Temos tanto a dizer?


Precisamos de uma alternativa intelectualmente mais sustentável, ambientalmente mais amigável e mentalmente mais saudável do que o dilema das redes

Por Isabel Clemente – Valor – 31/01/2025 Carioca, é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London

Você não vai postar nada sobre a peça que assistiu? Já faz quatro dias. Grava logo um vídeo sobre este livro porque você já terminou dois e não escreveu nada. Essa é a voz na minha cabeça me cobrando mais conteúdo para as redes sociais. Tem uma outra voz aqui dentro, no entanto, que enxerga problemas nessa acelerada produção e é ela quem vai falar agora.

Primeiro: a criação infinita de conteúdo usa uma quantidade cavalar de energia para manter nuvens que, de nuvens, não têm nada. São concretas e ocupam infraestrutura terrena. Produzem lixo. Gastam água. E precisam de energia, quase sempre gerada com emissão de gases do efeito estufa, que se vingam de nós na forma de incêndios florestais, inundações e tufões.

Segundo: produzir cada vez mais empurra a sociedade para o uso sem limites da inteligência artificial, porque poupa tempo e pensamento. O neurocientista Miguel Nicolelis, aquele do exoesqueleto, disse, numa entrevista ao Deu Tilt, podcast do UOL, que o marketing da inteligência artificial está muito bem-feito. “Se tudo o que você vai fazer daqui pra frente é baseado em um banco de dados do que já foi feito, você não tem futuro”, afirmou Nicolelis.

Terceiro: tudo o que é demais enjoa, como dizia minha mãe na tentativa de frear meus afãs juvenis. Eu achava aquele papo chatíssimo e cá estou décadas depois do fim da minha adolescência me achando um pouco adolescente e concordando com ela. Há um excesso de conteúdos enjoativos, porque repetitivos, porque feitos para constar.

Especialistas em marketing digital já me disseram que, para tornar meu trabalho mais conhecido, eu deveria postar um vídeo por dia, de preferência, três. Dois problemas aí. Primeiro: nem eu me aguento tanto. Segundo: como fica a vida lá fora? Estou com mania de enumerar problemas hoje.

Os especialistas me contam que, no caso dos livros digitais, que pagam por página lida, eu poderia faturar publicando um livro por mês. Tem quem faça e você sabe à custa de quê: qualidade do texto e saúde mental. Esse ritmo é insano. Ninguém tem tanto a dizer em tão pouco tempo. Ninguém consegue ser relevante com essa frequência nem viver em paz com essa pressão. Textos precisam dormir e ideias, assimiladas. Tem um processo de decantamento do conhecimento que está sendo atropelado em nome da quantidade.

Máquinas de produzir conteúdo podem funcionar bem com mais gente envolvida. A qualidade tende a melhorar. Tem muita coisa boa em meio ao frenesi. Tem improviso que presta. Já a turma do eu sozinho, que é a maioria, com boleto para pagar e que só quer sobreviver, vai se esforçar e se repetir e baixar a guarda e opinar sobre tudo e prometer algo fantástico para o fim do vídeo e chegar ao fim sem ter o que dizer de novidade porque haja conteúdo.

A filósofa e escritora Marilena Chauí, em entrevista recente, explica o que chamou de “nova subjetividade produzida pelo mundo digital”, onde é preciso ser visto para existir. “Ser visto é a primeira marca do narcisismo. Mas, como para ser visto você depende do olhar do outro, algo que a gente não controla, como Freud dizia, o narcisismo é inseparável da depressão”, diz. Logo, essa subjetividade nova “é narcisista, depressiva e depende desesperadamente do olhar alheio”.

Eu vivo o dilema das redes. Preciso e rejeito. Conheci pessoas incríveis e desperdicei meu tempo. Estou na turma do eu sozinho tentando dissociar meu terabyte na nuvem da mudança climática. Alimento a fera com reservas e me sinto numa encruzilhada. Desaparecer não é uma opção. Produzir loucamente também não.

Talvez parte da solução esteja nos movimentos de resistência, aqueles do slow alguma coisa. Ou quem sabe as big techs um dia (devidamente pressionadas) revertam a lógica em vigor, apostando num critério que desacelere todo mundo em nome da qualidade. Em defesa do meu direito de ser utópica, lembro que, quando eu era menina, ninguém imaginou onde estaríamos agora. Mentira. Imaginar até imaginou, mas não com o grau de perversão que a humanidade acrescentou. Se a capacidade humana para surpreender é ilimitada, para fazer o certo também tem que ser.

Precisamos de uma alternativa intelectualmente mais sustentável, ambientalmente mais amigável e mentalmente mais saudável. Desconfio que é no mundo de verdade, onde comemos, dormimos, amamos e sofremos, lá onde poucos têm a chance de nos espiar e onde somos erros e acertos, que o conhecimento se esconde. É lá, portanto, onde encontraremos as respostas para as perguntas em aberto. E essa procura não rende três reels por dia.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: ttps://chat.whatsapp.com/GBBZ1SCBDTkC2uPqSe6kP7 para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Deixe um comentário