por suas longas jornadas de trabalho e pela cultura de dedicação extrema. Mas nenhuma delas tanto quanto a “guerreira-lobo” Huawei, que enviou trabalhadores durante a epidemia de Sars em 2003 para conquistar contratos enquanto empresas estrangeiras retiravam sua força de trabalho durante a crise de saúde, e desafiou avisos oficiais para sair de países em crise durante a Primavera Árabe, enviando engenheiros para consertar equipamentos danificados por manifestantes.

A Huawei reflete a ascensão de muitas outras empresas chinesas que se aventuraram em setores dominados pelo Ocidente. Inicialmente, os concorrentes desdenharam da empresa, dizendo que ela não conseguiria inovar. Isso foi um erro fatal, pois a Huawei acabou dominando a implementação da tecnologia 5G e agora busca projetos cada vez mais ambiciosos.

Embora o livro forneça um relato claro do crescente domínio da Huawei nas comunicações de rede, ele não aborda seus negócios mais novos que vê como o futuro da empresa, como a inteligência artificial generativa e a direção autônoma. Mas ele fornece ao leitor um relato equilibrado e detalhado de uma companhia que resistiu a múltiplas crises existenciais e emergiu cada vez mais poderosa.

Após o retorno de Meng à China no fim de 2021, o breve período de abertura terminou. Ela parou de cortejar jornalistas estrangeiros e de fornecer detalhamentos financeiros nos relatórios anuais. Ela não cooperou com Dou no livro. Com a Huawei se afastando dos holofotes e a cobertura desta empresa se tornando mais difícil, um livro descrevendo suas origens e lugar na história corporativa é mais necessário do que nunca.

(Tradução de Mario Zamarian)

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