Pequim é ágil para driblar tarifas


Entre 2003 e 2007, a China liderava em só 3 entre 64 tecnologias consideradas críticas. Entre 2019 e 2023, tornou-se líder em 57 dessas tecnologias

Por Tej Parikh – Valor – 21/01/2025 

Bem-vindo de volta. Donald Trump foi empossado como presidente dos Estados Unidos ontem. Que melhor momento do que este para agitar os ânimos com uma visão contrária aos planos de sua equipe para pressionar a China no comércio exterior, indústria e tecnologia?

De forma compreensível, muitos entendem que as tarifas e restrições adicionais sobre a China serão ruins para sua economia. Os esforços protecionistas de Trump, contudo, poderiam causar menos dano do que se imagina. Na verdade, a indústria chinesa pode ser capaz de prosperar apesar deles (ou mesmo por causa deles). Aqui estão os contra-argumentos.

Comecemos com o impacto econômico direto e imediato das tarifas. A China diversificou-se e passou a depender menos do mercado americano desde o primeiro mandato de Trump. Hoje, a demanda total dos EUA por produtos chineses representa cerca de 2,8% do Produto Interno Bruto (PIB) da China, de acordo com a firma de análises Capital Economics. Seus cálculos indicam que um aumento na tarifa efetiva de cerca de 15% para 60% (no cenário extremo) – como ameaçado por Trump – poderia fazer a economia chinesa encolher apenas 1%. Outros economistas têm conclusões semelhantes.

Esse impacto talvez seja menor do que muitos imaginavam e, além disso, não leva em conta outros fatores neutralizadores.

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A China pode desviar exportações para outros destinos onde a demanda está em alta. Na esteira das tarifas aplicadas no primeiro mandato de Trump, as exportações de Pequim para mer mercados emergentes de rápido crescimento decolaram. A demanda por produtos chineses no mundo desenvolvido, excluindo os EUA, também aumentou. Outros países – em particular, os da Iniciativa do Cinturão e da Rota, também conhecida como Nova Rota da Seda, com os quais a China passou décadas fortalecendo laços econômicos – desejarão manter o comércio de baixo custo com Pequim.

A China diversificou e depende menos do mercado americano desde o primeiro mandato de Trump. Hoje, a demanda dos EUA por produtos chineses é de cerca de 2,8% do PIB da China. Um aumento na tarifa para 60% faria a economia chinesa encolher apenas 1%

Além disso, os produtos chineses ainda podem chegar aos EUA via reexportação – envio por meio de um terceiro país – permitindo aos produtores driblarem as tarifas. Trump já sabe disso e tentará fiscalizar países como México e Vietnã. Isso, porém, não será fácil nem rápido. As empresas chinesas já vêm se protegendo contra esse risco ao montar fábricas em outros países.

O yuan provavelmente também se desvalorizará quando as tarifas forem anunciadas, mantendo as exportações chinesas competitivas. No primeiro mandato de Trump, a desvalorização do yuan compensou o impacto das tarifas.

Levando em conta todos os fatores, o impacto econômico direto pode ser bem inferior a 1%.

As pressões no custo de vida e a urgência das mudanças climáticas fazem com que a lógica econômica de importar produtos baratos da China (pelo menos fora dos EUA) continue forte.

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A competitividade de preços da China vem de sua especialização na obtenção de suprimentos, refino e produção de bens alinhados aos setores globais de alto crescimento. Uma estratégia industrial de décadas guiada pelo Estado deu à China um domínio vertical nas cadeias de suprimentos para veículos elétricos, baterias e fontes de energia renováveis, desde as commodities de terras-raras até os produtos acabados.

O país fabrica mais de 30% da produção industrial mundial (superando a soma dos nove maiores produtores seguintes). A China possui vantagens comparativas em uma ampla gama de produtos: não apenas nos tradicionais brinquedos e roupas “Made in China”, mas também em produtos complexos de alta tecnologia.

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De fato, os esforços para restringir o poderio industrial da China costumam subestimar seu grau de domínio e a capacidade de Pequim de usar o aparato estatal para respaldar seus produtores. O economista chinês Lisheng Wang, do Goldman Sachs, sinalizou que “as contínuas políticas de apoio à indústria de alta tecnologia” e “o afrouxamento fiscal” ajudariam a suavizar o impacto das tarifas.

Pequim poderia usar o crescente protecionismo dos EUA como uma oportunidade para melhorar relações comerciais com aliados frustrados dos EUA. Também poderia retaliar vetando o acesso a materiais brutos vitais. A China detém 36% das reservas mundiais de terras-raras, mas controla 70% da oferta mundial (daí a obsessão de Trump com a Groenlândia).

Por fim, embora o Ocidente tenha vantagens na inteligência artificial (IA), semicondutores e computação quântica, o protecionismo nessas áreas pode não atrapalhar o avanço tecnológico da China tanto quanto se imagina.

Com controle federal sobre seu setor privado, Pequim se vale de subsídios, diretrizes e incentivos para cumprir o objetivo de Xi Jinping de liderar o mundo em inovação científica e tecnológica. A estratégia industrial liderada pelo Estado tem suas falhas, mas a China é melhor do que qualquer outro país em executá-la bem.

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Isso significa que os controles dos EUA sobre suas exportações podem motivar as empresas chinesas – apoiadas por Pequim – a redobrar os esforços de substituição de importações e de independência tecnológica por meio de soluções criativas, da colaboração local e até de mercados paralelos. As fabricantes chinesas enfrentam “competição ferrenha” entre si por apoio estatal.

“Em termos líquidos, as restrições americanas aceleraram o ímpeto chinês de inovação”, disse Dan Wanq, pesquisador no Pau Tsai China Center, da Yale Law School. “Antes, Huawei e BYD compravam os melhores componentes no mercado, mas agora seus incentivos estão alinhados aos do governo chinês. O dinheiro da Huawei agora vai para as firmas locais de semicondutores”.

Segundo o Australian Strategic Policy Institute, entre 2003 e 2007, a China liderava em só 3 entre 64 tecnologias consideradas críticas. Entre 2019 e 2023, o país tornou-se líder em 57 dessas tecnologias.

Pequim desenvolveu um processo local para impulsionar a inovação científica. O país tem o maior número de formados do mundo nas áreas conhecidas como STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) e oferece capital de longo prazo para pesquisa e desenvolvimento (que, como proporção do PIB, está cada vez mais próximo ao dos EUA).

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Ainda assim, a situação pode não se desenrolar a favor da China. Por exemplo, a agenda protecionista de Trump poderia gerar uma incerteza internacional generalizada, o que deprimiria a demanda e amplificaria o impacto das tarifas sobre a economia chinesa. O resto do mundo também poderia adotar uma postura mais rigorosa em relação às importações provenientes da China. Além disso, o modelo de inovação guiado pelo Estado chinês não é uma nenhuma panaceia. Depende de o governo tomar as decisões corretas na alocação (e na retirada) de recursos. Isso pode gerar desperdícios.

A China também se depara com grandes problemas econômicos estruturais. Sua trajetória de crescimento perdeu força e o país encontra dificuldade para reanimar os “espíritos animais” e impulsionar o nível do consumo, depois da crise do mercado imobiliário. Isso torna o país dependente demais do crescimento alimentado pelos investimentos e pelas exportações.

Ainda assim, o argumento continua de pé. As tarifas de Trump podem não ser tão prejudiciais para a indústria e a supremacia tecnológica da China como se previa. Pequim tem problemas maiores com os quais se preocupar. (Tradução de Sabino Ahumada)

Tej Parikh é o principal redator de economia do Financial Times.

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