Ministério do Comércio da China anunciou nesta terça-feira que vai proibir a exportação aos EUA dos chamados itens de uso duplo
Por Valor/Financial Times — 03/12/2024
A China proibiu as remessas aos EUA de vários minerais e metais usados na produção de semicondutores e em aplicações militares, em uma rápida retaliação de Pequim contra novos controles sobre as exportações americanas anunciados por Washington.
O Ministério do Comércio da China anunciou nesta terça-feira que vai proibir a exportação aos EUA dos chamados itens de uso duplo (civil e militar), como gálio, germânio, antimônio e materiais superduros, e impor restrições mais rigorosas relacionadas ao grafite.
O ministério acusou Washington de usar “o comércio exterior e a tecnologia como armas” sob o pretexto de segurança nacional. A retaliação se dá após os EUA terem imposto, na segunda-feira, outra rodada de amplos controles sobre as exportações, concebidos com a ideia de dificultar o desenvolvimento da inteligência artificial militar pela China.
“Para proteger a segurança nacional […] a China decidiu fortalecer os controles de exportação sobre itens de uso duplo destinados aos EUA”, comunicou o ministério, acrescentando que as medidas seriam aplicadas de imediato.
Por sua vez, quatro grandes associações setoriais chinesas que representam empresas das áreas de internet, automóveis, semicondutores e comunicações também reagiram às medidas americanas, orientando as integrantes a reduzir a compra de chips dos EUA.
“Os produtos de chips dos EUA não são mais seguros ou confiáveis, e os setores chineses pertinentes devem ter cautela ao adquiri-los”, declarou a Associação da Indústria de Semicondutores da China.
Os minerais e metais embargados são usados na produção de semicondutores, baterias, componentes de equipamentos de comunicação e produtos militares, como munições perfurantes.
A China já vinha reforçando os controles de exportação em resposta às crescentes sanções americanas e de seus aliados sobre os chips. Restrições anteriores às remessas de germânio e gálio resultaram em altas de quase 100% nos preços desses minerais na Europa.
A nova proibição chinesa às exportações deixa claro que o governo do presidente Xi Jinping está disposto a atacar interesses econômicos ocidentais em retaliação às restrições aos chips impostas por Washington.
“Antes, a China havia concluído que conter os ataques desaceleraria o ritmo de dissociação [entre as duas economias], mas agora eles concluíram que conter os ataques é um convite a mais sanções dos EUA, e que é necessário reagir para impor custos”, disse Scott Kennedy, especialista em China do CSIS, um centro de estudos de Washington.
O Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês) dos EUA comunicou “ainda [estar] avaliando” os controles, mas que tomará medidas para mitigar seus impactos e dissuadir “ações coercitivas” de Pequim.
“Esses novos controles apenas reforçam a importância de intensificar nossos esforços com outros países para reduzir a exposição a riscos e diversificar as cadeias de suprimentos cruciais, afastando-as da República Popular da China”, ressaltou o NSC.
Especialistas em China nos EUA estavam na expectativa para saber se Pequim intensificaria a retaliação contra os controles sobre as exportações americanas.
“Esta é uma sinalização para o novo governo Trump de que a China está preparada para responder com medidas retaliatórias”, disse Wendy Cutler, especialista em comércio exterior do Asia Society Policy Institute.
O impacto imediato das medidas é incerto, segundo Cutler, tendo em vista que os EUA já vinham diversificando suas cadeias de suprimentos. “Mas a China pode adicionar outros produtos à lista de controle das exportações, o que teria um impacto muito maior” sobre os EUA.
No início do ano, a China ameaçou, de forma reservada, restringir a exportação de minerais críticos para o Japão, caso Tóquio aderisse aos controles de exportação dos EUA.
A China produz 98% do suprimento mundial de gálio e 60% do de germânio, segundo a Agência de Inspeção Geológica dos EUA (USGS).
Os controles americanos anunciados na segunda-feira incluíram restrições mais rigorosas à exportação de ferramentas cruciais para a produção de semicondutores e uma proibição à exportação para a China de chips de “memória de alta largura de banda” (HBM), um componente fundamental para produtos de inteligência artificial.
Ainda assim, analistas da Bernstein disseram que as restrições americanas foram menos severas do que se imaginava. Empresas japonesas de equipamentos para chips foram vistas como tendo sido beneficiadas pelas novas restrições, com as ações do setor levando o índice Nikkei a seu maior patamar em três semanas na terça-feira. A Tokyo Electron teve alta de 4,3%, enquanto a Disco Corp e a Lasertec avançaram 6,1% e 4,3%, respectivamente.
Washington também adicionou 136 empresas chinesas a uma lista especial de restrições comerciais dos EUA, entre as quais a Wingtech, uma importante fornecedora da Apple e da Samsung que vinha se empenhando em adquirir tecnologia estrangeira de semicondutores.
Desde 2018, a Wingtech gastou mais de US$ 4 bilhões, na aquisição da fabricante holandesa de semicondutores Nexperia. Também tentou comprar a Newport Wafer Fab, maior fabricante de chips do Reino Unido, em transação que acabou sendo vetada pelo governo britânico.
A inclusão da Wingtech na lista especial de restrições dos EUA fez suas ações negociadas em Shenzhen caírem mais de 10% em duas sessões, o que coloca em evidência o delicado equilíbrio para as empresas chinesas entre expandir seus negócios internacionais e apoiar as prioridades políticas de Pequim em casa.
Antes, a Wingtech havia comprado uma empresa com negócios relacionados aos módulos de câmeras da Apple de outro grupo chinês,depois de ele ter sido alvo de sanções em 2020.
“As empresas ocidentais não compram mais de nós”, disse um gerente de uma firma na lista de restrições. “Por dois anos, basicamente deixamos de crescer, enquanto substituíamos os componentes estrangeiros”.
De acordo com Charlie Chai, da firma de análises 86Research, a Wingtech poderia ser desmembrada caso isso seja necessário para manter negócios internacionais. Ele destacou que os novos controles dos EUA fecharam brechas, tornando mais difícil para as empresas de chips chinesas comprarem equipamentos estrangeiros.
“Isso se transformou num clássico jogo de gato e rato, mas o espaço para manobrar está encolhendo rapidamente para as empresas chinesas”, disse.
A Wingtech não respondeu de imediato a um pedido para se pronunciar. A Nexperia informou que os controles dos EUA não se aplicam a ela nem a suas subsidiárias.
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