Nova geração de nativos algorítmicos viverá em simbiose com IA


Inteligência artificial, presente desde o início da vida, será interface fundamental de humanos com o mundo

 Stephanie Jorge e Caio Túlio Costa – Folha – 7.nov.2024 

Stephanie Jorge

Publicitária, pós-graduada em ciência de dados pela USP e fundadora do Torabit, plataforma de monitoramento digital

Caio Túlio Costa

Jornalista, doutor em comunicação pela USP e fundador do Torabit. Foi editor da Ilustrada, secretário de Redação, correspondente em Paris e ombudsman da Folha e o primeiro diretor do UOL

[RESUMO] Autores argumentam que, depois da passagem dos nativos analógicos para os nativos digitais, a humanidade vive hoje a transição para a era dos nativos algorítmicos, geração que será moldada pela influência determinante da inteligência artificial. A transformação pode criar uma nova identidade humana, em que a tecnologia deixará de ser uma ferramenta externa para se tornar parte intrínseca da experiência individual.

As expressões nativos analógicos e nativos digitais já fazem parte do vocabulário comum. Não são apenas jargões técnicos ou acadêmicos —as pessoas se reconhecem nesses termos.

A geração analógica nos lembra de tempos em que os jornais eram impressos em papel, livros físicos ocupavam muito espaço nas estantes e as interações sociais dependiam de encontros presenciais ou de ligações telefônicas que, muitas vezes, exigiam paciência até que alguém estivesse disponível. Era uma época em que carros só funcionavam com motoristas humanos, e as crianças corriam pelas ruas, longe das telas que definem as infâncias contemporâneas.

O termo nativo digital apareceu pela primeira vez em 2001, cunhado por Marc Prensky, escritor americano e especialista em educação, no artigo “Digital natives, digital immigrants“. Ele falava de gerações que nasceram em um mundo no qual computadores, videogames e, mais tarde, a internet, se tornaram parte integral da vida cotidiana.

As crianças que nasceram após os anos 1980 não conhecem outra realidade que não seja definida pela presença constante da tecnologia. Elas não precisaram aprender a “entrar” nesse mundo digital, porque já nasceram dentro dele. Assim como um peixe não percebe a água ao seu redor, os nativos digitais raramente se questionam sobre a onipresença dos dispositivos, redes sociais ou algoritmos que moldam suas experiências.

Os nativos analógicos vieram de uma época em que o progresso tecnológico caminhava em outro ritmo. Eles cresceram sem a internet, sem smartphones, sem a constante interação com telas. Suas vidas eram marcadas por tecnologias que hoje parecem primitivas: máquinas de escrever, televisões de tubo e telefones fixos.

Para essa geração, o salto para o digital representou uma transformação drástica, e muitos se viram obrigados a se adaptar a novas e desconhecidas realidades tecnológicas. Isso não foi um processo simples; exigiu aprendizado, adaptação e carregou, em muitos casos, resistência. Lidar com a transição para o digital foi mais do que aprender a usar um novo dispositivo —foi uma mudança de mentalidade, uma reconfiguração da maneira como se comunicavam, trabalhavam e viviam.

Mas, agora, algo novo está emergindo. Se os nativos digitais nasceram integrados ao mundo da tecnologia e os nativos analógicos tiveram de se adaptar, estamos à beira de uma nova transição: a era dos nativos algorítmicos. Essa nova geração crescerá em um ambiente onde a IA (inteligência artificial) estará presente desde os primeiros momentos de suas vidas.

Diferente dos nativos digitais, que aprenderam a interagir com smartphones e redes sociais, os nativos algorítmicos terão suas vidas profundamente moldadas e direcionadas por algoritmos. Não será apenas uma questão de usar a tecnologia como ferramenta —ela será um elemento intrínseco de sua formação e de suas experiências diárias.

Essas crianças não apenas usarão a tecnologia, elas viverão em simbiose com ela. Para elas, assistentes virtuais, veículos autônomos e algoritmos que personalizam suas interações serão tão comuns quanto os smartphones são para os nativos digitais de hoje. Desde os primeiros meses de vida, algoritmos irão ajustar suas experiências de aprendizagem, suas interações sociais e até suas escolhas de vida. O que para nós ainda é uma ideia embrionária —a inteligência artificial influenciando decisões— será, para esses novos humanos, algo tão rotineiro quanto a luz elétrica o foi para as gerações passadas.

Pense nas pequenas crianças nativas digitais de hoje, muitas delas embaladas ao som e às imagens estroboscópicas da “Galinha Pintadinha“, transmitidas pela tela de um tablet. Elas se familiarizam com o toque em uma tela de vidro antes mesmo de aprenderem a segurar um lápis. Os nativos algorítmicos viverão em um mundo em que a IA estará presente desde o primeiro dia de suas vidas, adaptando-se a seus ritmos, preferências e necessidades. Não será apenas uma questão de entretenimento —a IA se tornará uma interface fundamental entre o ser humano e o mundo.

Talvez, no futuro, esses nativos algorítmicos olhem para nós, seus pais e avós, e perguntem com uma certa incredulidade: “Vocês realmente precisavam fazer todas as suas escolhas sozinhos? Decidiram suas carreiras, seus relacionamentos, suas finanças sem consultar um algoritmo?”. E nós, talvez com um misto de nostalgia e estranheza, responderemos: “Sim, e algumas vezes até acertávamos”.

Se os nativos analógicos tiveram que enfrentar a revolução digital e os nativos digitais se adaptaram a ela sem esforço, agora estamos diante de uma geração que será completamente moldada pela inteligência artificial. Podemos chamá-los de geração sintética. Aqui, não estamos falando apenas de uma geração que usará a IA para tomar decisões triviais ou facilitar a vida cotidiana. A IA será uma presença profunda e constante, influenciando, talvez até determinando, a maneira como esses novos humanos pensam, aprendem e interagem entre si e com o mundo.

Se, por um lado, a integração contínua da IA na nossa vida pode parecer que vai melhorar muitos aspectos da experiência humana, vamos fazer uma reflexão pelo terreno da comunicação, apenas uma entre milhares de áreas que precisam ser reconsideradas à luz da IA.

Hoje, os nativos digitais preferem se comunicar por texto ou áudio gravado. Para eles, receber uma ligação por voz de alguém, ao vivo, é quase que uma infelicidade, é visto como algo sem propósito, algo do passado.

No texto, os chamados emojis são essenciais. Eles facilitam a comunicação instantânea, permitindo que uma lágrima, um sorriso ou uma explosão de raiva sejam transmitidos em segundos. Contudo, essa mesma facilidade que agiliza a troca de mensagens pode ser também uma forma de empobrecimento da linguagem. As palavras, que antes carregavam consigo nuances emocionais, subjetividades e camadas de significado, agora são frequentemente substituídas por um ícone que, embora universal, é limitado em sua capacidade de transmitir as sutilezas da condição humana.

Mas a geração sintética pode vivenciar algo muito diferente. Um dos efeitos colaterais positivos —e provavelmente não intencionais— dessa fusão com a IA poderá ser o retorno a uma linguagem correta, mais rica e detalhada. Enquanto os nativos digitais se acostumaram com abreviações, ícones e atalhos emocionais, os nativos algorítmicos terão assistentes de IA que não só revisarão suas mensagens, mas também as aprimorarão. Cada interação será uma oportunidade de aprendizado linguístico, onde algoritmos irão sugerir não apenas correções gramaticais, mas melhorias de estilo, vocabulário e até mesmo a escolha de palavras que melhor refletem o que se deseja comunicar.

Imagine um jovem digitando celeremente “To indo. A gnt se vê dps” e a IA sugerindo: “Estou a caminho. Nos encontraremos mais tarde”. Esse processo contínuo de refinamento não apenas corrigirá erros, mas reeducará o usuário, oferecendo-lhe a possibilidade de expressar-se de forma mais clara, elaborada e, paradoxalmente, mais humana.

Esse possível aprimoramento, contudo, levanta questões importantes sobre o futuro da espontaneidade humana. Se nossas palavras, decisões e até pensamentos forem continuamente modelados e otimizados por algoritmos, até que ponto nossa voz continuará sendo verdadeiramente nossa? A experiência humana, com todas as suas contradições e incertezas, é marcada justamente pelo erro, pela imprevisibilidade, pela tentativa. Se cada palavra, cada gesto for calibrado para a versão “ideal”, o que será feito de nossa autenticidade? A geração sintética terá uma voz híbrida, uma fusão do humano com o algoritmo.

Eles poderão ser mais precisos, mais articulados, mas, talvez, menos imprevisíveis. É possível que se tornem mais eficientes em transmitir o que sentem e pensam, mas, ao mesmo tempo, menos espontâneos, menos surpreendentes —características tão intrinsecamente humanas.

Essa dualidade na comunicação é apenas um reflexo do que pode acontecer em todos os aspectos da existência. A presença constante da IA em nossas vidas claramente não trará apenas benefícios, mas também nos forçará a confrontar esse paradoxo fundamental: até que ponto estamos dispostos a trocar a imperfeição humana por uma versão otimizada de nós mesmos?

Talvez já estejamos caminhando para um ponto em que não seremos mais apenas Homo sapiens —o homem sábio—, mas algo novo, algo que reflita essa integração cada vez mais profunda com a tecnologia. Podemos estar diante do surgimento do Homo aineticus, um ser cuja sabedoria não é apenas resultado de sua cognição biológica, mas da união entre a inteligência humana e a artificial.

Este artigo tem como objetivo propor semanticamente três denominações possíveis para essa nova e futura realidade, além de deixar registrado, pela primeira vez, essas novas classificações que passam a ser publicadas aqui pela primeira vez. Assim, ficam informalmente patenteadas:

  • “Aineticus”, criação baseada na fusão de dois conceitos: AI, primeira sílaba, sigla de inteligência artificial em inglês, que representa o elemento tecnológico que permeia todas as interações dessa nova era; e “neticus”, derivado do termo grego “kinesis”, que significa movimento, ação ou dinâmica, simbolizando a transformação na relação entre humanos e máquinas;
  • Geração sintética: denominação para aqueles que crescerão em um ambiente onde a IA participa ativamente de todas as esferas da vida;
  • Nativos algorítmicos: aqueles cuja vida será profundamente influenciada por algoritmos, em todos os aspectos. Não será mais uma questão de escolha, mas de coexistência.

Essas três denominações servem para nos lembrar que estamos apenas começando a compreender a profundidade das mudanças que estão por vir. Não é mais uma questão de se adaptar ao digital ou de aprender a conviver com o algoritmo. Estamos diante da criação de uma nova identidade humana, uma redefinição do que significa viver e existir em um mundo onde a inteligência artificial não será mais uma ferramenta externa, mas uma parte intrínseca do próprio tecido da experiência humana.

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